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Agir contra a desigualdade inspirados na história da reconciliação

Por William Lacy Lane

Deus é desigual? Possui preferidos? Faz acepção de pessoas? Separa os seres humanos? Responder a essas perguntas é essencial para abordar o problema da desigualdade na sociedade atual. Mesmo ao leitor da Bíblia, pode parecer que Deus esteja sempre fazendo distinção entre as pessoas. O ser humano foi criado macho e fêmea (Gn 1.27) e, depois do pecado, Deus disse à mulher que o seu marido a governaria (3.16). Não apenas os primeiros irmãos desenvolviam atividades econômicas diferentes – um era pastor, o outro, lavrador (4.2) –, como também o produto do seu trabalho foi recebido de modo distinto por Deus – a oferta de um foi aceita, e a do outro, não.

Mais adiante, a população humana é descrita como “filhos de Deus” e “filhas dos homens” (6.2). Deus poupa a família de Noé e destrói o restante da humanidade. Em seguida, escolhe Abrão dentre todas as famílias da terra para abençoá-lo, torná-lo um grande povo e amaldiçoar os que o amaldiçoassem (cap. 12).

Prosseguindo, na legislação do Pentateuco, na Sabedoria e nos Profetas há distinção entre santos/puros e imundos, ou entre justos e perversos. Os justos são abençoados e prosperam; os perversos, não.

Alguns cristãos veem nisso uma razão para legitimar a desigualdade social – alguns prosperam porque são fiéis a Deus, outros empobrecem por causa do pecado. Porém, ler a Bíblia sob essa perspectiva é deixar de enxergar um aspecto igualmente importante e recorrente nas Escrituras: Deus não se prende às desigualdades sociais, culturais e religiosas que nós perversamente criamos ou reforçamos para determinar quem merece tratamento diferenciado. Pelo contrário, tanto a legislação da aliança no Antigo Testamento como o evangelho do reino no Novo Testamento são enfáticos em denunciar a desigualdade e combatê-la.

Na lei mosaica, há diversas instruções que visam ao equilíbrio e à igualdade econômica do povo. Quem possuía terra, durante a colheita devia deixar as sobras das espigas para o pobre e o estrangeiro (Lv 19.9-10). A cada 50 anos, no ano do Jubileu, as propriedades voltavam aos proprietários originais e as dívidas eram canceladas. Isso evitava que a população se tornasse escrava de grandes latifundiários (25.8-34). O escravo comprado devia ser libertado no sétimo ano (Êx 21.1-6) e, quando alguém ficasse pobre e não conseguisse mais pagar as contas, a comunidade devia ajudá-lo, e não lhe emprestar mantimento visando o lucro (Lv 25.35-38).

A legislação sobre o estrangeiro é particularmente significativa. Do ponto de vista ritual, o estrangeiro era excluído da celebração da Páscoa, a não ser que desejasse se circuncidar (Êx 12.43, 48). Porém, como cidadão, ele devia ser tratado “como o natural”, amado e não oprimido (Lv 19.33-34). Essa instrução lembrava os israelitas de que eles também foram estrangeiros no Egito (Êx 22.21; Dt 24.17-18; 27.19).

Por mais que o ritual fosse definidor e construtor de uma visão de mundo e dos limites do quê e de quem é aceitável, a legislação sobre o estrangeiro é uma clara demonstração de que a ética social do povo escolhido de Deus transcende as exigências do culto. Não podemos transferir as regras do culto à sociedade, mas devemos transmitir o caráter do Deus que é cultuado ao modo como vivemos na sociedade e tratamos o estrangeiro. Há um exclusivismo ritual e de identidade do povo escolhido de Deus, mas uma inclusão no trato ético social.

O povo nem sempre obedeceu às instruções do Senhor e sofreu as consequências disso. Os profetas confrontaram a comunidade por não ser obediente à legislação da aliança e a condenaram nem tanto por seu culto pagão, mas sobretudo pela injustiça cometida. O primeiro capítulo de Isaías revela como a comunidade era religiosa e guardava os rituais (Is 1.12-15), mas não sabia fazer o bem, não praticava a justiça, não defendia o direito do órfão nem a causa da viúva (1.17). Ainda assim, quando o povo foi para o exílio, Deus o resgatou e prometeu um novo tempo, um novo céu e uma nova terra, em que as pessoas edificariam casas e habitariam nelas, plantariam vinhas e comeriam do seu fruto (Is 65.17-25; cp. Dt 28.30). Uma metáfora de uma vida harmoniosa, equilibrada e sem desigualdades.

Os ensinos de Jesus nos Evangelhos sobre a salvação e a vinda do reino de Deus reafirmam a verdade sobre a convivência social e as relações econômicas entre as pessoas. A forte tradição judaica e a consciência de sua identidade de povo escolhido de Deus eram usadas por alguns para promover diferenciação entre as pessoas. Cristo, porém, redefine a identidade do povo e reconfigura as suas fronteiras: entrar no reino de Deus não mais dependia da identidade racial, religiosa, social ou econômica, mas da fé e do arrependimento (Mt 4.17; Mc 1.15). Assim, Jesus reflete a mesma mensagem ética dos profetas do Antigo Testamento.

Na expansão da igreja em Atos, os apóstolos seguiam os critérios rituais na pregação do evangelho e, apesar de atravessarem fronteiras geográficas, chegando à Fenícia, a Chipre e à Antioquia, se limitavam a falar aos judeus (At 11.19). Pedro teve de se explicar em Jerusalém por ter entrado na casa de um incircunciso e pregado o evangelho (11.1-7). Contudo, aos poucos eles compreenderam que a comunidade da fé é marcada por não fazer distinção entre judeus e gregos, escravos e livres, homem e mulher (1Co 12.13; Gl 3.28); e que a fé genuína, pura e imaculada se traduz em “cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades” (Tg 1.27).

Nossa identidade em Cristo deve se refletir no modo como nos relacionamos. Tanto os Dez Mandamentos (Êx 20) como a oração que o Senhor ensinou aos discípulos (Mt 6.9-15) incluem o respeito ao nome e à santidade de Deus (Êx 20.1-11; Mt 6.9-10), bem como a responsabilidade para com o próximo (Êx 20.12-17; Mt 6.11-15). Esses e outros ensinamentos devem nos inspirar a sermos seguidores de Jesus, fiéis à sua mensagem e comprometidos com o combate às diversas formas de desigualdade existentes na atualidade.

William Lacy Lane, doutor em Antigo Testamento, é pastor presbiteriano e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Seminário Presbiteriano do Sul.

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