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Por Escrito

Hannah More: uma mulher de extraordinária convicção

Por Marcelle Vieira Salles e Isabella Passos

Há um princípio que reivindica que homens e mulheres se orientem por Cristo, para que possam como um espelho exibir os frutos do Espírito Santo, de modo a ter uma vida bem-aventurada e abençoar ativamente familiares, igrejas e mundo. Essas pessoas, exemplos para as demais, demonstram pela historiografia cristã uma ampla variedade de formas de favorecimento ao outro, que independe das condições e do momento histórico no qual estão inseridos. Bons exemplos são registros recorrentes na Bíblia, tendo assumido em Paulo o imperativo mais famoso: “sede meus imitadores, como eu também sou de Cristo” (1 Co. 11:1).

Mas por que os exemplos seriam importantes a cada um de nós? Em uma cultura que se mostra avessa à memória e à reputação, por que deveríamos zelar intencionalmente pelos bons exemplos? Primeiro, porque as experiências dão forma e conteúdo à valores e virtudes que de outra maneira nos pareceriam ideias abstratas e distantes. Porque, igualmente, fornecem um paradigma real e honesto de uma vida autêntica à de Cristo. Porque nos fazem lembrar os fundamentos e as motivações para uma vida de serviço, além de auxiliarem na distinção do caráter cristão das razões e atos no mundo. Por fim, nos concedem uma perspectiva de eternidade que nos guarda da efemeridade do próprio tempo. Os exemplos de irmãos na fé são presentes de Deus ao mundo e a cada um de nós. Crédulos ou incrédulos.

Um belo exemplo nos vem do Reino Unido do século XVIII. Hannah More (1745-1833), no Brasil menos conhecida que os seus amigos John Wesley e William Wilberforce, foi uma escritora, dramaturga e reformadora social reconhecida sobretudo por suas obras literárias de cunho moral, político e religioso. Junto a John Newton, foi responsável por convencer William Wilberforce a entrar para causa antiescravagista[1] [2]. É da autoria de Hannah More o manifesto em forma de poesia, proferido por Wilberforce no parlamento inglês, que deu início a campanha parlamentar contra o tráfico de escravos. Seu poema mais famoso, intitulado Escravidão, narra a dor da injustiça sofrida por pessoas que, pela condição racial, eram acorrentadas a um estado de grande desonra e violência[3] e foi publicado pela primeira vez por John Wesley no Arminian Magazine ainda nos anos de 1788.

O comprometimento de Hannah More tornou-se um marco notável no período em que vivia, especialmente entre as mulheres. A Era Georgiana ficou caracterizada pelo subperíodo da Regência que destinava às mulheres a exclusiva tarefa da presença no lar, não havendo estímulo aos estudos, com exceção de alguns segmentos. Inserida neste contexto, More acreditava que as mulheres poderiam influenciar de modo particular a sociedade, começando por suas famílias e comunidade, ao usarem a educação como o meio de formação de pessoas moralmente mais consistentes. Para isso, Hannah criou clubes onde as mulheres pudessem, através da mútua cooperação, desenvolver autoconfiança, aprender administração financeira, além de contarem com auxílios em caso de vulnerabilidade social. As defesas de educação para mulheres em Hannah More aparecem ainda antes da também inglesa Mary Wollstonecraft.

Esse trabalho filantrópico ganhou ampla projeção depois que Hannah More investiu toda a sua herança na impressão de pequenos tratados literários para os cidadãos de baixa renda. A pesquisadora Mitzi Mayers escreve que o impacto dos escritos de Hannah More foi tão grande que se sobrepôs aos materiais de espírito revolucionário que vinham da França através do grupo no qual participava Mary Wollstonecraft[4]. Mayers explica que More alcançou sucesso, sobretudo, por reinterpretar a cultura da domesticidade em termos de responsabilidade social defendendo questões políticas como questões de ordem moral e religiosa devendo ser enfrentadas pelas mulheres às suas próprias maneiras, diferentemente das noções despersonalizadas que começavam a ganhar projeção através dos novos modelos de governança pública. Nesse espírito, os tratados de More versavam sobre cultura, moralidade, política, educação e vida cristã fornecendo instruções práticas de fácil compreensão aos mais necessitados. Ao todo foram produzidas mais de duzentas versões da coleção que ficou conhecida como Cheap Repository Tracts, tendo se tornado tão bem-sucedidas que foram reproduzidos mais de dois milhões de cópias somente no primeiro ano de publicação[5].

Nesse período, Hannah More, já havia consolidado sua presença no circuito da elite literária de Londres, tendo se tornado próxima de personalidades como Elizabeth Montagu, Samuel Jahnson, Elizabeth Carter, Frances Reynolds e Fanny Burney. Nesse meio, juntou-se a outras duas amigas formando o grupo The Bluestocking Society, formado por mulheres que se reuniam em prol da disseminação intelectual e cooperação mútua entre mulheres e homens na vida pública. O grupo foi responsável por uma forte crítica ao espírito revolucionário francês que começava a alcançar a intelectualidade britânica, tendo Marc Baer registrado em seu livro que “pode-se argumentar que ninguém desempenhou um papel mais importante na prevenção da revolução no final do século XVIII e início do século XIX do que Hannah More”[6]. O êxito do grupo se tornou tão expressivo que atraiu tanto o engajamento de outras mulheres quanto de homens que passaram a contribuir com o seu propósito reformista. Há registros de que Edmund Burke foi um dos seus membros e que Adam Smith frequentava assiduamente as reuniões.

Tudo isso foi possível porque Hannah More considerava a filantropia e o serviço social, como atividade divina e racional ao invés de impulsiva e emocional como julgava apresentar-se entre os ativistas da Revolução Francesa. Dizia ela, pela efervescência daqueles dias, que “a sensibilidade não é boa, nem má em si mesma, mas em sua aplicação. Sob a influência do princípio cristão, ela faz santos e mártires; mal direcionada ou descontrolada, é uma armadilha e fonte de toda tentação”. Também dizia que "se a fé não produz obras, vejo que a fé não é uma árvore viva. Assim, a fé e as obras crescem juntas. Não há vida separada que elas nunca possam conhecer. Elas são alma e corpo, mão e coração. O que Deus uniu, não separe o homem"[7]. Hannah More faleceu aos 88 anos de idade e conseguiu contemplar em vida, juntamente com seu amigo Wilberforce, negros e negras irromperem seus gritos de liberdade. Ambos morreram no mesmo ano nos oferecendo pungentes modelos de formação espiritual, discernimento vocacional e apego ao mandato cultural pertencente a cada cristão no mundo.

• Marcelle Vieira Salles é casada com Roberto e mãe de Elisa. Mora em Belo Horizonte e congrega na Igreja Esperança, onde auxilia no Ministério das Mulheres. Integra o corpo editorial da Revista LiterAusten, periódico dedicado aos estudos, pesquisas e ensaios referentes ao legado da escritora Jane Austen.

• Isabella Passos é formada em Filosofia pela PUC-Minas. Mora em Belo Horizonte e congrega na Igreja Esperança.

Referências
[1] John Newton foi traficante de escravos tendo posteriormente se convertido e se tornado pastor anglicano. É autor da canção Amazing Grace ("Graça Maravilhosa"). É dele o conselho a Hannah More: “você tem grandes dons; agora creia no doador dos dons e faça o trabalho desse justo juiz na esfera pública”.
[2] William Wilberforce: um modelo de vida pública.
Aqui.
[3] Poema Escravidão.
Aqui.
[4] ELLIOTT, Dorice Williams Elliott. The care of the poor is her profession: Hannah more and women"s philanthropic work, Nineteenth-Century Contexts: An Interdisciplinary Journal, 19:2, 179-204, 2008. Mary Wollstonecraft junto com Olympe de Gouges são tidas como inauguradores do movimento feminista tal qual o conhecemos hoje.
[5] Cheap Repository Tracts.
Aqui.
[6] MARC, Baer. Mere Believers: How Eight Faithful Lives Changed the Course of History. Eugene: Cascade Books, 2013.
[7] Hannah More (1803). “The Works of Hannah More, in Four Volumes: Including Several Pieces Never Before Published, p.75.


Imagem: Portraits in the Characters of the Muses in the Temple of Apolloby Richard Samuel. © National Portrait Gallery, London. 
A pintura de Richard Samuel celebra as nove mulheres mais influentes da Grã-Bretanha do séc. XVIII entre artistas e intelectuais. Em estilo clássico, apresentadas como musas de um moderno Templo de Apolo, estão retratadas Ana Letitia Barbauld, poeta, Elizabeth Carter, escritora, Elizabeth Griffith, dramaturga, Angelica Kauffmann, pintora, Charlotte Lennox, escritora, Catharine Macaulay, historiadora, Elizabeth Montagu, escritora, Hannah More, escritora e dramaturga, Elizabeth Ann Sheridan, cantora. Hannah More é a que está de pé com um cálice na mão.

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