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Opinião

Não olhe para cima – lembra-te que morrerás

Por Carlos Caldas

Não olhe para cimaDon’t Look Up no original – do diretor Adam Mackay, disponível pela plataforma Netflix e em algumas poucas salas de cinema, em pouquíssimo tempo fez grande sucesso nas redes sociais e em conversas entre amigos e parentes. Adam Mackay, conhecido por seus filmes de comédia, é um diretor experiente: ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por A Grande Aposta, de 2016.

Atenção: contém spoiler

A primeira observação a respeito do filme é o elenco, que conta com nomes, com perdão do trocadilho com o enredo, estelares, como Leonardo DiCaprio (muito bom, como sempre), Mark Rylance, Jennifer Lawrence, a sempre ótima Meryl Streep (interpretando Janie Orlean, a Presidente dos Estados Unidos), Rob Morgan e Cate Blanchett (caracterizada de uma maneira que faz lembrar a Marília Gabriela). A trama do filme de Mackay gira em torno da descoberta aterrorizante feita por uma doutoranda em astronomia (Lawrence): um cometa com cerca de dez quilômetros de largura está em rota de colisão frontal com a Terra. Seu orientador (DiCaprio) fica alarmado, e os dois viajam para Washington alertar a Presidente Orlean que algo precisa ser feito com urgência, pois todos os cálculos, feitos e refeitos, dão o mesmo resultado: o cometa vai atingir o planeta em seis meses, e se tal acontecer, toda e qualquer forma de vida se acabará.

A imbecilidade e a ganância humanas

A partir daí seguem-se situações inverossímeis (?) que fazem do filme uma mescla de teatro do absurdo, ópera bufa e sátira, tanto política como também de costumes, com um humor estranho, mais corrosivo que ácido sulfúrico. O humor de Não olhe para cima não é irônico e nem é exatamente o de comédia pastelão. É um humor diferente, que não quer divertir, mas expor de maneira nua e crua a que ponto pode chegar o egoísmo, a imbecilidade e a ganância humanas.

Pode-se dizer que a narrativa de Mackay é uma comédia trágica. Ou uma tragédia cômica. Mackay consegue mesclar drama com elementos do seu humor esquisito muito bem, tão bem que em alguns momentos a narrativa se torna opressiva e cansativa. A experiência estética de assistir Não olhe para cima não é das mais agradáveis. É o tipo do filme que faz rir, mas de nervoso, não por ser “engraçado” propriamente. Nesse sentido, o filme de Mackay faz lembrar o clássico Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick.


O filme faz crítica de maneira pesada ao negacionismo da ciência: pessoas que não têm conhecimento técnico nenhum não apenas não acreditando, mas zombando de quem dedicou a vida ao estudo e à pesquisa acadêmica séria e rigorosa. O título do filme é o mote da campanha realizada pela Presidente Orlean: ela quer que seus apoiadores não olhem para cima para que não vejam que o cometa se aproxima. Como seria de se esperar, não foram poucos os críticos de cinema e TV que destacaram o inevitável paralelo com a situação de negacionistas da ciência nos Estados Unidos e no Brasil que têm alardeado argumentos sem noção contra a importância da vacinação contra a Covid19 e contra o uso de máscaras. Mas a crítica de Mackay serve também para criticar os negacionistas da ciência que têm alertado não apenas com relação à pandemia da Covid19, mas a outros problemas, como a ameaça seríssima do aquecimento global.

A necropolítica e a sociedade do espetáculo

Outra crítica contundente do filme é a feita ao sistema que o filósofo camaronense Achille Mbembe chama de “necropolítica”, a política da morte, do sistema econômico neoliberal, que entende que o dinheiro está acima das vidas humanas. Se para ganhar dinheiro é preciso que vidas se percam, que se percam então. Há dois momentos no filme em que essa crítica é feita de maneira particularmente forte: em um, conforme os cálculos dos astrônomos, o cometa atingiria a superfície da Terra em algum ponto da costa do Chile, e o governo americano resolve dar uma espécie de gratificação ao governo chileno, como forma de compensação pelo desastre que acometeria o país – eis aí a negação da ciência e a elevação do dinheiro acima da vida de seres humanos. Em outro, depois que o cometa se chocou com a Terra, aparece a estátua do touro dourado da Bolsa de Valores de Nova York flutuando no vazio do cosmos. A crítica de Mackay não é nem um pouco sutil.

A terceira grande crítica feita por Não olhe para cima é a da imprensa e da mídia: o filme mostra como a TV e as redes sociais servem para hipnotizar as pessoas, retirando-lhes o senso crítico. A sociedade do espetáculo faz lembrar a famosa “pílula azul” de Matrix, outro clássico de ficção científica, a pílula que, se tomada, mantém as pessoas em um estado de alienação, totalmente fora da realidade.

Mas o filme faz pensar em algo totalmente óbvio, que com frequência é esquecido: todos nós temos um cometa voando em nossa direção. Ninguém sabe quando esse cometa vai chegar, se daqui a seis meses, como no filme de Mackay, ou se daqui a muitas dezenas de anos. Como nos preparamos para isso? A cena mais bonita e tocante do filme, já perto do fim, é quando o Dr. Randall Mindy (o personagem de DiCaprio) se reconcilia com sua esposa (ele havia se envolvido com a apresentadora do programa de televisão em que ele e sua orientanda foram entrevistados), e um jantar é realizado em sua casa: o casal Mindy, os dois filhos, que são adultos jovens, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e seu jovem namorado e o Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan), o único cientista que acreditou na notícia dos astrônomos. Ao redor da mesa, eles acompanham a oração de gratidão feita pelo namorado de Kate Dibiasky, jantam, e o fim vem. A morte foi encarada com serenidade e paz, em um momento de comunhão, fraternidade e perdão.

Memento mori

Memento mori – “lembra-te que morrerás” – a expressão latina usada como saudação por monges cristãos na Europa, por mais detestável que seja, precisa ser levada a sério. Não olhe para cima mostra pessoas preocupadas apenas com o aqui e agora, como se nunca fossem morrer. A sociedade do espetáculo em que vivemos quer nos distrair para que não pensemos no óbvio: o cometa está vindo em nossa direção. Não há como escapar. Diante da inevitabilidade da morte, a pergunta que cada um de nós precisa responder é: como viveremos?
É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde coordena o GPRA – Grupo de Pesquisa Religião e Arte.
  • Textos publicados: 68 [ver]

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