Opinião
16 de março de 2026- Visualizações: 804
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O Brasil é a Nação Cujo Deus é o Senhor?
Por Marcos Amado
Meses atrás, durante uma sessão extraordinária da Câmara dos Deputados, em Brasília, a deputada federal Carla Dickson (União/RN) encerrou sua intervenção declarando de forma enfática: “Viva o Brasil! Viva Israel!”. Em seguida, com a mesma ênfase, citou o Salmo 33.12, que afirma ser “Bendita a nação cujo Deus é o Senhor”. Ao longo da mesma sessão, palavras e expressões de cunho religioso, majoritariamente associadas ao cristianismo, foram mencionadas mais de 70 vezes pelos deputados presentes.
O episódio, para além da “cristianização” do discurso político, aponta para uma tendência crescente em alguns setores evangélicos: a interpretação de passagens bíblicas como o Salmo 33, dirigidas ao antigo Israel, como se fossem diretamente aplicáveis ao Brasil contemporâneo.
Essa leitura, frequentemente filtrada por lentes nacionalistas, tem levado certos setores evangélicos à defesa de que é papel do Estado impor valores cristãos mesmo àqueles que não se identificam com o cristianismo, como se isso equivalesse à submissão da nação a Deus. Estabelece-se, assim, uma lógica de confronto na qual o Brasil, para ser abençoado por Deus, precisaria adotar o cristianismo evangélico como crença quase oficial. Não por acaso, ganhou força nos últimos anos o bordão "o país é laico, mas o governo não".
O senhorio de Deus é, obviamente, um conceito bem estabelecido nas Escrituras, que afirmam repetidas vezes que ele, e não nós, detém o domínio sobre todos os povos e nações. Contudo, no Salmo em questão, não há qualquer indicação de que Deus esteja delegando aos fiéis a missão de, em seu nome, tomar um país por assalto para que ele possa exercer o seu senhorio. Do ponto de vista bíblico, ele já é Senhor.
O que o Salmo está afirmando é que a nação de Israel era bem-aventurada porque Jeová (que é o termo literal no original e que é traduzido em nossas Bíblias como Senhor) é o Deus deles. Ele a havia escolhido para ser sua. Isso se torna evidente na segunda parte do versículo, que declara que Israel é “o povo que ele escolheu para a sua herança”.

Diante disso, surge uma questão inevitável: se no Antigo Testamento era Israel, quem seria hoje esse povo descrito como bem-aventurado? Para aqueles que leem o Antigo Testamento à luz do Novo, a resposta é clara: não se trata do Brasil nem de Israel. O povo em questão é composto por cristãos espalhados entre todas as nações, descritos nas Escrituras como nação santa, povo escolhido e reino sacerdotal. Não um país, um estado-nação específico ou instituição, mas judeus e não judeus, de diferentes tradições cristãs, unidos pela convicção de que Jesus Cristo, e não César, é o Senhor.
A prática de interpretar textos originalmente dirigidos ao povo de Israel como se estivessem falando diretamente ao estado-nação brasileiro conduz, gradualmente, ao que os estudiosos chamam de nacionalismo cristão, que emerge fortemente também nos EUA. Nesse processo, desenvolve-se a crença de que o Brasil teria sido escolhido de maneira singular para cumprir, sob uma suposta hegemonia evangélica, um papel especial e exclusivo na história.
A leitura de textos sagrados através de lentes nacionalistas já produziu, ao longo dos séculos, consequências trágicas. Diversas nações que se autocompreendiam como cristãs cometeram graves atrocidades em nome de Deus. Um exemplo relativamente recente é o da Sérvia.
Ali, muitos dos que se identificavam como sendo vinculados à Igreja Ortodoxa (que por sua vez era fortemente associada ao Estado), convencidos do senhorio de Deus sobre o país, se envolveram em uma guerra violenta contra aqueles percebidos como ameaça aos supostos valores cristãos da nação sérvia. Fenômenos semelhantes também ocorreram na Espanha sob o regime de Franco e na Itália durante o governo de Mussolini, ambos países marcados por forte tradição católica.
Isso não significa afirmar que os cristãos sejam chamados a uma fé privada, irrelevante ou desconectada da vida pública. Ao contrário, segundo a própria tradição cristã, os fiéis são convocados a viver de modo que sua existência tenha impacto em todas as esferas da sociedade, exercendo influência real e transformadora.
Ainda assim, influenciar não é o mesmo que dominar. À semelhança de Jesus, que lavou os pés de seus discípulos e se fez servo de todos, a forma como o cristão exerce influência deve ser marcada pelo serviço, não pela busca de poder.
Em tempos de crescente polarização entre religião e política, o discernimento sobre esses limites se torna cada vez mais necessário. Creio que estamos sendo chamados a retornar a uma leitura das Escrituras que forme o caráter antes de legitimar projetos. A fidelidade ao evangelho não se expressa na imposição de valores, mas no testemunho de uma vida moldada pelo senhorio de Cristo. Quando a Igreja compreende que sua missão é servir, e não dominar, ela se torna sinal do Reino de Deus no mundo. Não por coerção, mas por amor, verdade e graça.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (AT 20.35)
A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Fé Cristã e Ação Política, Pedro Lucas Dulci
» De Quem é a Terra Santa?, Colin Chapman
» Estado laico e evangélicos na política brasileira: controvérsias atuais em perspectiva, por Paul Freston
Meses atrás, durante uma sessão extraordinária da Câmara dos Deputados, em Brasília, a deputada federal Carla Dickson (União/RN) encerrou sua intervenção declarando de forma enfática: “Viva o Brasil! Viva Israel!”. Em seguida, com a mesma ênfase, citou o Salmo 33.12, que afirma ser “Bendita a nação cujo Deus é o Senhor”. Ao longo da mesma sessão, palavras e expressões de cunho religioso, majoritariamente associadas ao cristianismo, foram mencionadas mais de 70 vezes pelos deputados presentes.
O episódio, para além da “cristianização” do discurso político, aponta para uma tendência crescente em alguns setores evangélicos: a interpretação de passagens bíblicas como o Salmo 33, dirigidas ao antigo Israel, como se fossem diretamente aplicáveis ao Brasil contemporâneo.
Essa leitura, frequentemente filtrada por lentes nacionalistas, tem levado certos setores evangélicos à defesa de que é papel do Estado impor valores cristãos mesmo àqueles que não se identificam com o cristianismo, como se isso equivalesse à submissão da nação a Deus. Estabelece-se, assim, uma lógica de confronto na qual o Brasil, para ser abençoado por Deus, precisaria adotar o cristianismo evangélico como crença quase oficial. Não por acaso, ganhou força nos últimos anos o bordão "o país é laico, mas o governo não".O senhorio de Deus é, obviamente, um conceito bem estabelecido nas Escrituras, que afirmam repetidas vezes que ele, e não nós, detém o domínio sobre todos os povos e nações. Contudo, no Salmo em questão, não há qualquer indicação de que Deus esteja delegando aos fiéis a missão de, em seu nome, tomar um país por assalto para que ele possa exercer o seu senhorio. Do ponto de vista bíblico, ele já é Senhor.
O que o Salmo está afirmando é que a nação de Israel era bem-aventurada porque Jeová (que é o termo literal no original e que é traduzido em nossas Bíblias como Senhor) é o Deus deles. Ele a havia escolhido para ser sua. Isso se torna evidente na segunda parte do versículo, que declara que Israel é “o povo que ele escolheu para a sua herança”.

Diante disso, surge uma questão inevitável: se no Antigo Testamento era Israel, quem seria hoje esse povo descrito como bem-aventurado? Para aqueles que leem o Antigo Testamento à luz do Novo, a resposta é clara: não se trata do Brasil nem de Israel. O povo em questão é composto por cristãos espalhados entre todas as nações, descritos nas Escrituras como nação santa, povo escolhido e reino sacerdotal. Não um país, um estado-nação específico ou instituição, mas judeus e não judeus, de diferentes tradições cristãs, unidos pela convicção de que Jesus Cristo, e não César, é o Senhor.
A prática de interpretar textos originalmente dirigidos ao povo de Israel como se estivessem falando diretamente ao estado-nação brasileiro conduz, gradualmente, ao que os estudiosos chamam de nacionalismo cristão, que emerge fortemente também nos EUA. Nesse processo, desenvolve-se a crença de que o Brasil teria sido escolhido de maneira singular para cumprir, sob uma suposta hegemonia evangélica, um papel especial e exclusivo na história.
A leitura de textos sagrados através de lentes nacionalistas já produziu, ao longo dos séculos, consequências trágicas. Diversas nações que se autocompreendiam como cristãs cometeram graves atrocidades em nome de Deus. Um exemplo relativamente recente é o da Sérvia.
Ali, muitos dos que se identificavam como sendo vinculados à Igreja Ortodoxa (que por sua vez era fortemente associada ao Estado), convencidos do senhorio de Deus sobre o país, se envolveram em uma guerra violenta contra aqueles percebidos como ameaça aos supostos valores cristãos da nação sérvia. Fenômenos semelhantes também ocorreram na Espanha sob o regime de Franco e na Itália durante o governo de Mussolini, ambos países marcados por forte tradição católica.Isso não significa afirmar que os cristãos sejam chamados a uma fé privada, irrelevante ou desconectada da vida pública. Ao contrário, segundo a própria tradição cristã, os fiéis são convocados a viver de modo que sua existência tenha impacto em todas as esferas da sociedade, exercendo influência real e transformadora.
Ainda assim, influenciar não é o mesmo que dominar. À semelhança de Jesus, que lavou os pés de seus discípulos e se fez servo de todos, a forma como o cristão exerce influência deve ser marcada pelo serviço, não pela busca de poder.
Em tempos de crescente polarização entre religião e política, o discernimento sobre esses limites se torna cada vez mais necessário. Creio que estamos sendo chamados a retornar a uma leitura das Escrituras que forme o caráter antes de legitimar projetos. A fidelidade ao evangelho não se expressa na imposição de valores, mas no testemunho de uma vida moldada pelo senhorio de Cristo. Quando a Igreja compreende que sua missão é servir, e não dominar, ela se torna sinal do Reino de Deus no mundo. Não por coerção, mas por amor, verdade e graça.
- Publicado originalmente pelo jornal Folha de São Paulo, em fevereiro de 2026.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (AT 20.35)A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Fé Cristã e Ação Política, Pedro Lucas Dulci
» De Quem é a Terra Santa?, Colin Chapman
» Estado laico e evangélicos na política brasileira: controvérsias atuais em perspectiva, por Paul Freston
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