Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Por Escrito

De Nabucodonosor aos chefes de estado: "O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens"

Assim como o povo que governamos está sob disciplina, nós estamos sob a disciplina do único e verdadeiro Deus

Por Elben César

Meu nome é Nabucodonosor. Filho de Nabopolassar, fundador da dinastia neobabilônica, e casado com Amitis, sou rei de Babilônia há quarenta anos, desde 605 antes de Cristo. Para vocês se situarem em meu tempo, deixe-me dizer-lhes que o célebre matemático e filósofo grego Pitágoras é um adolescente de 15 anos, o reformador iraniano Zoroastro deve ter aí uns 65 anos e o famoso Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda, é uma criança mal nascida.

Gostaria que vocês conhecessem Babilônia, às margens do rio Eufrates, capital da Mesopotâmia, ao norte daquilo que vocês chamam de Iraque. Foi nesta área, entre os rios Tigre, de 1.950 quilômetros de extensão, e Eufrates, de 2.760 quilômetros, que a vida do planeta começou. O primitivo nome da região era Jardim do Éden. Eu e meu pai reconstruímos aqui a nova Babilônia. A cidade é bem traçada, com ruas largas, cortando-se em ângulos retos. Há muitos templos e palácios. Num deles encontram-se os famosos jardins suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Ao redor estão as fortificações intransponíveis. Os templos e a torre de vários andares têm dimensões rigorosamente estabelecidas, de acordo com o simbolismo religioso dos números. O fornecimento de água é feito por meio de canais. Residem em Babilônia muitos estrangeiros, de sorte que a cidade se tornou uma metrópole mundial. Por este tempo somos a mais brilhante civilização do Oriente Próximo. Babilônia é maior que Tebas, Mênfis e Ur, mais imponente do que a grande cidade de Nínive, contra a qual meu pai se revoltou com sucesso absoluto há 47 anos.

Antes de tomar posse do trono babilônico em 6 de setembro de 605 antes de Cristo, com a morte de meu pai, fui comandante-em-chefe do exército na qualidade de príncipe herdeiro. Lutei no norte da Assíria e, depois, derrotei o exército de Faraó-Neco, rei do Egito, junto ao rio Eufrates, em Carquemis (Jr 46.2) Foi este Neco quem matou o piedoso rei Josias, de Jerusalém (2Rs 23.29). Também fiz guerra contra Israel várias vezes, até arrasar por completo Jerusalém, entregando ao fogo o templo de Salomão e todos os edifícios importantes (2Rs 25.8-22). Ordenei ao chefe da minha guarda pessoal que tratasse com delicadeza o profeta Jeremias (Jr 39.11-18).

Transferi para Babilônia milhares de judeus, talvez uns 50 mil, deixando na terra apenas os pobres (2Rs 24.10-17). Quando pedimos a estes exilados judeus que entoem alguns cânticos de Sião, eles reagem energicamente: “Como haveríamos de entoar o canto do Senhor em terra estranha?” (Sl 137.1-6). Este povo mantém o tempo todo as suas convicções religiosas e a sua nacionalidade. Eles têm exercido forte influência sobre minha vida.

A maior árvore da terra
Há pouco tempo tive um pesadelo horrível. Mesmo depois de acordado, não consegui me desvencilhar da impressão que ele me causou.

Vi uma árvore plantada no meio da terra, já muito alta e ainda crescendo. A sua altura chegou até o céu. Era vista de qualquer ponto do globo terrestre. Havia nela beleza e sustento para todos. A vida do planeta girava em torno daquela árvore. Confesso que cheguei a pensar que eu era essa árvore e isto me desvanecia muito graças à minha incontida vaidade.

Mas, depois, fiquei atordoado. Porque, subitamente, no prolongamento do sonho, ouvi alguém descer do céu e ordenar a derrubada total da árvore, deixando, porém, a touceira com as raízes, embora sob cadeias de ferro e de bronze para impedir o seu imediato renascimento.

Tremi dos pés à cabeça. Se eu era a árvore, tinha de aceitar o sonho por inteiro: a ascensão e a queda, a glória e o desastre.

Percebi, com maior apreensão, que o santo ou vigilante que desceu do céu mudou o modo de falar. Deixou de se referir à árvore para se referir a uma pessoa, que seria molhada do orvalho do céu, comeria a erva da terra com os animais e trocaria o coração de homem por coração de animal. Tal metamorfose se daria por decreto dos vigilantes por um período de sete unidades de tempo. O propósito de tudo ficou bem claro em meu pesadelo: “A fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles” (Dn 4.17).

Uma vez acordado, chamei a minha presença todos os sábios de Babilônia para me fazerem saber a interpretação do pesadelo, que lhes contei cuidadosamente.

Apenas um judeu nobre, chamado Daniel, embora atônito com o sonho por algum tempo, se dispôs a fazê-lo. Segundo as suas palavras, o que eu desconfiava era o que me aconteceria. Com o juízo, veio uma palavra de misericórdia: a touceira, que não fora arrancada, floresceria outra vez, depois que eu tivesse “conhecido que o céu domina”.

Estranhei a ousadia de Daniel que me aconselhou pôr termo em meus pecados... Agora vejo que ele tinha toda razão.



O lobisomem

Com o tempo, não sei como, a impressão causada pelo sonho se desfez.

Ao cabo de doze meses, porém, eu estava passeando sobre os jardins suspensos do palácio real; parei, observei a cidade em toda a sua extensão, entreguei-me ao desvanecimento e disse com meus botões: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder, e para a glória da minha majestade?” (Dn 4.30)

Falava eu ainda, quando desceu uma voz do céu e me anunciou o juízo divino nos termos do pesadelo.

No mesmo instante eu me senti estranho, tremendamente estranho, incapaz de reagir. Perdi qualquer apego ao palácio, à família, ao trabalho. Experimentei uma desordem mental intensa e descontrolada. Sofri perturbações no pensamento, na linguagem e nas atitudes, de tal maneira que o meu relacionamento com outras pessoas se tornou impraticável. Os que cercavam viram-se obrigados a me soltar no campo, único lugar em que eu me sentia mais à vontade. Deixei o cabelo crescer, deixei a barba crescer, e meu rosto ficou escondido atrás de tanto cabelo. Perdi a posição ereta, fui me encurvando até andar de quatro. Não mais cortei as unhas dos pés nem das mãos. Vivi sob o orvalho da noite e sob o sol do dia. Comi a erva dos pastos e bebi as águas das poças. Emitia uivos longos e tristes. A alienação mental que me possuiu me deu a certeza de que eu era um animal, um quadrúpede, quem sabe um lobo. É que eu fora acometido de uma possível licantropia – mania de lobisomem.

Não me lembrei do sonho, não me lembrei de ninguém, não me lembrei de nada. Nem do Deus de Daniel poderia me lembrar. E assim permaneci por sete períodos de tempo.

O Deus que humilha os soberbos
Num bendito dia levantei os olhos ao céu e tornou-me a vir o entendimento. Depois de checar todas as possibilidades da mente, a primeira coisa que fiz foi bendizer o Altíssimo e reconhecer que ele tem domínio sobre o reino dos homens, é o soberano Senhor e o Rei dos reis. Assim como eu tenho autoridade sobre meus súditos, Deus tem autoridade sobre mim e sobre qualquer outro chefe de Estado. Assim como o povo que governamos está sob disciplina, nós estamos sob a disciplina do único e verdadeiro Deus. Em última análise, seja qual for o processo humano na escolha de seus governantes, quando há escolha, a autoridade sempre procede de Deus e é ministro de Deus. O governo final está com o Altíssimo. O que me aconteceu me fez enxergar “que o céu domina” (Dn 4.26)

Se eu tivesse melhor memória, se o poder não me subisse à cabeça, eu teria assimilado estas coisas sem o pesadelo da árvore e a dura experiência do lobisomem. Pois no segundo ano de meu reinado, em 606 antes de Cristo, eu tive aquele sonho da grande estátua, que foi ferida nos pés por uma pedra cortada sem o auxílio de mãos humanas, e reduzida a pó, que o vento levou e espalhou sem deixar vestígio (Dn 2.31-49). O mesmo Daniel me explicou o significado deste primeiro sonho e me disse que eu era uma parte da estátua – a cabeça de fino ouro. O peito e os braços em prata, o ventre e os quadris em bronze, e as pernas em ferro e barro indicavam outros impérios que se sucederiam na história até a derrocada final, para dar lugar a um reino que não será jamais destruído, nem sucedido, porque subsistirá para sempre. Este é o reino de Deus na terra, pelo qual os cristãos oram: “Venha o teu reino” (Mt 6.10). Embora tão clara e direta a mensagem do sonho da estátua, foram necessários o segundo sonho e, principalmente, o sofrimento e a humilhação da licantropia.

Se vocês são mais inteligentes e menos obstinados que eu, mais fáceis e menos loucos, aceitem o conselho que Daniel me deu: “Põe termo em teus pecados pela justiça”!

Artigo publicado originalmente na edição n º 137 de março de 1981, de Ultimato.
Imagem: Aoki Shigeru´s
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez
a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais
aqui.

Saiba mais:
» Desafios da liderança cristã, John Stott
Elben Magalhães Lenz César foi o fundador da Editora Ultimato e redator da revista Ultimato até a sua morte, em outubro de 2016. Fundador do Centro Evangélico de Missões e pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa (IPV), é autor de, entre outros, Por Que (Sempre) Faço o Que Não Quero?, Refeições Diárias com Jesus, Mochila nas Costas e Diário na Mão, Para (Melhor) Enfrentar o Sofrimento, Conversas com Lutero, Refeições Diárias com os Profetas Menores, A Pessoa Mais Importante do Mundo, História da Evangelização do Brasil e Práticas Devocionais. Foi casado por sessenta anos com Djanira Momesso César, com quem teve cinco filhas, dez netos e quatro bisnetos.
  • Textos publicados: 121 [ver]

Leia mais em Por Escrito

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.