Palavra do leitor
19 de abril de 2016- Visualizações: 1137
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A tradição da ruptura: considerações sobre o voto maciço da bancada evangélica pelo impeachment
Domingo assisti sem nenhuma surpresa ao voto maciço dos deputados da bancada evangélica pela abertura do processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. De início, preciso destacar que considero esse processo uma ruptura institucional, um desrespeito à constituição, visto que não há contra a presidenta crime de responsabilidade comprovado, e tudo indica estar havendo um julgamento político, em vez de um julgamento técnico-jurídico. Não se trata aqui de uma defesa do governo, mas de uma afirmação da fragilidade dos argumentos que sustentam o pedido de impedimento.
Pois bem, partindo dessa premissa, me salta aos olhos, portanto, o fato de a bancada evangélica ter votado a favor de uma ruptura institucional, numa flagrante violação da Constituição Brasileira. Dentre as razões apresentadas pelos pastores-deputados, não houve menção às razões técnicas do processo em questão, mas sim majoritariamente a defesa da família, de deus e dos valores morais; além da decência e dos bons costumes.
Acredito que as razões invocadas para o voto “sim” desses deputados são razoáveis para tal grupo, mas não suficientes para explicar tamanha convicção e empolgação com a decisão por um evidente desrespeito à Constituição Federal. Sendo assim, me questiono: que outras razões podem ter determinado o encaminhamento do voto “sim” da bancada da bíblia?
Na tentativa de uma compreensão mais ampla desse voto, recorro às minhas lembranças no meio evangélico, onde nasci e formei minhas convicções mais profundas. Lembro-me, então, ser um expediente recorrente de alguns líderes desse segmento a ruptura institucional. Desde as igrejas históricas, passando pelas pentecostais, chegando às neopentecostais (ou neoliberais), é prática conhecida dividir instituições, arregimentar o rebanho alheio e inaugurar uma nova igreja como solução para uma discordância qualquer. Assim, se resolvem desacordos, já que cada uma das partes discordantes passa a possuir seu espaço, suas regras, seus seguidores, e seu púlpito para afirmar sua subjetividade unívoca (sem contrastes e, portanto, sem conflitos).
Dessa forma multiplicam-se igrejas, ministérios, comunidades evangélicas (não todas) a partir da ruptura, e essas, por sua vez, fadadas a novos esgarçamentos, que resultarão em novas comunidades, ministérios, igrejas, marcadas por forte tradição “incostitucionalista”, ou seja, por uma considerável rejeição à submissão a regras e instituições coletivas. Nascem também líderes desconfiados, e estes adotam, na lida, estratégias para se defenderem nesse meio sem regras coletivas sólidas que lhes garantam alguma estabilidade para liderar.
Voltando à votação do impedimento, observei nauseado o sarcasmo com que o pastor-deputado Marco Feliciano encerrou seu voto com a expressão “Tchau, querida!”, direcionada a uma mulher, sexagenária, mãe, avó, e constituída Presidenta da República. Não se tratava de um arroubo de emoção de Marco Feliciano, mas sim do sarcasmo planejado friamente, típico de quem se põe sempre à espreita e, sabendo-se espreitado, lança mão do recurso que dispõe para desconstruir o outro, a fim de se afirmar.
Concluo, então, com pesar, que a postura dos pastores-deputados na câmara está de acordo com sua rotina de sobrevivência nas igrejas de onde provêm. Seus aclamados votos pela ruptura institucional se devem mais do que a ideologias e valores morais; se devem, sobretudo, à força do hábito. Reproduzem na vida pública, no legislativo, suas ações naturalizadas nos porões de sua vida eclesiástica. Cabe destacar que tal bancada não representa a totalidade dos evangélicos, contudo, representa um nicho de igrejas acostumadas ao fisiologismo e clientelismo, que se expressa na troca de votos por concessões de rádios, TV’s, terrenos, liberação de obras irregulares, dentre outros desvios de finalidade.
Portanto, a bancada evangélica hoje, constituída como está, representa um entrave ao Estado Democrático de Direito, não por ser de esquerda ou de direita, tampouco por ser conservadora ou progressista, mas sim por sua inaptidão para se submeter a uma Carta Magna que iguala a todos e institui uma ordem coletiva externa à persona. Nossos pastores-deputados, em sua maioria oriundos de instituições tão personalistas, habituados a descontinuidades e rupturas, dificilmente conseguirão se submeter – sem esforço – ao que rege a Constituição Federal e suas consequentes regras e instituições sólidas e duradouras.
Jean Schimidt
* Tomo de empréstimo o título "A tradição da ruptura" do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz.
Pois bem, partindo dessa premissa, me salta aos olhos, portanto, o fato de a bancada evangélica ter votado a favor de uma ruptura institucional, numa flagrante violação da Constituição Brasileira. Dentre as razões apresentadas pelos pastores-deputados, não houve menção às razões técnicas do processo em questão, mas sim majoritariamente a defesa da família, de deus e dos valores morais; além da decência e dos bons costumes.
Acredito que as razões invocadas para o voto “sim” desses deputados são razoáveis para tal grupo, mas não suficientes para explicar tamanha convicção e empolgação com a decisão por um evidente desrespeito à Constituição Federal. Sendo assim, me questiono: que outras razões podem ter determinado o encaminhamento do voto “sim” da bancada da bíblia?
Na tentativa de uma compreensão mais ampla desse voto, recorro às minhas lembranças no meio evangélico, onde nasci e formei minhas convicções mais profundas. Lembro-me, então, ser um expediente recorrente de alguns líderes desse segmento a ruptura institucional. Desde as igrejas históricas, passando pelas pentecostais, chegando às neopentecostais (ou neoliberais), é prática conhecida dividir instituições, arregimentar o rebanho alheio e inaugurar uma nova igreja como solução para uma discordância qualquer. Assim, se resolvem desacordos, já que cada uma das partes discordantes passa a possuir seu espaço, suas regras, seus seguidores, e seu púlpito para afirmar sua subjetividade unívoca (sem contrastes e, portanto, sem conflitos).
Dessa forma multiplicam-se igrejas, ministérios, comunidades evangélicas (não todas) a partir da ruptura, e essas, por sua vez, fadadas a novos esgarçamentos, que resultarão em novas comunidades, ministérios, igrejas, marcadas por forte tradição “incostitucionalista”, ou seja, por uma considerável rejeição à submissão a regras e instituições coletivas. Nascem também líderes desconfiados, e estes adotam, na lida, estratégias para se defenderem nesse meio sem regras coletivas sólidas que lhes garantam alguma estabilidade para liderar.
Voltando à votação do impedimento, observei nauseado o sarcasmo com que o pastor-deputado Marco Feliciano encerrou seu voto com a expressão “Tchau, querida!”, direcionada a uma mulher, sexagenária, mãe, avó, e constituída Presidenta da República. Não se tratava de um arroubo de emoção de Marco Feliciano, mas sim do sarcasmo planejado friamente, típico de quem se põe sempre à espreita e, sabendo-se espreitado, lança mão do recurso que dispõe para desconstruir o outro, a fim de se afirmar.
Concluo, então, com pesar, que a postura dos pastores-deputados na câmara está de acordo com sua rotina de sobrevivência nas igrejas de onde provêm. Seus aclamados votos pela ruptura institucional se devem mais do que a ideologias e valores morais; se devem, sobretudo, à força do hábito. Reproduzem na vida pública, no legislativo, suas ações naturalizadas nos porões de sua vida eclesiástica. Cabe destacar que tal bancada não representa a totalidade dos evangélicos, contudo, representa um nicho de igrejas acostumadas ao fisiologismo e clientelismo, que se expressa na troca de votos por concessões de rádios, TV’s, terrenos, liberação de obras irregulares, dentre outros desvios de finalidade.
Portanto, a bancada evangélica hoje, constituída como está, representa um entrave ao Estado Democrático de Direito, não por ser de esquerda ou de direita, tampouco por ser conservadora ou progressista, mas sim por sua inaptidão para se submeter a uma Carta Magna que iguala a todos e institui uma ordem coletiva externa à persona. Nossos pastores-deputados, em sua maioria oriundos de instituições tão personalistas, habituados a descontinuidades e rupturas, dificilmente conseguirão se submeter – sem esforço – ao que rege a Constituição Federal e suas consequentes regras e instituições sólidas e duradouras.
Jean Schimidt
* Tomo de empréstimo o título "A tradição da ruptura" do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz.
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