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04 de maio de 2026- Visualizações: 283
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Rastros de bênção
A graça de Deus não faz barulho. Ela simplesmente muda tudo
Por Hannes Fischer
Ela nascia num mundo ainda em preto e branco – 12 de abril de 1918, em Blumenau, Santa Catarina. Gertrud Loth, uma das nove filhas de Hugo e Elisabeth, cresceu num lar de imigrantes alemães onde o trabalho era liturgia e a disciplina, sacramento. Seu avô veio da Alemanha como professor para ensinar os filhos dos colonos. Seu pai construiu casas de enxaimel – inclusive o hospital de Vila Itoupava. O mesmo hospital onde, décadas depois, eu nasceria.
A história tem dessas ironias que só Deus sabe tecer.
Com dezoito anos, ela casou com Alex Lippel – um rapaz de vinte e um, que apareceu numa festa de dança de terno, chapéu e gravata, e conquistou seu coração. Vieram quatro filhos: Waltraud, Hercilio, Marliese e, seis anos depois, minha mãe Iracema – "não planejada, mas bem-vinda", como meu avô mesmo dizia: "Seria bom, Gertrud, ter mais uma menina. Assim você terá ajuda na velhice."
Eles trabalhavam juntos numa colônia em Itoupava Central, plantavam cana-de-açúcar, vendiam seus produtos na cidade toda semana. Cada compra era pesada, cada centavo contado – não por avareza, mas por sabedoria. Havia sempre uma pequena reserva para o imprevisto. Iam ao culto luterano aos domingos – gente comum, vivendo uma vida comum, ainda sem saber o que a graça extraordinária de Deus estava prestes a fazer.
O golpe veio cedo demais. Meu avô Alex morreu de um derrame cerebral aos cinquenta e três anos. Minha vó ficou viúva antes de envelhecer. Mas foi exatamente nessa fratura que a luz entrou.
Waltraud, a filha mais velha, havia sido alcançada pela mensagem do Evangelho vivo – não a religião de costume, mas o encontro pessoal com Jesus Cristo, trazido por missionários. O fogo se espalhou. Meu avô, no leito de morte, entregou sua vida ao Senhor Jesus. E minha vó Gertrud, agora sozinha, abriu a porta – primeiro do coração, depois da casa.
A casa dela virou sala de estudos bíblicos. Virou tanto que ficou pequena. Os encontros migraram para um galpão, até que um dia construíram um salão. Peterson diria que é assim que o Reino cresce: não com fanfarra, mas como fermento – silencioso, invisível, irresistível.
Em janeiro de 1977, minha mãe Iracema e meu pai Hans Fischer assumiram o Lar Filadélfia, um lar de retiros e descanso em São Bento do Sul. Precisavam de uma cozinheira. Minha mãe pensou na avó – — e para surpresa de todos, ela aceitou na hora. Viu aquilo como chamado, não como emprego.
E assim minha vó cozinhou. Com alegria. Com capricho. Os hóspedes iam até a cozinha pedir receitas. Ela cuidava de uma horta gigante e de três canteiros de flores – um para cada neto que a visitava. Quando eu ia vê-la, havia sempre um canteiro reservado para mim, e eu ajudava a cuidar com as mãos ainda pequenas de criança.
Nunca saiu dela uma palavra torpe. Nunca uma reclamação. Eu via em cada detalhe daquela vida simples a mão de Deus moldando um caráter à Sua semelhança.
À noite, antes de dormir, ela se ajoelhava diante da cama e orava. Por quase uma hora. Chamava cada filho, cada neto, cada nome – um por um, diante de Jesus. Quando eu dormia lá, ficava ao lado dela, ouvindo aquela voz murmurando nomes no escuro como se fossem tesouros.
Tinha quatorze anos quando disse à minha mãe: "Mãe, quero aprender a orar assim como a vó. Trazer cada pessoa pelo nome diante de Jesus."
Não foi minha vó que me ensinou a orar. Foi Deus, usando minha vó.
Há formas de pregar que dispensam o púlpito.
Meus pais também foram para mim um testemunho vivo. Sempre os via com a Bíblia nas mãos – não como obrigação, mas como fome. A mesma fome que eu vi na vó. A mesma graça que Deus foi passando de geração em geração, sem pedir licença.
Eu mesmo só vim a ter um encontro real com Cristo aos quatorze anos. E nos tropeços da vida – e foram muitos – foi essa mesma graça que me levantou e restaurou. Não foi o exemplo da minha vó que me salvou. Foi Jesus. Mas Deus usou aquela vida ajoelhada para me mostrar que Ele era real.
Nos seus últimos dias, em maio de 1989, minha vó adoeceu. O mundo encolheu ao redor dela – mas ela parecia estar em outro lugar, com um pé já do outro lado. Um dia antes de morrer, minha tia Edeltraut fez uma cuca de carambola para ela. Ela comeu, sorriu, e disse que sempre fez assim também.
Três dias antes de falecer, ela anunciou com simplicidade: "Em três dias, Jesus vem me buscar." Quando a filha perguntou se ela queria os deixar, ela respondeu: "Não quero. Mas Jesus me quer."
Morreu serenamente. Em 2 de setembro de 1989. Tinha setenta e um anos.
Eu tinha treze. Chorei muito no velório. Amava demais aquela vovó doce e meiga para conter as lágrimas. Mas sabia — mesmo sem entender completamente – que ela havia ido para os braços de Alguém que a amava ainda mais do que eu.
Minha vó deixou mais do que saudade. Deixou Segensspuren – uma palavra alemã que significa rastros de bênção. Os vestígios que uma vida rendida a Deus deixa pelo caminho, mesmo sem querer.
Ela deixou minha mãe Iracema, que ainda hoje ora todos os dias por toda a família. Deixou um neto que aprendeu a orar de joelhos. Deixou uma casa que virou igreja. Deixou canteiros de flores que ainda perfumam a memória.
E Deus, com Seu humor preciso, permitiu que eu me casasse com Danielle – que me lembra demais a minha vó na doçura, na fé, na oração. São oito filhos. O mesmo número de irmãos que minha vó teve.
Deus tem dessas precisões que parecem acaso, mas são assinatura.
Minha vó não foi famosa. Não escreveu livros. Não pregou em grandes palcos. Mas Deus a usou para fazer a única coisa que dura para sempre: amar bem as pessoas ao redor e apontar cada uma delas, pelo nome, para Jesus.
Toda a glória é Dele. Sempre foi.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, visite a loja Ultimato.
Saiba mais:
» Aprender a Envelhecer, Paul Tournier
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» O papel dos avós na família, por Gilson Bifano
» A bênção de ter – e de ser avós, por Esther Carrenho
Por Hannes Fischer
Ela nascia num mundo ainda em preto e branco – 12 de abril de 1918, em Blumenau, Santa Catarina. Gertrud Loth, uma das nove filhas de Hugo e Elisabeth, cresceu num lar de imigrantes alemães onde o trabalho era liturgia e a disciplina, sacramento. Seu avô veio da Alemanha como professor para ensinar os filhos dos colonos. Seu pai construiu casas de enxaimel – inclusive o hospital de Vila Itoupava. O mesmo hospital onde, décadas depois, eu nasceria.A história tem dessas ironias que só Deus sabe tecer.
Com dezoito anos, ela casou com Alex Lippel – um rapaz de vinte e um, que apareceu numa festa de dança de terno, chapéu e gravata, e conquistou seu coração. Vieram quatro filhos: Waltraud, Hercilio, Marliese e, seis anos depois, minha mãe Iracema – "não planejada, mas bem-vinda", como meu avô mesmo dizia: "Seria bom, Gertrud, ter mais uma menina. Assim você terá ajuda na velhice."
Eles trabalhavam juntos numa colônia em Itoupava Central, plantavam cana-de-açúcar, vendiam seus produtos na cidade toda semana. Cada compra era pesada, cada centavo contado – não por avareza, mas por sabedoria. Havia sempre uma pequena reserva para o imprevisto. Iam ao culto luterano aos domingos – gente comum, vivendo uma vida comum, ainda sem saber o que a graça extraordinária de Deus estava prestes a fazer.
O golpe veio cedo demais. Meu avô Alex morreu de um derrame cerebral aos cinquenta e três anos. Minha vó ficou viúva antes de envelhecer. Mas foi exatamente nessa fratura que a luz entrou.
Waltraud, a filha mais velha, havia sido alcançada pela mensagem do Evangelho vivo – não a religião de costume, mas o encontro pessoal com Jesus Cristo, trazido por missionários. O fogo se espalhou. Meu avô, no leito de morte, entregou sua vida ao Senhor Jesus. E minha vó Gertrud, agora sozinha, abriu a porta – primeiro do coração, depois da casa.
A casa dela virou sala de estudos bíblicos. Virou tanto que ficou pequena. Os encontros migraram para um galpão, até que um dia construíram um salão. Peterson diria que é assim que o Reino cresce: não com fanfarra, mas como fermento – silencioso, invisível, irresistível.
Em janeiro de 1977, minha mãe Iracema e meu pai Hans Fischer assumiram o Lar Filadélfia, um lar de retiros e descanso em São Bento do Sul. Precisavam de uma cozinheira. Minha mãe pensou na avó – — e para surpresa de todos, ela aceitou na hora. Viu aquilo como chamado, não como emprego.
E assim minha vó cozinhou. Com alegria. Com capricho. Os hóspedes iam até a cozinha pedir receitas. Ela cuidava de uma horta gigante e de três canteiros de flores – um para cada neto que a visitava. Quando eu ia vê-la, havia sempre um canteiro reservado para mim, e eu ajudava a cuidar com as mãos ainda pequenas de criança.
Nunca saiu dela uma palavra torpe. Nunca uma reclamação. Eu via em cada detalhe daquela vida simples a mão de Deus moldando um caráter à Sua semelhança.
À noite, antes de dormir, ela se ajoelhava diante da cama e orava. Por quase uma hora. Chamava cada filho, cada neto, cada nome – um por um, diante de Jesus. Quando eu dormia lá, ficava ao lado dela, ouvindo aquela voz murmurando nomes no escuro como se fossem tesouros.
Tinha quatorze anos quando disse à minha mãe: "Mãe, quero aprender a orar assim como a vó. Trazer cada pessoa pelo nome diante de Jesus."
Não foi minha vó que me ensinou a orar. Foi Deus, usando minha vó.
Há formas de pregar que dispensam o púlpito.
Meus pais também foram para mim um testemunho vivo. Sempre os via com a Bíblia nas mãos – não como obrigação, mas como fome. A mesma fome que eu vi na vó. A mesma graça que Deus foi passando de geração em geração, sem pedir licença.
Eu mesmo só vim a ter um encontro real com Cristo aos quatorze anos. E nos tropeços da vida – e foram muitos – foi essa mesma graça que me levantou e restaurou. Não foi o exemplo da minha vó que me salvou. Foi Jesus. Mas Deus usou aquela vida ajoelhada para me mostrar que Ele era real.
Nos seus últimos dias, em maio de 1989, minha vó adoeceu. O mundo encolheu ao redor dela – mas ela parecia estar em outro lugar, com um pé já do outro lado. Um dia antes de morrer, minha tia Edeltraut fez uma cuca de carambola para ela. Ela comeu, sorriu, e disse que sempre fez assim também.
Três dias antes de falecer, ela anunciou com simplicidade: "Em três dias, Jesus vem me buscar." Quando a filha perguntou se ela queria os deixar, ela respondeu: "Não quero. Mas Jesus me quer."
Morreu serenamente. Em 2 de setembro de 1989. Tinha setenta e um anos.
Eu tinha treze. Chorei muito no velório. Amava demais aquela vovó doce e meiga para conter as lágrimas. Mas sabia — mesmo sem entender completamente – que ela havia ido para os braços de Alguém que a amava ainda mais do que eu.
Minha vó deixou mais do que saudade. Deixou Segensspuren – uma palavra alemã que significa rastros de bênção. Os vestígios que uma vida rendida a Deus deixa pelo caminho, mesmo sem querer.
Ela deixou minha mãe Iracema, que ainda hoje ora todos os dias por toda a família. Deixou um neto que aprendeu a orar de joelhos. Deixou uma casa que virou igreja. Deixou canteiros de flores que ainda perfumam a memória.
E Deus, com Seu humor preciso, permitiu que eu me casasse com Danielle – que me lembra demais a minha vó na doçura, na fé, na oração. São oito filhos. O mesmo número de irmãos que minha vó teve.
Deus tem dessas precisões que parecem acaso, mas são assinatura.
Minha vó não foi famosa. Não escreveu livros. Não pregou em grandes palcos. Mas Deus a usou para fazer a única coisa que dura para sempre: amar bem as pessoas ao redor e apontar cada uma delas, pelo nome, para Jesus.
Toda a glória é Dele. Sempre foi.
- Hannes Fischer é filho de Hans e Iracema Fischer e neto de Gertrud Loth Lippel. Nasceu no hospital construído pelo avô em Vila Itoupava, em Blumenau, SC. Vive com sua esposa Danielle e seus oito filhos, tentando, a seu modo, deixar os mesmos rastros de bênção.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).Clique aqui e saiba mais. Para assinar, visite a loja Ultimato.
Saiba mais:
» Aprender a Envelhecer, Paul Tournier
» Pessoas: Humanas e Divinas – Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
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