Opinião
11 de setembro de 2026- Visualizações: 53
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A cooperação como resposta à fragmentação do movimento missionário brasileiro
Reconhecer competências, conectar iniciativas e fortalecer o que Deus já está realizando
Por Felipe Perrelli
1. Da expansão à integração
Há alguns anos, talvez o maior desafio da mobilização missionária brasileira fosse despertar a Igreja para sua responsabilidade na missão de Deus. Esse desafio permanece, especialmente quando consideramos a extensão do país, sua diversidade regional e a grande parcela da Igreja evangélica que ainda não compreende claramente sua participação missionária. Entretanto, olhando para o caminho percorrido, tenho a impressão de que esse já não é nosso único problema central.
Iniciativas têm surgido em todas as regiões do Brasil. Organizações amadureceram. Igrejas passaram a falar mais sobre missões. Redes foram estabelecidas. Congressos, treinamentos, escolas, ministérios e movimentos multiplicaram-se. Há muito mais gente servindo à causa missionária do que havia uma geração atrás.
Esse crescimento merece ser celebrado.
Mas ele também tornou mais visível um novo desafio.
O problema já não é apenas a ausência de iniciativas.
É a dificuldade de integrá-las.
Diferentes organizações desenvolvem excelentes projetos, frequentemente voltados para os mesmos públicos, enfrentando problemas semelhantes e buscando objetivos próximos. Ainda assim, muitas dessas iniciativas caminham quase sem diálogo umas com as outras.
Não falta dedicação.
Não falta competência.
O que frequentemente falta é conexão.
Essa realidade produz consequências silenciosas. Relacionamentos são duplicados, recursos são dispersos, conhecimentos deixam de circular e pessoas percorrem jornadas fragmentadas, precisando descobrir sozinhas caminhos que poderiam estar muito mais integrados.
O prejuízo não é apenas operacional.
É profundamente missiológico.
A mobilização missionária existe para servir à Igreja em sua participação na Missio Dei. Seu papel não é construir sistemas paralelos nem disputar centralidade. Sua vocação é ajudar pessoas, igrejas, agências, movimentos e redes a reconhecerem que pertencem a uma mesma história: a missão de Deus.
Por isso, toda vez que a mobilização passa a fortalecer prioritariamente sua própria estrutura, ela começa a perder parte de sua identidade.
Mobilizadores existem para construir pontes.
Não muros.
Nos últimos anos, o movimento missionário brasileiro cresceu, diversificou-se e tornou-se muito maior do que qualquer estrutura capaz de representá-lo integralmente. O diagnóstico produzido pela Iniciativa 2033 tornou essa percepção mais objetiva: temos um movimento ativo, diverso e fértil, mas ainda insuficientemente articulado, marcado por fragmentação institucional, baixa integração entre atores e ausência de uma arquitetura nacional capaz de conectar melhor aquilo que já existe (INICIATIVA 2033, 2026a, 2026b).
Diante dessa realidade, talvez a pergunta decisiva para o próximo ciclo não seja: o que mais precisamos criar?
A pergunta é: como conectar melhor aquilo que Deus já levantou?
Essa mudança de pergunta altera profundamente a cultura ministerial.
Em vez de perguntar apenas “Como podemos fazer este projeto?”, começamos a perguntar “Como podemos fazer juntos?”.
Em vez de criar uma nova estrutura para cada necessidade identificada, aprendemos a reconhecer competências já presentes no Corpo de Cristo.
Em vez de competir por espaços de influência, buscamos ampliar ambientes de confiança.
Em vez de centralizar processos, distribuímos responsabilidades.
Em vez de perguntar quem conduzirá determinada iniciativa, perguntamos quais dons precisam ser reunidos para que ela cumpra melhor seu propósito.
Entretanto, existe uma prática que merece nossa atenção porque, muitas vezes, passa despercebida sob uma aparência de zelo pela missão. Sempre que surge uma nova oportunidade, um novo relacionamento ou uma nova iniciativa, nossa reação revela muito sobre a compreensão que temos da cooperação.
Podemos perguntar: “Quem já está servindo essa realidade e como podemos fortalecê-lo?”.
Também podemos perguntar, ainda que de forma implícita: “Como essa oportunidade pode passar a fazer parte da nossa estrutura?”.
A diferença entre essas duas posturas parece sutil.
Mas ela produz movimentos distintos.
A primeira fortalece o ecossistema.
A segunda fortalece a instituição.
A primeira conecta.
A segunda incorpora.
A primeira amplia a cooperação.
A segunda, mesmo sem perceber, pode iniciar um processo de centralização (PERRELLI, 2026).
Esse movimento raramente acontece de maneira explícita. Ele aparece quando deixamos de envolver quem já atua em determinada área; quando criamos caminhos paralelos para responder a necessidades que poderiam ser enfrentadas coletivamente; quando priorizamos a visibilidade da nossa iniciativa em vez da saúde do movimento; ou quando enxergamos uma nova oportunidade principalmente pelo benefício que ela poderá trazer à nossa organização.
Nenhum de nós está imune a essa tentação.
Ela nem sempre nasce de má intenção.
Nasce também da dificuldade de lembrar que a missão é maior do que qualquer estrutura criada para servi-la.
Por isso, precisamos desenvolver um novo reflexo ministerial. Antes de perguntar como uma oportunidade pode fortalecer nossa organização, deveríamos perguntar como ela pode fortalecer o movimento missionário como um todo.
Essa talvez seja uma das expressões mais concretas da maturidade cooperativa.
Trabalhar em cooperação significa abrir mão da necessidade de protagonismo permanente. Significa aceitar que, muitas vezes, o melhor resultado para o Reino acontecerá quando outra igreja, agência, rede ou movimento assumir naturalmente determinada frente.
Isso não diminui ninguém.
Ao contrário.
Revela compreensão da natureza da missão.
A missão pertence a Deus. Nenhuma instituição pode reivindicar sua propriedade. Nenhuma organização consegue expressar sozinha toda a riqueza daquilo que Deus está realizando no mundo.
Essa convicção encontra correspondência na imagem paulina do Corpo de Cristo. A diversidade de dons, ministérios e serviços não rompe a unidade do Corpo, mas encontra nela seu lugar. Bertil Ekström observa que, embora por razões práticas dividamos os ministérios em organizações e instituições, a ênfase de Paulo está na unidade que contém diversidade e age em mutualidade. Estruturas distintas não precisam ser eliminadas ou concentradas para que haja unidade; precisam aprender a relacionar sua diversidade em cooperação (EKSTRÖM, 2017, p. 85–94).
Essa perspectiva também nos ajuda a lembrar que nenhuma estrutura institucional pode ser confundida com a totalidade da Igreja em missão. Apóstolos e evangelistas não desenvolvem um ministério paralelo à Igreja, pois pertencem ao mesmo Corpo. A missiologia paulina articula intimamente missão e Igreja, compreendendo a comunidade dos crentes como participante da missão de Deus.
A diversidade institucional pode servir a essa participação, desde que permaneça orientada pela mutualidade e pelo propósito comum.
Quando esquecemos isso, estruturas passam a disputar pessoas, recursos, relacionamentos, legitimidade e influência.
Quase sempre essa disputa é silenciosa.
Raramente é declarada.
Seus efeitos, porém, aparecem na sobreposição de iniciativas, na dificuldade de compartilhar informações, na resistência em construir processos conjuntos e na multiplicação de caminhos paralelos para responder aos mesmos desafios.
A fragmentação não nasce somente da falta de diálogo.
Ela também nasce quando o crescimento institucional se torna mais importante do que o fortalecimento do ecossistema.
Talvez por isso a governança tenha se tornado um tema tão importante para a mobilização missionária contemporânea. À medida que os relacionamentos se ampliam, já não basta depender apenas da boa vontade das lideranças. Precisamos construir ambientes capazes de proteger a confiança, esclarecer papéis, favorecer a complementaridade, distribuir responsabilidades e produzir continuidade.
Governança saudável não limita a cooperação; ela a preserva.
É nesse contexto que reconheço a vocação histórica da Associação de Missões Transculturais Brasileiras — AMTB. Sua razão de existir nunca foi substituir igrejas, agências ou movimentos. Sua contribuição mais necessária está na capacidade de favorecer um ambiente em que diferentes expressões do movimento missionário brasileiro possam caminhar juntas, preservando suas identidades e cooperando em torno de um propósito comum.
Essa vocação continua necessária.
Talvez seja ainda mais necessária hoje.
Quanto maior a diversidade do movimento missionário brasileiro, maior será a necessidade de ambientes que conectem, articulem e fortaleçam essa diversidade, sem concentrá-la numa única estrutura.
2. Uma mudança de lugar a serviço da cooperação
É a partir desse diagnóstico mais amplo que compreendo minha própria mudança de lugar. Depois de mais de uma década servindo à mobilização missionária no ambiente da AMTB, entendo que chegou o momento de aplicar à minha trajetória aquilo que venho defendendo para o movimento: cooperar nem sempre significa permanecer no mesmo lugar institucional. Em alguns momentos, fortalecer o todo exige atravessar fronteiras, aproximar ambientes distintos e servir a partir de novas interfaces.
Não se trata de afastamento da AMTB, muito menos de ruptura com aquilo que construímos ao longo desses anos. Trata-se de reconhecer o que o próprio caminho percorrido passou a exigir.
Minha atuação na mobilização sempre esteve ligada a uma convicção: mobilizar não é simplesmente promover missões, eventos ou organizações. É ajudar a Igreja a compreender sua participação na missão de Deus e criar condições para que pessoas, igrejas, agências, movimentos e redes encontrem caminhos concretos de participação.
Por isso, ao longo dos anos, meu trabalho foi se deslocando sucessivamente da realização de ações para a construção de relações, ambientes e processos de cooperação.
Essa compreensão não nasceu recentemente. Em 2023, quando participamos daformação do que viria a ser a Aliança 10.15, já estavam presentes questões que continuam orientando meu pensamento: estreitar relacionamentos entre iniciativas de mobilização, trabalhar conjuntamente respeitando a agenda de cada organização, acompanhar resultados, pesquisar a mobilização brasileira e atuar em unidade.
Posteriormente, a Aliança definiu entre seus objetivos otimizar o trabalho de mobilização, compartilhar recursos, apoiar-se mutuamente com ferramentas, desenvolver pesquisas e fomentar novas iniciativas.
A própria Missão Evangélica BASE foi se desenvolvendo nessa direção. Seu trabalho com mobilizadores nunca teve como finalidade concentrar a mobilização em uma organização, mas qualificar pessoas para discernir contextos, construir conexões e aplicar soluções a partir da igreja local.
Cooperação, portanto, não é uma agenda acrescentada posteriormente ao meu trabalho.
Tornou-se consequência do modo como passei a compreender o próprio ofício do mobilizador.
Essa compreensão também orienta minha relação com a AMTB. Vejo-a como uma das referências históricas mais importantes do movimento missionário brasileiro. Justamente por reconhecer a amplitude desse movimento, entendo que existe também uma Igreja evangélica brasileira muito mais ampla, plural e distribuída, além de redes, movimentos, igrejas, organizações e pessoas que não estão dentro do ambiente institucional da AMTB e que também precisam participar das conversas sobre nossos próximos passos.
Reconhecer essa amplitude não enfraquece a AMTB. Pode ajudá-la a exercer com ainda mais clareza sua vocação articuladora.
É nesse ponto que minha mudança de lugar ganha sentido.
Ela não nasce de uma oposição entre a AMTB e outras expressões do movimento. Nasce do desejo de ampliar as possibilidades de conexão entre elas.
Deixo uma função institucional na mobilização da AMTB sem deixar de desejar fortalecê-la. Quero servir a partir de um lugar capaz de atravessar fronteiras institucionais, aproximando quem está dentro e quem está fora, sem transformar essa travessia em concorrência ou numa estrutura paralela.
A Plataforma Nacional de Mobilização Missionária — PNMM tornou-se uma experiência concreta dessa busca. Ela não foi concebida como uma nova organização destinada a substituir o que já existe, mas como uma arquitetura cooperativa voltada a conectar e fortalecer atores, jornadas e iniciativas de mobilização missionária no Brasil, preservando identidade, autonomia e protagonismo.
A direção indicada pelo diagnóstico nacional é organizar melhor aquilo que já existe, integrar o ciclo missionário, fortalecer a igreja local, desenvolver mobilizadores e produzir inteligência que possa servir às decisões e à cooperação (INICIATIVA 2033, 2026a, 2026b).
A mesma percepção ultrapassou o Brasil.
Na primeira imersão da Plataforma de Cooperação Ibero-Americana, reencontramos um diagnóstico semelhante: existem muitas organizações, recursos, experiências e iniciativas, mas frequentemente pouco conectados. A Plataforma não foi pensada para representar organizações, assumir autoridade sobre elas ou centralizar seus processos. Seu propósito é fortalecer estruturas existentes por meio de conexões qualificadas, confiança, inteligência compartilhada e colaboração (PLATAFORMA DE COOPERAÇÃO IBERO-AMERICANA, 2026).
A relação entre essas plataformas e a AMTB não precisa ser de competição. Pode ser de complementaridade.
A AMTB pode continuar exercendo sua vocação histórica como referência, ambiente de articulação e lugar de pertencimento institucional, enquanto plataformas cooperativas alcançam fronteiras, atores e interfaces que não cabem inteiramente numa única organização.
O critério não deve ser quem controla a relação, mas como cada ambiente contribui para que a Igreja participe de modo mais integrado, responsável e frutífero da missão de Deus.
Por isso, minha saída de uma função não significa saída de uma história.
Continuo reconhecendo o valor da AMTB, desejando sua saúde e trabalhando para que ela se fortaleça. O que muda é o lugar a partir do qual pretendo servir.
Depois de anos ajudando a construir uma frente institucional de mobilização, entendo que o próximo ciclo exige menos a ocupação de um centro e mais a construção de pontes entre muitos centros.
Essa mudança também me obriga a preservar algumas convicções. Não pretendo construir uma alternativa à AMTB, disputar sua legitimidade ou utilizar minha transição como argumento de promoção de novas plataformas.
O valor do PNMM e da cooperação ibero-americana deverá ser demonstrado pelo que esses ambientes conseguirem conectar, fortalecer e produzir em favor da Igreja e do movimento missionário.
A cooperação será crível apenas se nossas práticas corresponderem ao discurso que a sustenta.
No fim, a maturidade da mobilização missionária não deveria ser medida apenas pela quantidade de programas que conseguimos criar, pelo tamanho das estruturas que dirigimos ou pela visibilidade que alcançamos.
Ela também se revela em nossa capacidade de aproximar pessoas, integrar jornadas, compartilhar inteligência, fortalecer relações de confiança e reconhecer com alegria o trabalho que Deus confiou a outros.
A missão não pertence às nossas estruturas.
As estruturas é que precisam permanecer disponíveis para servir à missão de Deus.
É por essa razão que mudo de lugar: não para me afastar da AMTB, mas para continuar a fortalecê-la a partir de outra posição — servindo ao movimento mais amplo, conectando suas diferentes expressões e ajudando a construir uma cultura na qual cooperar venha antes de incorporar, conectar venha antes de substituir e o Reino de Deus permaneça maior do que qualquer uma de nossas organizações.
Referências
EKSTRÖM, Bertil. A missiologia eclesial do apóstolo Paulo. In: EKSTRÖM, Bertil (org.). A Igreja em missão: fundamentos e exemplos globais. João Pessoa: Betel Brasileiro Publicações, 2017. p. 85–94.
INICIATIVA 2033. Consolidado estratégico: Iniciativa 2033 — diagnóstico. Jacareí, SP, abr. 2026a. Documento interno.
INICIATIVA 2033. Respostas ao diagnóstico: 3º Encontro Presencial. Jacareí, SP, abr. 2026b. Documento interno.
PERRELLI, Felipe. O desafio da fragmentação: a cooperação como vocação da mobilização missionária. Londrina, PR: Missão Evangélica BASE, 9 jul. 2026.
PLATAFORMA DE COOPERAÇÃO IBERO-AMERICANA. Documento de memória: primeira imersão de discernimento. Londrina, PR, 3–4 ago. 2026. Documento interno.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Mobilização não pode ser mera cooptação, Felipe Perrelli
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão, Obra conjunta
» A Missão da Igreja Hoje – A Bíblia, a história e as questões contemporâneas, Michael W. Goheen
Por Felipe Perrelli
1. Da expansão à integração
Há alguns anos, talvez o maior desafio da mobilização missionária brasileira fosse despertar a Igreja para sua responsabilidade na missão de Deus. Esse desafio permanece, especialmente quando consideramos a extensão do país, sua diversidade regional e a grande parcela da Igreja evangélica que ainda não compreende claramente sua participação missionária. Entretanto, olhando para o caminho percorrido, tenho a impressão de que esse já não é nosso único problema central.Iniciativas têm surgido em todas as regiões do Brasil. Organizações amadureceram. Igrejas passaram a falar mais sobre missões. Redes foram estabelecidas. Congressos, treinamentos, escolas, ministérios e movimentos multiplicaram-se. Há muito mais gente servindo à causa missionária do que havia uma geração atrás.
Esse crescimento merece ser celebrado.
Mas ele também tornou mais visível um novo desafio.
O problema já não é apenas a ausência de iniciativas.
É a dificuldade de integrá-las.
Diferentes organizações desenvolvem excelentes projetos, frequentemente voltados para os mesmos públicos, enfrentando problemas semelhantes e buscando objetivos próximos. Ainda assim, muitas dessas iniciativas caminham quase sem diálogo umas com as outras.
Não falta dedicação.
Não falta competência.
O que frequentemente falta é conexão.
Essa realidade produz consequências silenciosas. Relacionamentos são duplicados, recursos são dispersos, conhecimentos deixam de circular e pessoas percorrem jornadas fragmentadas, precisando descobrir sozinhas caminhos que poderiam estar muito mais integrados.
O prejuízo não é apenas operacional.
É profundamente missiológico.
A mobilização missionária existe para servir à Igreja em sua participação na Missio Dei. Seu papel não é construir sistemas paralelos nem disputar centralidade. Sua vocação é ajudar pessoas, igrejas, agências, movimentos e redes a reconhecerem que pertencem a uma mesma história: a missão de Deus.
Por isso, toda vez que a mobilização passa a fortalecer prioritariamente sua própria estrutura, ela começa a perder parte de sua identidade.
Mobilizadores existem para construir pontes.
Não muros.
Nos últimos anos, o movimento missionário brasileiro cresceu, diversificou-se e tornou-se muito maior do que qualquer estrutura capaz de representá-lo integralmente. O diagnóstico produzido pela Iniciativa 2033 tornou essa percepção mais objetiva: temos um movimento ativo, diverso e fértil, mas ainda insuficientemente articulado, marcado por fragmentação institucional, baixa integração entre atores e ausência de uma arquitetura nacional capaz de conectar melhor aquilo que já existe (INICIATIVA 2033, 2026a, 2026b).
Diante dessa realidade, talvez a pergunta decisiva para o próximo ciclo não seja: o que mais precisamos criar?
A pergunta é: como conectar melhor aquilo que Deus já levantou?
Essa mudança de pergunta altera profundamente a cultura ministerial.
Em vez de perguntar apenas “Como podemos fazer este projeto?”, começamos a perguntar “Como podemos fazer juntos?”.
Em vez de criar uma nova estrutura para cada necessidade identificada, aprendemos a reconhecer competências já presentes no Corpo de Cristo.
Em vez de competir por espaços de influência, buscamos ampliar ambientes de confiança.
Em vez de centralizar processos, distribuímos responsabilidades.
Em vez de perguntar quem conduzirá determinada iniciativa, perguntamos quais dons precisam ser reunidos para que ela cumpra melhor seu propósito.
Entretanto, existe uma prática que merece nossa atenção porque, muitas vezes, passa despercebida sob uma aparência de zelo pela missão. Sempre que surge uma nova oportunidade, um novo relacionamento ou uma nova iniciativa, nossa reação revela muito sobre a compreensão que temos da cooperação.
Podemos perguntar: “Quem já está servindo essa realidade e como podemos fortalecê-lo?”.
Também podemos perguntar, ainda que de forma implícita: “Como essa oportunidade pode passar a fazer parte da nossa estrutura?”.
A diferença entre essas duas posturas parece sutil.
Mas ela produz movimentos distintos.
A primeira fortalece o ecossistema.
A segunda fortalece a instituição.
A primeira conecta.
A segunda incorpora.
A primeira amplia a cooperação.
A segunda, mesmo sem perceber, pode iniciar um processo de centralização (PERRELLI, 2026).
Esse movimento raramente acontece de maneira explícita. Ele aparece quando deixamos de envolver quem já atua em determinada área; quando criamos caminhos paralelos para responder a necessidades que poderiam ser enfrentadas coletivamente; quando priorizamos a visibilidade da nossa iniciativa em vez da saúde do movimento; ou quando enxergamos uma nova oportunidade principalmente pelo benefício que ela poderá trazer à nossa organização.
Nenhum de nós está imune a essa tentação.
Ela nem sempre nasce de má intenção.
Nasce também da dificuldade de lembrar que a missão é maior do que qualquer estrutura criada para servi-la.
Por isso, precisamos desenvolver um novo reflexo ministerial. Antes de perguntar como uma oportunidade pode fortalecer nossa organização, deveríamos perguntar como ela pode fortalecer o movimento missionário como um todo.
Essa talvez seja uma das expressões mais concretas da maturidade cooperativa.
Trabalhar em cooperação significa abrir mão da necessidade de protagonismo permanente. Significa aceitar que, muitas vezes, o melhor resultado para o Reino acontecerá quando outra igreja, agência, rede ou movimento assumir naturalmente determinada frente.
Isso não diminui ninguém.
Ao contrário.
Revela compreensão da natureza da missão.
A missão pertence a Deus. Nenhuma instituição pode reivindicar sua propriedade. Nenhuma organização consegue expressar sozinha toda a riqueza daquilo que Deus está realizando no mundo.
Essa convicção encontra correspondência na imagem paulina do Corpo de Cristo. A diversidade de dons, ministérios e serviços não rompe a unidade do Corpo, mas encontra nela seu lugar. Bertil Ekström observa que, embora por razões práticas dividamos os ministérios em organizações e instituições, a ênfase de Paulo está na unidade que contém diversidade e age em mutualidade. Estruturas distintas não precisam ser eliminadas ou concentradas para que haja unidade; precisam aprender a relacionar sua diversidade em cooperação (EKSTRÖM, 2017, p. 85–94).
Essa perspectiva também nos ajuda a lembrar que nenhuma estrutura institucional pode ser confundida com a totalidade da Igreja em missão. Apóstolos e evangelistas não desenvolvem um ministério paralelo à Igreja, pois pertencem ao mesmo Corpo. A missiologia paulina articula intimamente missão e Igreja, compreendendo a comunidade dos crentes como participante da missão de Deus.
A diversidade institucional pode servir a essa participação, desde que permaneça orientada pela mutualidade e pelo propósito comum.
Quando esquecemos isso, estruturas passam a disputar pessoas, recursos, relacionamentos, legitimidade e influência.
Quase sempre essa disputa é silenciosa.
Raramente é declarada.
Seus efeitos, porém, aparecem na sobreposição de iniciativas, na dificuldade de compartilhar informações, na resistência em construir processos conjuntos e na multiplicação de caminhos paralelos para responder aos mesmos desafios.
A fragmentação não nasce somente da falta de diálogo.
Ela também nasce quando o crescimento institucional se torna mais importante do que o fortalecimento do ecossistema.
Talvez por isso a governança tenha se tornado um tema tão importante para a mobilização missionária contemporânea. À medida que os relacionamentos se ampliam, já não basta depender apenas da boa vontade das lideranças. Precisamos construir ambientes capazes de proteger a confiança, esclarecer papéis, favorecer a complementaridade, distribuir responsabilidades e produzir continuidade.
Governança saudável não limita a cooperação; ela a preserva.
É nesse contexto que reconheço a vocação histórica da Associação de Missões Transculturais Brasileiras — AMTB. Sua razão de existir nunca foi substituir igrejas, agências ou movimentos. Sua contribuição mais necessária está na capacidade de favorecer um ambiente em que diferentes expressões do movimento missionário brasileiro possam caminhar juntas, preservando suas identidades e cooperando em torno de um propósito comum.
Essa vocação continua necessária.
Talvez seja ainda mais necessária hoje.
Quanto maior a diversidade do movimento missionário brasileiro, maior será a necessidade de ambientes que conectem, articulem e fortaleçam essa diversidade, sem concentrá-la numa única estrutura.
2. Uma mudança de lugar a serviço da cooperação
É a partir desse diagnóstico mais amplo que compreendo minha própria mudança de lugar. Depois de mais de uma década servindo à mobilização missionária no ambiente da AMTB, entendo que chegou o momento de aplicar à minha trajetória aquilo que venho defendendo para o movimento: cooperar nem sempre significa permanecer no mesmo lugar institucional. Em alguns momentos, fortalecer o todo exige atravessar fronteiras, aproximar ambientes distintos e servir a partir de novas interfaces.
Não se trata de afastamento da AMTB, muito menos de ruptura com aquilo que construímos ao longo desses anos. Trata-se de reconhecer o que o próprio caminho percorrido passou a exigir.
Minha atuação na mobilização sempre esteve ligada a uma convicção: mobilizar não é simplesmente promover missões, eventos ou organizações. É ajudar a Igreja a compreender sua participação na missão de Deus e criar condições para que pessoas, igrejas, agências, movimentos e redes encontrem caminhos concretos de participação.
Por isso, ao longo dos anos, meu trabalho foi se deslocando sucessivamente da realização de ações para a construção de relações, ambientes e processos de cooperação.
Essa compreensão não nasceu recentemente. Em 2023, quando participamos daformação do que viria a ser a Aliança 10.15, já estavam presentes questões que continuam orientando meu pensamento: estreitar relacionamentos entre iniciativas de mobilização, trabalhar conjuntamente respeitando a agenda de cada organização, acompanhar resultados, pesquisar a mobilização brasileira e atuar em unidade.
Posteriormente, a Aliança definiu entre seus objetivos otimizar o trabalho de mobilização, compartilhar recursos, apoiar-se mutuamente com ferramentas, desenvolver pesquisas e fomentar novas iniciativas.
A própria Missão Evangélica BASE foi se desenvolvendo nessa direção. Seu trabalho com mobilizadores nunca teve como finalidade concentrar a mobilização em uma organização, mas qualificar pessoas para discernir contextos, construir conexões e aplicar soluções a partir da igreja local.
Cooperação, portanto, não é uma agenda acrescentada posteriormente ao meu trabalho.
Tornou-se consequência do modo como passei a compreender o próprio ofício do mobilizador.
Essa compreensão também orienta minha relação com a AMTB. Vejo-a como uma das referências históricas mais importantes do movimento missionário brasileiro. Justamente por reconhecer a amplitude desse movimento, entendo que existe também uma Igreja evangélica brasileira muito mais ampla, plural e distribuída, além de redes, movimentos, igrejas, organizações e pessoas que não estão dentro do ambiente institucional da AMTB e que também precisam participar das conversas sobre nossos próximos passos.
Reconhecer essa amplitude não enfraquece a AMTB. Pode ajudá-la a exercer com ainda mais clareza sua vocação articuladora.
É nesse ponto que minha mudança de lugar ganha sentido.
Ela não nasce de uma oposição entre a AMTB e outras expressões do movimento. Nasce do desejo de ampliar as possibilidades de conexão entre elas.
Deixo uma função institucional na mobilização da AMTB sem deixar de desejar fortalecê-la. Quero servir a partir de um lugar capaz de atravessar fronteiras institucionais, aproximando quem está dentro e quem está fora, sem transformar essa travessia em concorrência ou numa estrutura paralela.
A Plataforma Nacional de Mobilização Missionária — PNMM tornou-se uma experiência concreta dessa busca. Ela não foi concebida como uma nova organização destinada a substituir o que já existe, mas como uma arquitetura cooperativa voltada a conectar e fortalecer atores, jornadas e iniciativas de mobilização missionária no Brasil, preservando identidade, autonomia e protagonismo.
A direção indicada pelo diagnóstico nacional é organizar melhor aquilo que já existe, integrar o ciclo missionário, fortalecer a igreja local, desenvolver mobilizadores e produzir inteligência que possa servir às decisões e à cooperação (INICIATIVA 2033, 2026a, 2026b).
A mesma percepção ultrapassou o Brasil.
Na primeira imersão da Plataforma de Cooperação Ibero-Americana, reencontramos um diagnóstico semelhante: existem muitas organizações, recursos, experiências e iniciativas, mas frequentemente pouco conectados. A Plataforma não foi pensada para representar organizações, assumir autoridade sobre elas ou centralizar seus processos. Seu propósito é fortalecer estruturas existentes por meio de conexões qualificadas, confiança, inteligência compartilhada e colaboração (PLATAFORMA DE COOPERAÇÃO IBERO-AMERICANA, 2026).
A relação entre essas plataformas e a AMTB não precisa ser de competição. Pode ser de complementaridade.
A AMTB pode continuar exercendo sua vocação histórica como referência, ambiente de articulação e lugar de pertencimento institucional, enquanto plataformas cooperativas alcançam fronteiras, atores e interfaces que não cabem inteiramente numa única organização.
O critério não deve ser quem controla a relação, mas como cada ambiente contribui para que a Igreja participe de modo mais integrado, responsável e frutífero da missão de Deus.
Por isso, minha saída de uma função não significa saída de uma história.
Continuo reconhecendo o valor da AMTB, desejando sua saúde e trabalhando para que ela se fortaleça. O que muda é o lugar a partir do qual pretendo servir.
Depois de anos ajudando a construir uma frente institucional de mobilização, entendo que o próximo ciclo exige menos a ocupação de um centro e mais a construção de pontes entre muitos centros.
Essa mudança também me obriga a preservar algumas convicções. Não pretendo construir uma alternativa à AMTB, disputar sua legitimidade ou utilizar minha transição como argumento de promoção de novas plataformas.
O valor do PNMM e da cooperação ibero-americana deverá ser demonstrado pelo que esses ambientes conseguirem conectar, fortalecer e produzir em favor da Igreja e do movimento missionário.
A cooperação será crível apenas se nossas práticas corresponderem ao discurso que a sustenta.
No fim, a maturidade da mobilização missionária não deveria ser medida apenas pela quantidade de programas que conseguimos criar, pelo tamanho das estruturas que dirigimos ou pela visibilidade que alcançamos.
Ela também se revela em nossa capacidade de aproximar pessoas, integrar jornadas, compartilhar inteligência, fortalecer relações de confiança e reconhecer com alegria o trabalho que Deus confiou a outros.
A missão não pertence às nossas estruturas.
As estruturas é que precisam permanecer disponíveis para servir à missão de Deus.
É por essa razão que mudo de lugar: não para me afastar da AMTB, mas para continuar a fortalecê-la a partir de outra posição — servindo ao movimento mais amplo, conectando suas diferentes expressões e ajudando a construir uma cultura na qual cooperar venha antes de incorporar, conectar venha antes de substituir e o Reino de Deus permaneça maior do que qualquer uma de nossas organizações.
Referências
EKSTRÖM, Bertil. A missiologia eclesial do apóstolo Paulo. In: EKSTRÖM, Bertil (org.). A Igreja em missão: fundamentos e exemplos globais. João Pessoa: Betel Brasileiro Publicações, 2017. p. 85–94.
INICIATIVA 2033. Consolidado estratégico: Iniciativa 2033 — diagnóstico. Jacareí, SP, abr. 2026a. Documento interno.
INICIATIVA 2033. Respostas ao diagnóstico: 3º Encontro Presencial. Jacareí, SP, abr. 2026b. Documento interno.
PERRELLI, Felipe. O desafio da fragmentação: a cooperação como vocação da mobilização missionária. Londrina, PR: Missão Evangélica BASE, 9 jul. 2026.
PLATAFORMA DE COOPERAÇÃO IBERO-AMERICANA. Documento de memória: primeira imersão de discernimento. Londrina, PR, 3–4 ago. 2026. Documento interno.
- Felipe Perrelli é diretor executivo da Missão Evangélica BASE e coordenador nacional de Mobilização da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB).
Imagem: Unsplash.
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Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Mobilização não pode ser mera cooptação, Felipe Perrelli
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão, Obra conjunta
» A Missão da Igreja Hoje – A Bíblia, a história e as questões contemporâneas, Michael W. Goheen
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