Opinião
23 de novembro de 2007- Visualizações: 3839
comente!- +A
- -A
-
compartilhar
Um ano de sinfonia
Jorge Camargo
No dia 21 de novembro, completou-se um ano da morte de minha mãe, Vanira. Quem me conhece há muito tempo ou quem conversou comigo apenas algumas vezes acho que deu pra perceber o quanto aquela mulher baixinha e “cheinha” representou e representa pra mim.
Fomos amigos. Somos amigos.
As memórias das conversas, dos abraços, das lágrimas e dos sorrisos, das coisas que fizemos juntos mesmo quando separados permanecem intactas.
Lembro-me, por exemplo, dias antes de sua morte, que fomos juntos a uma consulta médica. Ela havia acabado de ler “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Saramago. No caminho, comentou com entusiasmo que havia assistido pela televisão a indicação de Fernando Meireles para diretor da versão cinematográfica do livro que ela tanto apreciara.
E minha mãezinha estudou até a quinta série. No entanto, sonhou por sessenta e seis anos. E me ensinou a sonhar. E continua a me ensinar.
Dessa vez, tem me ensinado a sentir saudade. Temo, no entanto, que essa lição eu demore aprender. Talvez leve a vida inteira.
A sinfonia do perdão
No dia 21 de novembro de 2006, minha mãe, Vanira, levantou-se mais cedo que de costume. Sentou na cadeira da sala de jantar e puxou uma conversa leve e descompromissada com meu pai.
Surpreso com sua presença inesperada, seu Jorge, o “preto” como era carinhosamente chamado por ela, esticou o bate-papo.
Minutos depois, ela reclamou de uma dor no peito e foi se deitar. Ele a acompanhou.
Ao lado da cama, a frase inesperada: “Preto, me perdoe. Me perdoe pelas palavras ásperas e pelas dores que lhe causei nesses anos juntos” (quarenta e seis, pra ser mais exato).
“Eu é que te peço perdão!”, ele respondeu. Foram as últimas palavras de minha mãe.
Naquele quarto apertado de uma casa pequena e simples perdida na periferia da grande cidade uma obra de rara beleza foi executada. O tema? A Sinfonia do Perdão.
Aqui nesse mundinho fétido, apenas dois seres que se amaram e que foram cúmplices e parceiros de vida ouviram-na em toda a sua exuberância. No céu, míriades de anjos e Seu Grande Compositor testemunharam-na.
Minhas lágrimas apenas captaram o eco de seus últimos acordes e registraram-na em minha alma como a mais linda obra musical que ouvi em toda a minha vida.
• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. www.jorgecamargo.com.br
No dia 21 de novembro, completou-se um ano da morte de minha mãe, Vanira. Quem me conhece há muito tempo ou quem conversou comigo apenas algumas vezes acho que deu pra perceber o quanto aquela mulher baixinha e “cheinha” representou e representa pra mim. Fomos amigos. Somos amigos.
As memórias das conversas, dos abraços, das lágrimas e dos sorrisos, das coisas que fizemos juntos mesmo quando separados permanecem intactas.
Lembro-me, por exemplo, dias antes de sua morte, que fomos juntos a uma consulta médica. Ela havia acabado de ler “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Saramago. No caminho, comentou com entusiasmo que havia assistido pela televisão a indicação de Fernando Meireles para diretor da versão cinematográfica do livro que ela tanto apreciara.
E minha mãezinha estudou até a quinta série. No entanto, sonhou por sessenta e seis anos. E me ensinou a sonhar. E continua a me ensinar.
Dessa vez, tem me ensinado a sentir saudade. Temo, no entanto, que essa lição eu demore aprender. Talvez leve a vida inteira.
A sinfonia do perdão
No dia 21 de novembro de 2006, minha mãe, Vanira, levantou-se mais cedo que de costume. Sentou na cadeira da sala de jantar e puxou uma conversa leve e descompromissada com meu pai.
Surpreso com sua presença inesperada, seu Jorge, o “preto” como era carinhosamente chamado por ela, esticou o bate-papo.
Minutos depois, ela reclamou de uma dor no peito e foi se deitar. Ele a acompanhou.
Ao lado da cama, a frase inesperada: “Preto, me perdoe. Me perdoe pelas palavras ásperas e pelas dores que lhe causei nesses anos juntos” (quarenta e seis, pra ser mais exato).
“Eu é que te peço perdão!”, ele respondeu. Foram as últimas palavras de minha mãe.
Naquele quarto apertado de uma casa pequena e simples perdida na periferia da grande cidade uma obra de rara beleza foi executada. O tema? A Sinfonia do Perdão.
Aqui nesse mundinho fétido, apenas dois seres que se amaram e que foram cúmplices e parceiros de vida ouviram-na em toda a sua exuberância. No céu, míriades de anjos e Seu Grande Compositor testemunharam-na.
Minhas lágrimas apenas captaram o eco de seus últimos acordes e registraram-na em minha alma como a mais linda obra musical que ouvi em toda a minha vida.
• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. www.jorgecamargo.com.br
Mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor.
- Textos publicados: 39 [ver]
23 de novembro de 2007- Visualizações: 3839
comente!- +A
- -A
-
compartilhar

Leia mais em Opinião
Opinião do leitor
Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta
Para escrever uma resposta é necessário estar cadastrado no site. Clique aqui para fazer o login ou seu cadastro.
Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.
Assuntos em Últimas
- 500AnosReforma
- Aconteceu Comigo
- Aconteceu há...
- Agenda50anos
- Arte e Cultura
- Biografia e História
- Casamento e Família
- Ciência
- Devocionário
- Espiritualidade
- Estudo Bíblico
- Evangelização e Missões
- Ética e Comportamento
- Igreja e Liderança
- Igreja em ação
- Institucional
- Juventude
- Legado e Louvor
- Meio Ambiente
- Política e Sociedade
- Reportagem
- Resenha
- Sessenta +
- Série Ciência e Fé Cristã
- Teologia e Doutrina
- Testemunho
- Vida Cristã
Revista Ultimato
+ lidos
- Livramento e libertação de todo mal
- Lista Mundial da Perseguição 2026: 388 milhões de cristãos em todo o mundo são perseguidos ou discriminados por sua fé em Jesus
- Deus cura hoje?
- Os 10 livros mais lidos em 2025
- Entre o vazio e o poder: a crise contemporânea da liderança
- Ultimato – 58 anos em 8 minutos
- Trabalho e insatisfação não devem andar juntos
- Shalom – chamados a crer e a viver em paz
- A contribuição protestante à educação superior
- Editora Mundo Cristão comemora 60 anos
(31)3611 8500
(31)99437 0043
A singularidade de Jesus Cristo
Desabafo é o ralo por onde se escoam as lágrimas
Convença-me, mas com respeito
O baixo interesse teológico da liderança e a decadência da igreja






 copiar.jpg&largura=49&altura=65&opt=adaptativa)