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Opinião

Linchamento ou oração?

Imergir na favela para emergir no mesmo dia nas áreas consideradas nobres do Rio de Janeiro tem sido experiência progressivamente difícil para mim. Na semana passada, eu vivi novamente um desses dias.

Participei pela manhã da distribuição de alimento, que fazemos semanalmente na Escola de Samba do Jacarezinho. Enquanto via a fila enorme, pensava na carência que levava aquela gente pobre a ficar tanto tempo em pé numa fila por tão pouco. Pude ver mães, pais, desempregados, mulheres idosas e jovens com bebê no colo. Uma adolescente pobre, com o filho nos braços, me pediu que fizesse oração por ele.

Em seguida, fui à favela Mandela, para apanhar dois rapazes, que há anos vejo nadando nas águas imundas do rio que corta a comunidade, a fim de assistirem juntamente comigo duas partidas de vôlei de praia na Arena de Copacabana. Enquanto os aguardava, observava a miséria aviltante. Chamou-me a atenção dois bebês brincando na margem direita do rio. Pensei: quem nunca veio aqui jamais terá ideia do que essa gente passa. É compreensível pessoas não se perturbarem com o que perturba os que conhecem esse lugar.

Tomamos o carro e fomos pelo caminho mantendo conversa que me ajudou a conhecê-los melhor e compreender um pouco mais da infância vivida na pobreza da favela. Relatos absolutamente chocantes, que não tenho a autorização para torná-los públicos. É fato fora de controvérsia que, na Olimpíada da vida, criança que nada em esgoto não pode competir com criança que treina em piscina olímpica. E isso, num mundo no qual o pódio é sonho de todos os seres humanos.

Quando chegamos à avenida Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Paula Freitas, nos deparamos com um tumulto na calçada. Pessoas circundavam um adolescente pobre, que havia sido imobilizado por um transeunte. Saltei do carro, com câmera na mão, e num ímpeto cruzei a barreira humana e cheguei aonde estava o rapaz. Ao agachar para socorrê-lo, ele me pediu uma oração. Parei de gravar.
Enquanto pessoas gritavam de todos os lados, insultando-o e pedindo sua morte, passei a conversar com ele. Descobri que era menor de idade. Havia tomado o celular de um turista, que de algum modo conseguira reaver o objeto roubado. Pedi o telefone da mãe. Algum parente atendeu, expliquei o que estava acontecendo, e disse que ligaria novamente. Em meio ao tumulto de tantas vozes, gritos e xingamentos, orei com ele. Pedi a ele para que tirasse todas as lições possíveis do episódio, e que assumisse um compromisso com Deus de que jamais voltaria a praticar roubo. Deitado no chão, imobilizado, olhava ao redor apavorado. Coloquei a mão sobre sua cabeça, e disse: “não tema. Você não está só. Ninguém fará mal a você”.

Chamei a polícia, que deve ter levado quase 30 minutos para chegar. Que batalha para acalmar quem passava pela calçada. Pedi que as pessoas se retirassem, uma vez que a situação estava sob controle. Ao que disseram:

“Você é dos direitos humanos, garanto! Deve ser petista!"

Só pude dizer:

"Não estou justificando o que houve. Compreendam, contudo, que o injustificável não deixa de ter uma causa social. Optamos por um modelo de sociedade. Achamos normal, por exemplo, nossa cidade investir fortuna numa competição esportiva, enquanto crianças pobres não têm acesso à educação de qualidade. Em Baltimore, no Estados Unidos, a população foi consultada a fim de o poder público saber se ela queria ou não a realização de uma Olimpíada. O povo disse não por entender que havia outras prioridades”.

"Tá com pena, então leva para casa”, uma mulher furiosa me disse.

Respondi: “Todos nós precisamos da solidariedade humana, um dia você poderá precisar de alguém que troque sua fralda geriátrica”.

Os rapazes do Mandela saem do carro. Prontamente se aproximam do pobre garoto, cuja origem social eles conheciam muito bem. Depois me disseram: “nós ouvimos as pessoas pedindo para cortar a cabeça dele”. Imagine que correlação estabeleceram entre os dois mundos.

Policiais militares chegaram. Após me identificar, relatei o ocorrido. Logo em seguida, parti, após deixar o número do meu celular e receber do policial militar a promessa de que o menor pego roubando seria bem tratado e encaminhado a uma delegacia do bairro.

Fiquei sabendo depois, pela mãe, para quem liguei, que ele já havia sido liberado pela delegacia, e que se encontrava em casa. Os policiais o trataram com humanidade, e ainda deram lanche a ele, contou-me a mãe. Minha meta agora é visitá-lo, e ver o que poder ser feito para que sua vida ganhe outro rumo.

Somente no último sábado à noite me dei conta de que meu dia havia sido marcado por dois pedidos de oração. Uma adolescente com um bebê no colo e um adolescente imobilizado no chão de uma calçada de Copacabana.

Oro também pela nossa sociedade, cansada da violência, mas que muitas vezes não se dá conta de que propõe o que a condena, deseja o que a inviabiliza e fala do que não conhece.

Não quero fomentar a impunidade, muito menos usar a desigualdade social para justificar atos de crueldade. Minha pergunta, entretanto, é: o que nos cabe fazer, além de orar, para que o bebê que estava no colo da adolescente do Jacarezinho, um dia não seja encontrado em algum bairro nobre do Rio de Janeiro praticando roubo?

• Antônio Carlos Costa é pastor presbiteriano e fundador da ONG Rio de Paz.

Foto: Rio de Paz / Instagram
Legenda: favela “Obrigado Meu Deus”, Costa Barros, Rio de Janeiro, onde mãe e filha mortas com um único tiro de fuzil desferido em operação policial.


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