Opinião
27 de maio de 2026- Visualizações: 36
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O navio e as missões
Não são as embarcações que dão segurança, e, mesmo sendo úteis e com boa manutenção, a confiança precisa estar em Deus
Por Bertil Ekström
Era quase meio-dia de domingo e estávamos nos preparando para almoçar com o capitão do navio. Um dia antes, havíamos deixado o porto de Recife e o próximo destino seria Santos. Quatro semanas de viagem desde o embarque em Gotemburgo, na Suécia, a expectativa era grande de finalmente chegar ao Brasil. Após vários anos esperando para completar o sustento, algo difícil nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, havia chegado o momento de iniciar o primeiro período como missionários na terra do chamado. Mas, nesse domingo, 7 de julho de 1957, a viagem traria surpresas que não constavam do plano original.
O alarme de emergência soou com toda a intensidade e todos foram comandados a subir ao convés para receber ordens do capitão. O navio La Plata, da Johnson Line, estava com problemas. Na verdade, era um cargueiro que colocava à disposição algumas cabines para passageiros, sendo a forma mais barata de enviar missionários ao campo. Um incêndio tinha começado na casa das máquinas e o óleo jorrava sobre os motores sem possibilidade de fechar os registros enferrujados. Uma mensagem de SOS, com comunicação de “Mayday”, fora enviada a navios que possivelmente estivessem por perto. No momento, todos tinham que descer em botes “salva-vidas”, movidos a remo, e afastar-se do navio para esperar o incêndio ser apagado.
Foram seis horas em alto-mar, águas internacionais, longe da costa, esperando um retorno ao navio ou o resgate por outra nau. Ao escurecer, veio a mensagem do capitão, o último a abandonar o La Plata: não havia como salvar o navio e seríamos resgatados por outros que haviam chegado. Em nosso caso, foi um navio americano que nos salvou. Dois dias depois, chegamos ao Rio de Janeiro – meu pai com uma pasta com documentos e algum dinheiro, e minha mãe com uma sacola de roupas para as crianças. Eu tinha quatro anos de idade, minha irmã, um ano, e meus pais estavam chegando para o primeiro período como missionários batistas. Aqui serviram por 35 anos.
Navios sempre foram importantes na divulgação do evangelho e fazem parte da história das missões. Na verdade, temos importantes relatos relacionados com embarcações já nas Escrituras, e seria interessante um estudo sobre o significado teológico delas. A arca de Noé, o navio de fuga de Jonas, o ensino de Jesus e as experiências dos discípulos em barcos no mar da Galileia, e o naufrágio de Paulo a caminho de Roma em sua quarta “viagem missionária”. Parece que todas as vezes aconteceram situações dramáticas, com lições importantes. Possivelmente, são estas que acabaram sendo narradas.

Não é diferente na expansão do evangelho ao longo da história da igreja cristã. Os navios eram o meio de transporte para se chegar a outros continentes e eram usados tanto para desbravar e conquistar outras terras como para difundir a fé cristã. A mistura de interesses religiosos com ambições políticas e econômicas sempre existiu, assim como vemos em nossos dias. Os “navios negreiros” fazem parte de um triste legado de nossa história. O país que possuía uma forte armada podia dominar outras nações com sua potência militar e seu comércio marítimo.
Ao mesmo tempo, navios serviram para levar missionários e o evangelho aos lugares mais remotos do planeta, e, até a década de 1960, era a forma mais usada de transporte “além-mar”. Ainda hoje, as embarcações são de grande importância, alcançando as comunidades ao longo da costa e, principalmente, as povoações ribeirinhas e os povos indígenas. Em muitos lugares, como sabemos, só se pode chegar de barco, mesmo que seja um “peque-peque” nos igarapés do Alto Solimões.
Além da importância histórica, poderíamos usar a metáfora dos navios para descrever as estruturas do movimento missionário brasileiro e global. Uma enorme diversidade de meios de transporte e de comunicação é usada pelos movimentos missionários de hoje. Trata-se tanto de esquadras potentes como de embarcações simples e precárias. Algumas missões possuem recursos para oferecer boas condições aos seus enviados, tentando vencer as grandes ondas e eliminar ao máximo o perigo do mar turbulento. Outras, principalmente as emergentes, ainda usam “barcos a remo”, mas com o mesmo desejo de espalhar as boas novas do evangelho. Acredito que a maioria já percebeu que não são as embarcações que dão segurança, e, mesmo sendo úteis e com boa manutenção, a confiança precisa estar em Deus. Aprendemos isso como família, entendendo, no entanto, que uma melhor manutenção de “nosso” navio poderia ter evitado a perda total de tudo o que ele carregava.
A diversidade de “embarcações” é uma bênção e fornece condições para se alcançar os mais diversos portos em terras longínquas, assim como os vilarejos de difícil acesso no interior amazônico ou nas ilhas indonésias. A questão é muito mais a divisão de tarefas e a cooperação entre as diferentes frotas marinhas e fluviais, ajudando e, se necessário, socorrendo uns aos outros. Lembramo-nos da cena dos dois barcos com discípulos, ajudando um ao outro quando a pesca ficou grande demais para um único barco, resultado da ordem de Jesus para pescar. Precisamos também valorizar uns aos outros, entendendo que as canoas não atravessam os oceanos nem os transatlânticos chegam às comunidades ribeirinhas.
Finalizo destacando o importante ministério de navios da Operação Mobilização, que se iniciou na década de 1970 com George Verwer. Décio de Carvalho, um dos fundadores da OM Brasil em 1986, está atualmente comandando o barco Logos Hope, que, depois de semanas no Caribe, entrará em vários portos na Europa nos próximos meses. É um exemplo da forma como navios têm sido essenciais para a missão da igreja, levando aos povos a mensagem do reino de Deus, caracterizado por esperança, justiça, reconciliação e paz.
Artigo publicado originalmente na edição 419 de Ultimato.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Vão, mas vão em unidade, Juie Kriel
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão, vários autores
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
» Para que todos sejam um – a unidade da igreja é possível?, edição 397 de Ultimato
Por Bertil Ekström
Era quase meio-dia de domingo e estávamos nos preparando para almoçar com o capitão do navio. Um dia antes, havíamos deixado o porto de Recife e o próximo destino seria Santos. Quatro semanas de viagem desde o embarque em Gotemburgo, na Suécia, a expectativa era grande de finalmente chegar ao Brasil. Após vários anos esperando para completar o sustento, algo difícil nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, havia chegado o momento de iniciar o primeiro período como missionários na terra do chamado. Mas, nesse domingo, 7 de julho de 1957, a viagem traria surpresas que não constavam do plano original.O alarme de emergência soou com toda a intensidade e todos foram comandados a subir ao convés para receber ordens do capitão. O navio La Plata, da Johnson Line, estava com problemas. Na verdade, era um cargueiro que colocava à disposição algumas cabines para passageiros, sendo a forma mais barata de enviar missionários ao campo. Um incêndio tinha começado na casa das máquinas e o óleo jorrava sobre os motores sem possibilidade de fechar os registros enferrujados. Uma mensagem de SOS, com comunicação de “Mayday”, fora enviada a navios que possivelmente estivessem por perto. No momento, todos tinham que descer em botes “salva-vidas”, movidos a remo, e afastar-se do navio para esperar o incêndio ser apagado.
Foram seis horas em alto-mar, águas internacionais, longe da costa, esperando um retorno ao navio ou o resgate por outra nau. Ao escurecer, veio a mensagem do capitão, o último a abandonar o La Plata: não havia como salvar o navio e seríamos resgatados por outros que haviam chegado. Em nosso caso, foi um navio americano que nos salvou. Dois dias depois, chegamos ao Rio de Janeiro – meu pai com uma pasta com documentos e algum dinheiro, e minha mãe com uma sacola de roupas para as crianças. Eu tinha quatro anos de idade, minha irmã, um ano, e meus pais estavam chegando para o primeiro período como missionários batistas. Aqui serviram por 35 anos.
Navios sempre foram importantes na divulgação do evangelho e fazem parte da história das missões. Na verdade, temos importantes relatos relacionados com embarcações já nas Escrituras, e seria interessante um estudo sobre o significado teológico delas. A arca de Noé, o navio de fuga de Jonas, o ensino de Jesus e as experiências dos discípulos em barcos no mar da Galileia, e o naufrágio de Paulo a caminho de Roma em sua quarta “viagem missionária”. Parece que todas as vezes aconteceram situações dramáticas, com lições importantes. Possivelmente, são estas que acabaram sendo narradas.

Não é diferente na expansão do evangelho ao longo da história da igreja cristã. Os navios eram o meio de transporte para se chegar a outros continentes e eram usados tanto para desbravar e conquistar outras terras como para difundir a fé cristã. A mistura de interesses religiosos com ambições políticas e econômicas sempre existiu, assim como vemos em nossos dias. Os “navios negreiros” fazem parte de um triste legado de nossa história. O país que possuía uma forte armada podia dominar outras nações com sua potência militar e seu comércio marítimo.
Ao mesmo tempo, navios serviram para levar missionários e o evangelho aos lugares mais remotos do planeta, e, até a década de 1960, era a forma mais usada de transporte “além-mar”. Ainda hoje, as embarcações são de grande importância, alcançando as comunidades ao longo da costa e, principalmente, as povoações ribeirinhas e os povos indígenas. Em muitos lugares, como sabemos, só se pode chegar de barco, mesmo que seja um “peque-peque” nos igarapés do Alto Solimões.
Além da importância histórica, poderíamos usar a metáfora dos navios para descrever as estruturas do movimento missionário brasileiro e global. Uma enorme diversidade de meios de transporte e de comunicação é usada pelos movimentos missionários de hoje. Trata-se tanto de esquadras potentes como de embarcações simples e precárias. Algumas missões possuem recursos para oferecer boas condições aos seus enviados, tentando vencer as grandes ondas e eliminar ao máximo o perigo do mar turbulento. Outras, principalmente as emergentes, ainda usam “barcos a remo”, mas com o mesmo desejo de espalhar as boas novas do evangelho. Acredito que a maioria já percebeu que não são as embarcações que dão segurança, e, mesmo sendo úteis e com boa manutenção, a confiança precisa estar em Deus. Aprendemos isso como família, entendendo, no entanto, que uma melhor manutenção de “nosso” navio poderia ter evitado a perda total de tudo o que ele carregava.
A diversidade de “embarcações” é uma bênção e fornece condições para se alcançar os mais diversos portos em terras longínquas, assim como os vilarejos de difícil acesso no interior amazônico ou nas ilhas indonésias. A questão é muito mais a divisão de tarefas e a cooperação entre as diferentes frotas marinhas e fluviais, ajudando e, se necessário, socorrendo uns aos outros. Lembramo-nos da cena dos dois barcos com discípulos, ajudando um ao outro quando a pesca ficou grande demais para um único barco, resultado da ordem de Jesus para pescar. Precisamos também valorizar uns aos outros, entendendo que as canoas não atravessam os oceanos nem os transatlânticos chegam às comunidades ribeirinhas.
Finalizo destacando o importante ministério de navios da Operação Mobilização, que se iniciou na década de 1970 com George Verwer. Décio de Carvalho, um dos fundadores da OM Brasil em 1986, está atualmente comandando o barco Logos Hope, que, depois de semanas no Caribe, entrará em vários portos na Europa nos próximos meses. É um exemplo da forma como navios têm sido essenciais para a missão da igreja, levando aos povos a mensagem do reino de Deus, caracterizado por esperança, justiça, reconciliação e paz.
- Bertil Ekström é pastor batista, professor de teologia e de missiologia, e autor de Missões em Toda a Bíblia – Teologia, reflexão e prática.
Artigo publicado originalmente na edição 419 de Ultimato.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, clique aqui.
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» Vão, mas vão em unidade, Juie Kriel
» Unidade da Igreja e Cooperação na Missão, vários autores
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
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