Opinião
06 de março de 2026- Visualizações: 1153
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Uma igreja comprometida com a dignidade das mulheres
Como o acolhimento a nossas mulheres pode se tornar uma marca da igreja, a ponto de impactar toda a sociedade?
Por Cynthia Muniz Soares
No mês de março, é celebrado o Dia Internacional da Mulher, data que reverbera em inúmeras igrejas do Brasil por meio de programações especiais, cultos temáticos e, em alguns casos, com mulheres sendo convidadas para ocupar os púlpitos. Particularmente, já tive a oportunidade de falar em algumas ocasiões assim, mas, nesta reflexão, quero compartilhar algumas preocupações que acumulei ao longo da minha jornada como mulher cristã.
Em primeiro lugar, quero dizer que não há nada de errado com essa data e, em especial, com o que ela representa – a conquista de direitos básicos para todas as mulheres e a memória daquelas que foram pioneiras na luta por essas conquistas. No entanto, entendo que a valorização da mulher, e não somente dela, mas de todo ser humano, é mais do que uma questão de agenda: é algo com o qual toda a igreja precisa estar constantemente engajada.
A teóloga Ingrid Faro disse algo que me fez refletir muito nos últimos dias: “Observamos que, nas Escrituras, a maneira como os homens tratam as mulheres reflete sua condição espiritual, algo que reverbera em suas famílias e, frequentemente, em toda a nação”.1 Ela faz referência às inúmeras narrativas bíblicas nas quais mulheres sofrem violência, abuso ou são subjugadas por serem mais vulneráveis, como, por exemplo, no livro de Juízes ou nas narrativas envolvendo os reis de Israel. Assim, a Bíblia não esconde a deturpação das dinâmicas de poder entre os seres humanos após a entrada do pecado no mundo. Ela apresenta essas situações incômodas, mostrando como era necessária a intervenção de Deus por meio da encarnação de Cristo, pois, em seu caminhar com discípulos e discípulas, ele ensinou que o verdadeiro poder é aquele exercido em humildade e serviço.
Cristo veio para nos humanizar, o que, na prática, significa sermos mais parecidos com ele e vivermos conforme a vontade de Deus para sua criação – uma criação chamada a refletir bondade, justiça e paz. Esses são ideais dos quais ainda estamos muito distantes como sociedade e que se tornam cada vez mais urgentes diante daquilo que temos observado nas notícias e no nosso próprio convívio.

Todos os dias somos assolados por notícias terríveis sobre atos de violência cometidos contra mulheres. O Brasil, país com altos índices de violência de gênero e feminicídios, continua sendo palco dessas injustiças, muitas delas fruto de uma visão deturpada sobre a mulher. Embora os evangélicos tenham crescido significativamente nas últimas décadas, o cristianismo como um todo ainda constitui a maioria dos que se declaram religiosos no país, o que torna esse cenário ainda mais preocupante.
Costumo dizer que nunca foi fácil ser mulher neste mundo. Em todas as épocas da história e em todos os lugares – quer em palácios, nas guerras ou na vida comum, nos padrões sufocantes que muitas vezes nos são impostos –, mulheres estão entre as pessoas mais vulneráveis, por vezes objetificadas e, até mesmo, tratadas como bens ou despojos. Tudo isso é reforçado por uma cultura de culpabilização e impunidade. Trata-se de uma perspectiva tão terrível quanto aquela que, ao longo da história, permitiu que pessoas fossem escravizadas e abusadas: uma deturpação demoníaca dos propósitos de Deus e, portanto, uma ofensa ao Criador.
Isso tudo se torna ainda mais grave quando reconhecemos que a violência e a depreciação das mulheres estão presentes também em contextos cristãos, inclusive no ambiente doméstico. Diversos levantamentos e relatos mostram que a violência doméstica atravessa diferentes grupos sociais e religiosos, alcançando lares onde homens se identificam como cristãos e, em alguns casos, exercem funções ministeriais em suas igrejas. Além disso, podemos mencionar as diversas formas de abuso que têm ocorrido em ambientes eclesiásticos e que muitas vezes permanecem na obscuridade.
Não faço aqui generalizações nem ignoro a complexidade do problema, tampouco suas múltiplas causas. Ainda assim, essa realidade deveria acender um alerta profundo em nós sobre que tipo de igreja temos sido e que testemunho temos oferecido. Como imitadores de Cristo, somos chamados a nos espelhar nas atitudes de Jesus conforme relatadas nos quatro Evangelhos: ele amava e valorizava as mulheres, nunca as desprezando, mas permitindo que estivessem junto dele, participando de seu ministério e aprendendo aos seus pés, como verdadeiras discípulas.
A igreja em seus primórdios, conforme aponta o sociólogo Rodney Stark,2 apresentava um excedente significativo de mulheres, em uma época em que a densidade populacional do mundo greco-romano era marcada por uma grande maioria masculina. As mulheres encontraram na igreja, nessa nova família da fé, um lugar onde eram respeitadas e valorizadas. O cristianismo era pautado em uma ética sexual que rejeitava práticas como a infidelidade, o infanticídio, o aborto e a exploração sexual, oferecendo às mulheres mais segurança e dignidade.
A grande tarefa da igreja em nosso tempo é continuar sendo esse lugar seguro, onde as mulheres possam encontrar pertencimento, proteção, cuidado e, principalmente, oportunidades para florescer em seus dons e vocações. É aqui que está a fonte da minha preocupação apresentada no início deste artigo: como nova criação, povo redimido e chamado a viver a ética do reino segundo o exemplo de Cristo, que possamos acolher nossas mulheres e ouvi-las não apenas em um dia ou mês do ano, mas fazer disso uma marca da igreja, a ponto de impactarmos toda a sociedade.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (AT 20.35)
A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
»Vozes Femininas no Início do Cristianismo – Império Romano, igreja cristã, perseguição e papel feminino, Rute Salviano Almeida
»A Missão da Mulher, Paul Tournier
»A mulher no corpo de Cristo: dignidade e missão
»Mulheres, edição 376 de Ultimato
Por Cynthia Muniz Soares
No mês de março, é celebrado o Dia Internacional da Mulher, data que reverbera em inúmeras igrejas do Brasil por meio de programações especiais, cultos temáticos e, em alguns casos, com mulheres sendo convidadas para ocupar os púlpitos. Particularmente, já tive a oportunidade de falar em algumas ocasiões assim, mas, nesta reflexão, quero compartilhar algumas preocupações que acumulei ao longo da minha jornada como mulher cristã.Em primeiro lugar, quero dizer que não há nada de errado com essa data e, em especial, com o que ela representa – a conquista de direitos básicos para todas as mulheres e a memória daquelas que foram pioneiras na luta por essas conquistas. No entanto, entendo que a valorização da mulher, e não somente dela, mas de todo ser humano, é mais do que uma questão de agenda: é algo com o qual toda a igreja precisa estar constantemente engajada.
A teóloga Ingrid Faro disse algo que me fez refletir muito nos últimos dias: “Observamos que, nas Escrituras, a maneira como os homens tratam as mulheres reflete sua condição espiritual, algo que reverbera em suas famílias e, frequentemente, em toda a nação”.1 Ela faz referência às inúmeras narrativas bíblicas nas quais mulheres sofrem violência, abuso ou são subjugadas por serem mais vulneráveis, como, por exemplo, no livro de Juízes ou nas narrativas envolvendo os reis de Israel. Assim, a Bíblia não esconde a deturpação das dinâmicas de poder entre os seres humanos após a entrada do pecado no mundo. Ela apresenta essas situações incômodas, mostrando como era necessária a intervenção de Deus por meio da encarnação de Cristo, pois, em seu caminhar com discípulos e discípulas, ele ensinou que o verdadeiro poder é aquele exercido em humildade e serviço.
Cristo veio para nos humanizar, o que, na prática, significa sermos mais parecidos com ele e vivermos conforme a vontade de Deus para sua criação – uma criação chamada a refletir bondade, justiça e paz. Esses são ideais dos quais ainda estamos muito distantes como sociedade e que se tornam cada vez mais urgentes diante daquilo que temos observado nas notícias e no nosso próprio convívio.

Todos os dias somos assolados por notícias terríveis sobre atos de violência cometidos contra mulheres. O Brasil, país com altos índices de violência de gênero e feminicídios, continua sendo palco dessas injustiças, muitas delas fruto de uma visão deturpada sobre a mulher. Embora os evangélicos tenham crescido significativamente nas últimas décadas, o cristianismo como um todo ainda constitui a maioria dos que se declaram religiosos no país, o que torna esse cenário ainda mais preocupante.
Costumo dizer que nunca foi fácil ser mulher neste mundo. Em todas as épocas da história e em todos os lugares – quer em palácios, nas guerras ou na vida comum, nos padrões sufocantes que muitas vezes nos são impostos –, mulheres estão entre as pessoas mais vulneráveis, por vezes objetificadas e, até mesmo, tratadas como bens ou despojos. Tudo isso é reforçado por uma cultura de culpabilização e impunidade. Trata-se de uma perspectiva tão terrível quanto aquela que, ao longo da história, permitiu que pessoas fossem escravizadas e abusadas: uma deturpação demoníaca dos propósitos de Deus e, portanto, uma ofensa ao Criador.
Isso tudo se torna ainda mais grave quando reconhecemos que a violência e a depreciação das mulheres estão presentes também em contextos cristãos, inclusive no ambiente doméstico. Diversos levantamentos e relatos mostram que a violência doméstica atravessa diferentes grupos sociais e religiosos, alcançando lares onde homens se identificam como cristãos e, em alguns casos, exercem funções ministeriais em suas igrejas. Além disso, podemos mencionar as diversas formas de abuso que têm ocorrido em ambientes eclesiásticos e que muitas vezes permanecem na obscuridade.
Não faço aqui generalizações nem ignoro a complexidade do problema, tampouco suas múltiplas causas. Ainda assim, essa realidade deveria acender um alerta profundo em nós sobre que tipo de igreja temos sido e que testemunho temos oferecido. Como imitadores de Cristo, somos chamados a nos espelhar nas atitudes de Jesus conforme relatadas nos quatro Evangelhos: ele amava e valorizava as mulheres, nunca as desprezando, mas permitindo que estivessem junto dele, participando de seu ministério e aprendendo aos seus pés, como verdadeiras discípulas.
A igreja em seus primórdios, conforme aponta o sociólogo Rodney Stark,2 apresentava um excedente significativo de mulheres, em uma época em que a densidade populacional do mundo greco-romano era marcada por uma grande maioria masculina. As mulheres encontraram na igreja, nessa nova família da fé, um lugar onde eram respeitadas e valorizadas. O cristianismo era pautado em uma ética sexual que rejeitava práticas como a infidelidade, o infanticídio, o aborto e a exploração sexual, oferecendo às mulheres mais segurança e dignidade.
A grande tarefa da igreja em nosso tempo é continuar sendo esse lugar seguro, onde as mulheres possam encontrar pertencimento, proteção, cuidado e, principalmente, oportunidades para florescer em seus dons e vocações. É aqui que está a fonte da minha preocupação apresentada no início deste artigo: como nova criação, povo redimido e chamado a viver a ética do reino segundo o exemplo de Cristo, que possamos acolher nossas mulheres e ouvi-las não apenas em um dia ou mês do ano, mas fazer disso uma marca da igreja, a ponto de impactarmos toda a sociedade.
Notas
1. FARO, Ingrid. Redeeming Eden: How Women in the Bible Advance the Story of Salvation. Zoondervan, 2025. p. 138.
2. STARK, Rodney. The Rise of Christianity. Princeton University Press, 2020. p. 128.
- Cynthia Muniz Soares é bióloga, mestre em saúde pública, teóloga, especialista em teologia do Novo Testamento e pastora anglicana. Atualmente, é mestranda em estudos do Novo Testamento.
Imagem: Freepik.
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Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
»Vozes Femininas no Início do Cristianismo – Império Romano, igreja cristã, perseguição e papel feminino, Rute Salviano Almeida
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