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Opinião

Cultura, culto e cultivo: como o sagrado molda a maneira como habitamos o mundo

Não somos definidos primariamente pelo que pensamos, mas pelo que amamos

Por Medson Barreto

Desde as sociedades antigas até o mundo contemporâneo, o ser humano organiza sua vida em torno daquilo que considera sagrado. Em outras palavras: toda cultura constrói práticas, narrativas e símbolos que revelam aquilo que considera último.

Justo L. González afirma que “em toda cultura dois elementos andam juntos: as técnicas para dirigir o mundo – o cultivo – e o modo como se entende esse mundo – o culto”1. Não por acaso, nas línguas latinas, as palavras cultura, culto e cultivo compartilham a mesma raiz. O ser humano cultiva a terra, desenvolve técnicas e constrói cidades; ao mesmo tempo, responde às perguntas últimas da existência e orienta simbolicamente sua relação com o mundo.

Desde cedo, essa tentativa de dar sentido ao mundo se expressa naquilo que chamamos de “mito”. André Reinke observa que “as pessoas de uma cultura observam o ambiente em que vivem e passam a se perguntar como seu mundo surgiu, de onde veio, e assim por diante. Nesse processo, desenvolvem explicações, resultando no que se convencionou chamar de mito”2. Essas explicações míticas, afirma o autor, “desembocam em um culto”, pois o culto é a resposta humana diante do sagrado.

Mas o que é, afinal, o sagrado?

A experiência do sagrado

Rudolf Otto descreveu o sagrado como uma realidade que ultrapassa a razão e envolve o ser humano em uma experiência de fascínio e temor — um mistério tremendo e fascinante3. Mircea Eliade, por sua vez, afirmou que “o sagrado é aquilo que se opõe ao profano”, não no sentido de algo maldito, mas como aquilo que rompe com o cotidiano comum. O sagrado irrompe como hierofania: a manifestação do “Totalmente Outro” em elementos comuns da realidade4.

As Escrituras registram esse tipo de experiência repetidas vezes. Ao despertar do sonho da escada, Jacó declara: “Na verdade o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28). O chão comum se torna “porta dos céus”. O mesmo acontece com Moisés diante da sarça ardente: o deserto permanece o mesmo, mas o lugar passa a ser sagrado porque Deus ali se revela (Êxodo 3). Em ambos os casos, não é o espaço em si que possui algo especial, mas o encontro com o sagrado que reorganiza a percepção da realidade.

A partir daí, o espaço deixa de ser neutro e passa a possuir centro e referência; o tempo deixa de ser apenas uma sequência de dias e passa a ter ritmo; a ética deixa de ser convenção arbitrária e passa a ter fundamento transcendente. O sagrado cria mapas simbólicos que orientam a existência humana, dizendo onde o ser humano está, quem ele é e para onde caminha. Em suma, o sagrado não é apenas algo que se crê, mas algo que estrutura a vida.

O sagrado organizando a vida
Isso se torna visível quando observamos as culturas antigas. Na Mesopotâmia, o zigurate ocupava o centro da cidade como uma escada entre céu e terra, e o espaço urbano era organizado em torno do culto. O mesmo ocorreu, por séculos, nas cidades cristãs, cujas praças centrais eram marcadas por igrejas e catedrais. O desenho da cidade revelava aquilo que era amado e adorado5.

O tempo também era organizado religiosamente. Na Babilônia, a festa do Akîtu celebrava o mito da criação e a renovação da ordem cósmica: o mundo precisava ser ritualmente restaurado. Algo semelhante acontece até hoje nas celebrações de Ano Novo, marcadas por símbolos de recomeço, promessas e a esperança de que o caos seja contido e a vida reorganizada6.

A moralidade segue a mesma lógica. No Egito antigo, o destino do morto dependia do julgamento de seu coração diante da pena da verdade (maat), apontando para o paraíso (Amenti) ou para o submundo do caos (Duat). Entre os guaranis, distinguia-se o teko porã, o bem viver em harmonia, do teko marã, a ruptura dessa ordem e fonte de desequilíbrio7.

Narrativa de origem, ética, esperança escatológica e expectativa de restauração reaparecem, com variações, em praticamente todas as culturas. Isso revela algo fundamental: o ser humano é, por natureza, religioso, e a forma como percebe o sagrado molda a maneira como habita o mundo.



O sagrado no mundo contemporâneo

Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o mundo atual não é menos religioso; ele apenas reorganizou seus altares. Tim Keller observa que “cada cultura é dominada por um conjunto próprio de ídolos. Cada uma tem seu ‘sacerdócio’, seus totens e rituais. Cada uma tem seus santuários – sejam torres de escritórios, sejam spas e academias de ginásticas, sejam estúdios, sejam estádios – onde sacrifícios devem ser oferecidos com o intuito de alcançar as bênçãos de uma boa vida e evitar desastres”8.

Esses ídolos raramente se apresentam como deuses explícitos, mas assumem a forma de ideais socialmente valorizados, como beleza, poder, dinheiro, realização pessoal, romance e sexo. O que muda não é a lógica da adoração, mas o objeto adorado.

James K. A. Smith aprofunda essa análise ao afirmar que o ser humano é, antes de tudo, um ser desejante. Não somos definidos primariamente pelo que pensamos, mas pelo que amamos. Por isso, ele nos descreve como homo liturgicus: criaturas formadas por práticas e rituais que moldam nossos desejos antes mesmo de moldarem nossas ideias. Instituições culturais funcionam, assim, como liturgias seculares – verdadeiras pedagogias do desejo que educam o coração para amar determinados fins9.

O que Keller e Smith estão descrevendo, em última instância, é uma disputa pelo coração humano.

Para Smith, o shopping não é apenas um espaço de consumo, mas um templo contemporâneo. Sua arquitetura evoca transcendência, o tempo parece suspenso, as vitrines funcionam como ícones de uma vida ideal e há um calendário litúrgico próprio. A liturgia do consumo segue um roteiro conhecido: contemplação dos ícones (marcas), escolha do objeto (produtos), caminhada até o "altar" (caixa) e sacrifício (pagamento). “As liturgias do shopping”, escreve Smith, “instilam em nós a sensação de que há algo errado conosco”, ao mesmo tempo em que oferecem a promessa de redenção – não pelo perdão, mas pela aquisição10.

O mesmo pode ser dito do cinema, da publicidade, das redes sociais e de outras instituições culturais. Elas narram histórias, encenam visões de mundo e treinam nossa imaginação e nossos afetos para desejar certos fins. Agem primeiro no corpo, no hábito e no kardia11, antes mesmo de alcançarem o nível das ideias.

Assim, mesmo quando se declara secular, nossa sociedade continua profundamente religiosa. As liturgias seculares apenas deslocaram o lugar do sagrado.

O fator Melquisedeque e o desejo humano
Essa constatação nos aproxima de uma reflexão clássica da teologia cristã. João Calvino afirmava que existe no ser humano um sensus divinitatis, uma percepção inata da divindade. Isso não significa conhecimento pleno de Deus, mas indica que ninguém é totalmente ignorante de sua existência. Mesmo a idolatria, portanto, testemunha de forma distorcida que fomos feitos para adorar.

É nesse contexto que o chamado “fator Melquisedeque” se torna elucidativo. No encontro entre Abraão e Melquisedeque, dois homens de tradições distintas reconhecem estar se referindo ao mesmo Deus. Abraão adora Shaddai; Melquisedeque, El Elyon. O reconhecimento não se dá por um sistema teológico comum, mas por uma convergência no entendimento do sagrado.

Don Richardson interpreta esse episódio como um encontro entre revelação especial e revelação geral. Deus não esteve ausente das culturas: vestígios do sagrado, expectativas fragmentadas e desejos reais atravessam a história humana12.

Algo semelhante ocorre no Novo Testamento. Ao escrever para uma comunidade grega, João recorre ao conceito de Logos. A filosofia havia intuído um princípio ordenador da realidade; João anuncia que esse Logos criou o mundo e, de modo ainda mais radical, “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). O que era intuição fragmentada recebe resposta concreta13.

Isso tem implicações diretas para nossa relação com a cultura. As buscas contemporâneas por sentido, identidade e plenitude – ainda que confusas ou mal direcionadas – não devem ser apenas rejeitadas, mas interpretadas. Elas revelam desejos reais por transcendência, pertencimento e restauração.

Como observa André Reinke, citando C.S. Lewis, os mitos antigos eram ecos de uma verdade maior. Em Cristo, o mito torna-se história. A busca humana pelo sagrado encontra sua resposta. Jesus é “resumo e realidade de todas as religiões e filosofias, o cumprimento profético não apenas da Bíblia, mas de toda a expectativa do sagrado, da revelação geral nas culturas humanas e na revelação especial que a Bíblia nos trouxe”14.

Onde, afinal, mora o sagrado?

Se Cristo é o cumprimento da busca humana pelo sagrado, onde ele mora? A resposta cristã é surpreendente: o sagrado não se limita a lugares, objetos ou ritos isolados. Ele se manifesta naquilo que nos forma, orienta nossos amores e educa nossos desejos. Mais do que isso, a fé cristã afirma que, em Cristo, o sagrado invade o cotidiano, santifica o ordinário e redime a matéria.

Toda liturgia, seja religiosa ou cultural, aponta para um fim último, um telos. Toda prática carrega uma visão implícita de boa vida e toda repetição forma certo tipo de pessoa.

O problema, portanto, não é apenas adorar algo errado, mas ser treinado a desejar o reino errado. As liturgias culturais não são neutras: elas moldam o coração e a imaginação antes mesmo que percebamos. Por isso, a fé cristã não pode ser reduzida a ideias corretas ou convicções intelectuais. Como insiste James K. A. Smith, o evangelho não apenas nos informa; ele nos reforma, reorientando nossos amores.

Se as liturgias culturais treinam o coração para desejar o que prometem — sucesso, beleza, poder, consumo – a adoração cristã precisa funcionar como contraformação, isto é, como um processo que resiste e corrige as formações culturais dominantes. A resposta não está apenas em argumentos melhores ou sermões mais convincentes, mas em práticas que reeduquem o desejo.

É por isso que disciplinas como oração, leitura da Palavra, jejum, comunhão e os sacramentos não são opcionais. São práticas de formação do amor: treinam o coração, educam a imaginação e nos ensinam, no corpo e não apenas na mente, o que significa viver segundo a ordem do amor divino.

Onde mora o sagrado, então? Mora naquilo que, dia após dia, nos ensina a amar algo como último: nos ritmos que seguimos, nos espaços que frequentamos, nas histórias que nos comovem, nos gestos que repetimos sem perceber.

A pergunta final, portanto, não é apenas no que cremos, mas o que está formando o nosso coração. Quais liturgias estão educando nossos desejos? Onde estamos sendo treinados a buscar o reino?

Se trouxéssemos o apóstolo Paulo para nossa cidade, ele caminharia por nossas ruas, observaria vitrines, outdoors e construções, e procuraria por nossos “altares ao deus desconhecido” (At 17.23). Não para desprezar essas buscas, mas para compreendê-las à luz do evangelho, pois mesmo desejos mal direcionados revelam a sede humana por Deus.

A fé cristã nos convida, assim, a olhar com atenção para esses altares culturais e a anunciar o Deus que se fez conhecido – não como abstração distante, mas como presença encarnada que habita o comum e o transforma.

Não precisamos de uma espiritualidade que fuja da matéria, mas de uma que a santifique; não de uma fé que negue a cultura, mas de uma que a redima.

  • Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Vitral Podcast.

Para conhecer mais sobre o tema, recomendamos a palestra “Onde mora o sagrado”, ministrada por Medson Barreto no Vitral na Cidade, em dezembro de 2024. Acesse: https://youtu.be/sgbYJJgsbfA

Notas
1. GONZÁLEZ, Justo L. Cultura e evangelho. São Paulo: Hagnos, 2011. p. 46.
2. REINKE, André. Os outros da Bíblia. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2019. cap. 1.
3. OTTO, Rudolf. O sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007. p. 97–98. Citado em: REINKE, André. Os outros da Bíblia. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2019. cap. 1.
4. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 17. Citado em: REINKE, André. Os outros da Bíblia. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2019. cap. 1.
5. REINKE, André. Os outros da Bíblia, op. cit., cap. 2.
6. REINKE, André. Ibid., cap. 2.
7. REINKE, André. Ibid., cap. 3.
8. KELLER, Timothy. Deuses falsos. São Paulo: Vida Nova, 2018. Introdução.
9. SMITH, James K. A. Desejando o reino: o culto, a cosmovisão e a formação cultural. São Paulo: Vida Nova, 2019. cap. 5.
10. SMITH, James K. A. Ibid., cap. 3.
11. SMITH, James K. A. Ibid., cap. 3.
12. RICHARDSON, Don. O fator Melquisedeque: o testemunho de Deus nas culturas através do mundo. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 24–25.
13. REINKE, André. Os outros da Bíblia, op. cit., cap. 4.
14. REINKE, André. Ibid., cap. 6.
15. REINKE, André. Ibid., Conclusão.


Imagem: Unsplash.
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