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Opinião

Fé e ciência de mãos dadas: entrevista com Denis R. Alexander

Por Marília de Camargo César

A interpretação literal dos primeiros capítulos do Gênesis, que tratam da criação da Terra, dos planetas e seres vivos em sete dias de 24 horas, é uma corrente de pensamento mais ligada ao período moderno e do Iluminismo do que às “trevas” medievais ou aos primórdios do cristianismo. A polêmica fala de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, divulgada nas redes sociais neste mês — “Nós [evangélicos] perdemos um espaço na ciência quando deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas” — retomou uma discussão antiga, que insiste em contrapor ciência e literatura bíblica, quando, na verdade, os dois campos podem ser complementares. 
 
Esta é a visão do neurocientista Denis R. Alexander, autor de Criação ou Evolução: Precisamos Escolher? (trad.: Elido Carvalho Jr., Editora Ultimato), diretor emérito do Instituto Faraday de Ciência e Religião do St. Edmund’s College, Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Alexander dirigiu por muitos anos o Programa de Imunologia Molecular do Instituto Babraham, em Cambridge, e é uma voz respeitada entre os cientistas que dialogam com as religiões — ele é protestante. 
 
Nesta entrevista, ele diz que a Bíblia é um livro de “profundas verdades teológicas” e não um tratado científico. “A compreensão literal da Bíblia cresceu paralelamente ao modernismo, a ideia de que a mais alta forma de conhecimento é o conhecimento científico”, diz. 
 
Alexander defende em seu livro o diálogo entre os dois relatos, o teológico e o científico, e fala ainda sobre Adão e Eva e design inteligente. A seguir, trechos da entrevista. 

Valor: Muitos cristãos ainda dizem acreditar em uma interpretação literal dos primeiros capítulos de Gênesis. Mas o senhor escreve em seu livro que a interpretação figurativa do livro foi dominante por pelo menos 14 séculos. Quais foram as principais razões para essa mudança de perspectiva? 

Denis Alexander:
Algumas das razões são discutidas em detalhes fascinantes no livro do historiador Ronald L. Numbers, intitulado “The Creationists” [Harvard University Press], que descreve como o criacionismo veio para a América. Uma delas é que houve uma grande reação nos EUA contra a teologia liberal alemã que invadia os seminários teológicos americanos durante as últimas décadas do século XIX. Isso deu origem a uma série de 90 ensaios publicados pelo Instituto Bíblico de Los Angeles, conhecidos como “Os Fundamentos” no período de 1910-15, que mais tarde contribuíram para o surgimento do termo “fundamentalismo”. Muitos desses ensaios estavam comprometidos com uma compreensão mais literal do texto bíblico, pois um entendimento menos literal era rotulado de “liberal”. 
 
Valor: Quais são as consequências dessas leituras? 

Alexander:
O movimento fundamentalista acabou levando à publicação de outro livro, chamado “The Genesis Flood” [1961], escrito por Henry Morris e John Whitcomb, que realmente marca o nascimento do movimento moderno conhecido como Criacionismo da Terra Jovem [Young Earth Creationist, ou YEC] nos EUA. O YEC é um movimento moderno. Uma característica marcante desse livro é a maneira como ele trata os primeiros capítulos do Gênesis como um manual científico. Henry Morris era engenheiro hidráulico e tinha uma alta consideração pela ciência. Em sua visão, a Bíblia realmente continha ciência inspirada por Deus. De muitas maneiras, a compreensão literal da Bíblia cresceu em paralelo com o modernismo, a ideia de que a mais alta forma de conhecimento é o conhecimento científico. Se o modernismo é verdadeiro, então claramente as Escrituras inspiradas devem conter ciência. Exatamente o mesmo pensamento é atualmente popular entre muitos muçulmanos, que pensam que o Alcorão contém ciência moderna. 
 
Valor: Qual é a sua opinião sobre isso? 

Alexander:
A Bíblia não contém nenhuma literatura científica moderna. Ela foi escrita, em sua forma final pelo menos, cerca de 2 mil anos antes do surgimento da ciência moderna, a partir do século XVII. E não há nada na Bíblia que fale sobre a idade da Terra. 
 
Valor: A narrativa do Gênesis pode, de alguma forma, ser conciliada com a teoria da evolução? 

Alexander:
Se alguém aceita, como eu, que a Bíblia não contém ciência moderna, então não há necessidade de buscar nenhuma conciliação, uma vez que elas tratam de questões diferentes. Por exemplo, não há nada nos primeiros capítulos de Gênesis sobre os mecanismos pelos quais os humanos modernos surgiram. No entanto, nesses profundos ensaios teológicos, há muita informação sobre o fato de que apenas um Deus cria tudo [contrapondo- se à ideia politeísta de muitos deuses criando, que predominava nas histórias das nações do antigo Oriente Próximo]. Há muita informação ali sobre o fato de que a humanidade tem um valor absoluto, já que lhe foi delegado o cuidado da terra e de suas riquezas. Há também muita informação sobre as raízes da escolha humana de seguir seu caminho, em vez de o caminho proposto por Deus. Por outro lado, a evolução é uma teoria brilhante, que explica as origens de toda a diversidade biológica do planeta, incluindo os seres humanos. Mas não tem nada a dizer, ou muito pouco, sobre o propósito humano último, ou por que estamos aqui, ou como devemos responder ao amor de Deus por nós. 
 
Valor: Seriam leituras complementares, sob esse ponto de vista? 

Alexander:
Sim, o relato teológico da humanidade fornecido pela Bíblia e a explicação biológica fornecida pela evolução fornecem narrativas complementares que abordam questões diferentes. Precisamos de ambas para fazer justiça a essa realidade complexa que chamamos de “vida”. 



Valor: Quais são as descobertas científicas mais recentes sobre a origem do universo que poderiam, em algum aspecto, trazer luz ou ser iluminadas pela narrativa bíblica? 

Alexander:
É difícil saber quais descobertas científicas podem fazer alguma diferença na compreensão da Bíblia. Até o trabalho do padre e matemático George LeMaitre, acreditava- se que o universo permaneceu em existência por um processo de decadência e criação contínua. Em 1931, LeMaitre publicou seu ensaio inovador, “The Primeval Atom”, que é agora o que chamamos de “Big Bang”, mostrando matematicamente que o universo deve ter tido um começo. Essa foi uma ideia revolucionária na época. 
 
Valor: Qual foi a reação na comunidade religiosa? 

Alexander: O papa Pio XI queria usar a descoberta de Lemaitre para demonstrar a verdade de Gênesis 1: 1, que diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Mas Lemaitre escreveu notoriamente uma carta a ele dizendo que isso não era sábio, porque não se deve dar significados científicos para textos bíblicos escritos milhares de anos antes de a ciência moderna vir a existir. 
 
Valor: Quem, na sua opinião, fez as melhores leituras teológicas, antes de Darwin, das descrições de Gênesis 1-2? 

Alexander:
De longe, o mais conhecido dos comentários sobre Gênesis são os de [Santo] Agostinho, intitulados “A Gênese da Interpretação Literal”, escrita entre 401 e 415, e a de João Calvino, publicada em 1554 d.C. O leitor do século XXI que lê o comentário de Agostinho leva um susto, pois por “literal” ele, na verdade, queria dizer “literário”. Agostinho interpretou o texto de Gênesis de maneira muito figurada e certamente não viu os “dias” de Gênesis 1 como cronológicos, mas que expressavam verdades teológicas mais profundas. Todos os primeiros pais da igreja interpretaram o Gênesis de maneira figurada. 
 
Valor: Quais foram os cientistas mais significativos que contribuíram para o diálogo entre fé e ciência? 

Alexander:
Durante o surgimento da ciência moderna nos séculos XVI e XVII, a chamada revolução científica, havia centenas de filósofos naturais, como os cientistas foram então chamados, que escreveram de maneira positiva sobre como sua fé inspirara sua ciência. Os mais famosos entre eles eram pessoas como Isaac Newton, Galileu, Robert Boyle, Blaise Pascal e muitos outros. Mais tarde, vieram cristãos fortemente comprometidos no século XIX, como James Clerk Maxwell e Michael Faraday, que fizeram muito para lançar as bases da física moderna. 
 
Valor: Quais são hoje as principais linhas de pensamento que conseguem conciliar fé e ciência? O senhor poderia dar alguns exemplos? 
 
Alexander: Fé e ciência permanecem fortes parceiros hoje, desde que se considere que eles abordam diferentes questões e preocupações humanas. A filosofia conhecida como "cientificismo" afirma que a ciência fornece a única forma confiável de conhecimento. Mas, na realidade, existem muitas formas de conhecimento e nós as praticamos todas em nossas vidas diárias. 
 
Valor: Como percebe o diálogo entre essas duas vertentes nas universidades? 

Alexander:
No ano passado participei de um debate na União de Debates de Oxford com 750 alunos presentes. A moção que eu defendia era “Esta casa propõe que a ciência nunca terá as respostas para as maiores questões da vida”. Havia três de nós defendendo essa ideia, incluindo um cientista ateu da China. Nós ganhamos o debate facilmente porque a proposição é obviamente verdadeira. Como a ciência moderna vai me mostrar o propósito final de minha vida? Como a ciência vai nos mostrar se devemos modificar os embriões humanos usando a edição genética? Como a ciência vai demonstrar que sistema político eu deveria ter em meu país? Existe um Deus? E assim por diante. Existem muitas formas de conhecimento no mundo complexo em que vivemos e é arrogante para alguns cientistas afirmar que a ciência tem todas as respostas. Não tem.    
 
Nota: Entrevista publicada originalmente no jornal Valor, em 25 de janeiro de 2019. Reproduzida com autorização.

• Marilia de Camargo Cesar é jornalista e escritora. Trabalha no Valor Econômico como editora-assistente.

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