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Prateleira

O Carnaval, a Marcha das Mulheres e Belchior

Por Klênia Fassoni
 
Encontrar, na última visita que fiz a um sebo em Curitiba, uma partitura de 1952 me deixou feliz. Como das outras vezes, os detalhes que atestam a ‘antiguidade’ do achado me atraíram: a diagramação com suas fontes limitadas e impressão manchada (provavelmente usando linotipos), o amarelado do papel com suas extremidades quebradiças, o acento circunflexo em “Pessôa” (Praça João Pessoa, Rio, RJ), o carimbo na parte superior ao lado da mesma informação escrita à mão com letra desenhada indicando a quem pertenceu (um integrante da Orquestra Blue Star, em Curitiba), o preço em moeda antiga (CR$ 10,00).
 
A música, composta por Peterpan e José Batista, foi gravada em disco pela Odeon. Aqui está a letra:
 
Marcha das Mulheres
 
Mulher devia ser vendida em loja
Como outra coisa qualquer
Quem tivesse mais dinheiro
E fosse mais ligeiro
Comprava mais mulher.
 
Lindas vitrines com lindas pequenas
Pretas e brancas, louras e morenas
A gente entrava e comprava a melhor
E quando ficasse velha, vendia no “belchior”
                                                            xor... xor…
 
Não conhecia o substantivo belchior, que é também palavra antiga e fora de uso. Descobri-me fã de dois belchiores: Antônio Carlos Belchior (morto em 30/04/2017) e o “mercador de objetos usados; ferro-velho; alfarrabista, brechó”.
 
A letra me indignou. Fiquei imaginando como foi possível compor, gravar, executar em orquestra, cantar e ouvir esta música gravada para o Carnaval de 1953. Terá havido protesto por parte de alguns?
 
A palavra “Marcha” – tão amplamente usada para denominar as antigas e as atuais lutas e conquistas das mulheres – no título soou como um sacrilégio. 
 
Isto foi em janeiro. Já tínhamos planejado que a edição de março/abril da revista Ultimato seria sobre as mulheres. Desde 2018, temos acompanhado as notícias e percebido como as mulheres nunca estiveram tão presentes na mídia, para o bem e para o mal. A partitura, adquirida por R$ 1,50, foi um encorajamento para seguirmos em frente. Apesar de todas as conquistas na sociedade e no ambiente eclesiástico, ainda há um longo caminho pela frente. Falta muito para que estes versos (no que revelam sua essência) sejam apenas peça de colecionador. 
 
Falar sobre o assunto não tem nada a ver com modismo. Jesus dignificou a mulher, dando a ela um espaço que não tinha. E, ao tratar deste tema amplamente – será a matéria de capa da próxima edição de Ultimato e tema de campanha editorial no Portal – queremos contribuir para que sejamos seguidores de Jesus também neste aspecto. 
 
 
É diretora administrativa da Editora Ultimato.
  • Textos publicados: 21 [ver]

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