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Opinião

Como perdoar os inimigos?

Somos os réus perdoados que sabem o que fizeram e, acima de tudo, sabem o que o Messias fez

Por Carlos “Cacau” Marques

Do alto da cruz, Jesus Cristo ora. Suas palavras não são uma maldição contra seus carrascos, nem um vaticínio ameaçador contra os soldados que o torturaram. Em meio à dor dilacerante, o Senhor clama ao Pai por perdão. Não pede perdão para si, pois não tinha pecado algum. Seu pedido é de perdão para os seus executores. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23.34).

A cena é um pouco irônica. Cristo é o condenado sofrendo a pena. Seu julgamento já estava encerrado e a execução era o ato final de um processo cheio de corrupção e injustiça. Mas Jesus atuava em outra corte. Diante de outro juiz, ele se apresentava como um advogado que pede a absolvição daqueles que buscam matá-lo.

O argumento do defensor crucificado é o de que os réus ignoravam o sentido pleno de seus atos. Não é lá um argumento forte. A ignorância sobre alguma legislação não costuma ser suficiente para justificar um crime. O próprio advogado já havia alertado sobre as inúmeras injustiças que os réus cometiam repetidamente. A última transgressão era a mais séria: a condenação de um inocente à cruz.

Porém o perdão não é concedido pelos argumentos do crucificado, mas sim por seu ato. A morte de Cristo é o pagamento da pena que ele mesmo não merecia, mas que derrama graça na direção de malvados que sequer compreendem o que está acontecendo. Jesus morreu para o perdão de seus inimigos.

O erro na leitura desse texto é o de não nos identificarmos com os perdoados por Cristo. Julgamos que não somos pessoas “que não sabem o que fazem”, mas um grupo especial de humanos que reconhecem o Senhor e que sofrem as injustiças nas mãos dos mesmos executores do Messias. Assim, vemo-nos diante do juiz na posição de vítimas e queremos, rapidamente, a justiça por meio da vingança. Mas a verdade é que o ato de Jesus que perdoa seus algozes é o mesmo que perdoa a nós, pecadores por quem ele morreu. Nós também somos os executores.

Em 2015, um vídeo da execução de 21 cristãos coptas por um grupo terrorista foi divulgado na internet. Enquanto os executores blasfemavam contra a fé cristã, as vítimas professavam sua fé em Cristo antes de serem decapitadas. O testemunho desses mártires levou à canonização desses homens pela Igreja Copta. Mas há um detalhe adicional nessa história. Beshir, irmão de duas das vítimas, foi entrevistado poucos dias depois em um canal de TV do Egito. Nessa entrevista, ele afirmava que toda sua família tinha a fé fortalecida pelo exemplo de seus irmãos e que nenhum familiar esperava algum tipo de retaliação ou vingança. Pelo contrário, a mãe das vítimas dizia que, se encontrasse membros do grupo terrorista, os convidaria para tomar um café em sua casa, pois eles contribuíram para a sua entrada no reino. Beshir chega a dizer que orava pelos terroristas para que conhecessem a Jesus e se convertessem.

A atitude de Beshir e sua família é um reflexo da atitude de Cristo na cruz. Se fomos perdoados pelo Senhor quando éramos os inimigos executores (Rm 5.10), precisamos oferecer o mesmo perdão quando estamos na posição dos executados. Afinal de contas, todos os seres humanos estão na posição de pecadores pelos quais Jesus morreu.



Miroslav Volf escreveu: “O perdão falha porque eu excluo o inimigo da comunidade humana assim como excluo a mim mesmo da comunidade dos pecadores. Mas ninguém pode estar na presença do Deus do Messias crucificado por muito tempo sem superar essa dupla exclusão – sem transpor o inimigo da esfera do monstruoso [...] para a esfera da humanidade compartilhada e a si mesmo da esfera da inocência orgulhosa para a esfera da pecaminosidade comum. Quando alguém sabe que o torturador não triunfará eternamente sobre a vítima, essa pessoa fica livre para redescobrir a humanidade dela e imitar o amor de Deus por ela. E quando alguém sabe que o amor de Deus é maior que todo pecado, essa pessoa fica livre para se ver à luz da justiça de Deus e, assim, redescobrir a própria pecaminosidade”.

Esse é o segredo para o perdão dos inimigos: a compreensão de que estamos diante de outro julgamento e que, nesse outro processo, Cristo quer o perdão da humanidade. Não somos nós mesmos os juízes de nossas próprias queixas, mas os réus perdoados que sabem o que fizeram e, acima de tudo, sabem o que o Messias fez. Perdoar quem nos persegue é abrir mão de ocupar o assento divino no tribunal celestial e se aproximar de toda a humanidade pecadora carente da glória de Deus.

  • Carlos “Cacau” Marques, casado com Natália, é pastor da Igreja Batista Vida Nova em Nova Odessa, SP, professor na Faculdade Teológica Batista de Campinas e integrante da equipe do Bibotalk. @cacaupmarques.

Artigo publicado originalmente na edição 420 de Ultimato.
Imagem: Estátua dos 21 cristãos coptas executados na Líbia em 2015. Igreja dos Mártires da Fé e da Pátria, em Al-Our, Mynia, Egito. American Journal of Cultural Sociology.
REVISTA ULTIMATO – PERDOA-NOS, COMO NÓS PERDOAMOS
A mais comprometedora petição ensinada por Jesus é essa: Deus pede de nós aquilo que pedimos a ele.
O tema do perdão se espalha por toda a Escritura e rege a relação do ser humano com Deus. É provavelmente o conceito que mais realiza conexões com temas da teologia. Sem a menção ao perdão não se discursa sobre o acesso a Deus, a obra da salvação, o objetivo da graça divina nem sobre Jesus encarnado, o amor de Deus, o resgate, a restauração, a missão da igreja etc.
Este é o assunto da matéria de capa da Ultimato 420. Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.

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