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Opinião

Os cristãos e a democracia em tempos turbulentos

Série Democracia e Fé Cristã
Por Paul Freston

Artigo publicado na Ultimato 370, março/abril de 2018.

Os cristãos sabem que a universalidade do pecado é uma das grandes justificativas da democracia. Logo, não se deixam consumir pelo ódio político, mas devem ser exemplo de uma comunidade não unida politicamente, mas unida no tratamento cristão das diferenças políticas.

Tudo indica que a crise brasileira se arrastará ainda por um bom tempo. Embora a dimensão macroeconômica possa melhorar, as dimensões políticas e sociais não estão, por enquanto, promissoras. Na pior das hipóteses, as divisões podem aprofundar-se ainda mais no processo eleitoral deste ano, colocando em perigo a legitimidade das instituições vitais à democracia.

Diante disso, dois grandes desafios se apresentam aos cristãos, sobretudo aos de confissão evangélica. O primeiro desafio é “para fora”: como comportar-se como cidadãos de um país em crise econômica e política, e cada vez mais pluralista em termos sociais e comportamentais. O segundo desafio é “para dentro”: como comportar-se como membros de uma comunidade religiosa já muito numerosa e bastante diversa em termos sociais, econômicos e políticos. Dois desafios que, no final, se resumem em um só: como compreender e viver a dimensão pública do discipulado cristão no espírito de Cristo.

“Para fora”: o desafio das incertezas

Comecemos pelo primeiro desafio, “para fora”. Multiplicam-se as análises evangélicas que falam dos dias atuais como acentuadamente de “incerteza” e, portanto, excepcionalmente desafiadores para os cristãos. Não devemos pensar assim. O normal são tempos de “incerteza”, isto é, de pluralismo social de valores e de estilos de vida. Só não é assim sob alguma forma de autoritarismo político, seja de fundo religioso ou não. O cristianismo se expandiu, por mais de trezentos anos, por um império romano extremamente pluralista em muitos sentidos, muito mais do que o Brasil de hoje. Tal pluralismo não causou nos primeiros cristãos o saudosismo por uma época mais uniforme, nem criou demandas por um regime mais repressivo.

Nem (pelo menos, se prestaram atenção aos evangelhos) criou o destempero verbal contra os vulneráveis e marginalizados. Jesus “xingou” somente os poderosos da sua época (chamando-os de “raposas” e “sepulcros caiados”), e nunca os vulneráveis. Quanto mais vulnerável o grupo ou pessoa, maior o seu cuidado com a linguagem usada. Ilustrativo disso é o incidente da mulher adúltera (Jo 8.1-11), duplamente vulnerável por ser mulher e adúltera numa sociedade patriarcal.

Claro, naqueles tempos não havia a globalização e a internet. A liberdade de expressão é ameaçada não só pelo poder político, mas também pelas tensões sociais, as quais têm aumentado muito em um mundo “encolhido” pela migração e pela internet, em que todos os nossos “próximos” encontram mais espaço para se expressarem. Esse mundo encolhido exige de nós o uso de uma linguagem ponderada e respeitosa, evitando caricaturar o outro, mesmo (e sobretudo) na hora de criticar. Isso não é render-se ao “politicamente correto”; é reconhecer a ubiquidade do pecado e a visão bíblica do uso responsável da língua.

Uma das tentações desse mundo encolhido, para os evangélicos, é de oscilar entre o impulso autoritário e a postura de vítima perseguida. Exemplo disso (apenas o mais recente) foi o caso em que o “governo esquerdista” de Evo Morales na Bolívia teria “criminalizado a evangelização”. Na realidade, como explicou Marcelo Vargas no site da Ultimato, o novo Código Penal estava mal redigido e ambíguo (e constituía ameaça à democracia, no dizer de Vargas), mas não criminalizava a evangelização. A reação evangélica “foi fruto da desinformação, do alarmismo e sensacionalismo [...] influenciada pelos meios de comunicação e pelos partidos de oposição”. Incidentes como esse fazem muito mal à reputação da comunidade evangélica. Para a sociedade, na melhor das hipóteses indicam uma comunidade mal assessorada; na pior das hipóteses, uma comunidade autocentrada e paranoica, e até manipulada por forças políticas inescrupulosas.

O estranho disso é que os evangélicos têm toda a base teológica para ser o segmento menos vulnerável a tais desvios ou manipulações. São familiarizados com a visão bíblica da radicalidade do pecado, que afeta não apenas todos os indivíduos, mas também todos os grupos e instituições. Conhecem a visão equilibrada de renovação institucional e renovação individual que fundamenta o Pentateuco e os profetas. Sabem que a universalidade do pecado é uma das grandes justificativas da democracia; ninguém merece ter poderes ilimitados e não supervisionados sobre seus semelhantes. A fé cristã é realista: onde houver grande desigualdade, haverá opressores e oprimidos, e tenderá a aumentar a corrupção.

O realismo otimista dos cristãos

A fé cristã se caracteriza também por um “otimismo realista” na sua avaliação da possibilidade de melhorar o mundo. Nenhuma realização humana está isenta dos efeitos do pecado, mas a graça comum de Deus também está presente em todos os espaços da vida. Por isso, as instruções de Moisés ao povo recém-liberto incluíam exortações à generosidade individual, mas também mecanismos legais (como a lei do Ano do Jubileu e a lei do Ano Sabático), para impedir que a estrutura social justa cedesse ao longo do tempo a estruturas de desigualdade e opressão.

Nenhuma realização humana está isenta dos efeitos do pecado, mas a graça comum de Deus também está presente em todos os espaços da vida
 
O “realismo otimista” do cristianismo impede que, mesmo em momentos de decepção com alguns antigos portadores de determinados ideais, percamos de vista os ideais políticos incentivados pela Bíblia, tais como a justiça e a solidariedade, a priorização dos mais fracos e necessitados para diminuir a extrema desigualdade, o valor fundamental da democracia como reflexo tanto da antropologia cristã como do caráter de Deus expresso na maneira como ele trata a humanidade desde o começo e a rejeição da idolatria tanto do Estado quanto do mercado (parafraseando Marcos 2.27: “O ser humano não foi feito para o sábado/Estado/mercado, mas sim o sábado/Estado/mercado para o ser humano”). A história dá muitas voltas, e o cristão deve evitar curvar-se diante de todos os modismos políticos. Sacrificar o ser humano no altar do “deus-mercado” é tão abominável quanto sacrificá-lo no altar do “deus-Estado”.

A priorização do ser humano nos leva à questão dos direitos humanos. Os cristãos, longe de fazerem eco à narrativa secularista do desenvolvimento dos direitos humanos (ou seja, que esses nada devem à religião e, em vez disso, foram conquistados contra a oposição religiosa), deveriam apoiar a narrativa de muitos acadêmicos de que o conceito moderno de direitos humanos deve muito às religiões e, sobretudo, à herança bíblica. Deveriam, também, entender que a viabilização dos direitos humanos depende não somente de um arcabouço legal, mas também de um trabalho cultural, pelo qual o direito do outro é inculcado como o meu dever, e o meu direito, como o dever do outro.

“A dificuldade de conviver numa sociedade pluralista”

Com isso, voltamos ao nosso ponto de partida, a dificuldade de conviver numa sociedade pluralista. A liberdade de expressão é um dos direitos mais fundamentais do ser humano, sem o qual os outros direitos se tornam impossíveis ou difíceis de exercer. Sem a liberdade de expressão, não há como navegar pacificamente a extrema diversidade de experiências humanas; não há como desenvolver a boa governança; e não há como reconhecer e responder à verdade em todos os campos, inclusive o religioso. A absoluta necessidade dessa liberdade foi reconhecida muito cedo na história cristã. Por volta do ano 200, o teólogo Tertuliano inventou o próprio conceito de “liberdade religiosa”. Disse ele: “É um direito humano fundamental, um privilégio da natureza, que todo ser humano possa adorar segundo as suas próprias convicções. A religião de uma pessoa não ajuda nem prejudica outra pessoa”.

Essa convicção (lamentavelmente abandonada por boa parte do cristianismo posterior, uma vez em aliança idólatra com o Estado) é fundamental para a relação entre fé e política. Pois, para muitos críticos, o cristianismo, como, aliás, todos os monoteísmos, seria essencialmente intolerante e autoritário. Entretanto, essa abordagem essencialista é falha. O que importa não é o monoteísmo em si, nem a reivindicação de possuir uma revelação divina. O que mais importa são duas outras questões: o que uma determinada religião diz que deve ser “feito” com a descrença e os descrentes, e como concebe a relação entre descrença e os direitos sociais e políticos dos descrentes. A resposta que deram os primeiros cristãos, baseada em sua leitura do Novo Testamento (e do Antigo à luz do Novo), fundamenta até hoje a verdadeira convivência cristã em sociedades tão pluralistas quanto o antigo mundo helênico.

Um último ponto é essencial, antes de passarmos ao segundo desafio. Em matéria de política, o cristianismo se caracteriza por certo recato, um não dogmatismo, um amplo espaço livre de discordância legítima entre os cristãos fiéis. A razão básica disso são as circunstâncias do seu surgimento. O cristianismo não nasce exercendo o poder político; nasce como uma comunidade voluntária e transnacional. O Novo Testamento foi escrito para uma comunidade que não controlava território, não possuía poder político e não poderia influenciar a legislação pública. O Antigo Testamento, por outro lado, foi escrito para uma comunidade nacional que de fato lidava com as questões de território, lei, poder e força. Mas nenhum país hoje, por mais cristãos que tenha, está na situação do Israel do Antigo Testamento.

“Para dentro”: o necessário recato político

O resultado disso é certa falta de “autoconfiança” política no cristianismo, uma hesitação em dar “receitas” políticas em nome da fé. O que nos leva ao segundo desafio, “para dentro”.

O recato político próprio do cristianismo nem sempre é observado pelos cristãos, sobretudo quando estes são solicitados a colocar a sua fé a serviço de determinado interesse político. Isso pode acontecer (e de fato, já aconteceu) em todos os pontos do espectro político, mas hoje acontece mais à direita do espectro. Daí a percepção, por boa parte da sociedade brasileira, de uma subida política evangélica fortemente de direita. Essa percepção, fundamentada na atuação das “bancadas evangélicas” no Congresso, pode não corresponder exatamente à postura média dos evangélicos comuns; mas, de qualquer forma, os atuais problemas do evangelicalismo norte-americano (esvaziamento dos jovens, descontentes com uma politização vista como excessiva, estreita, autoritária e ultraconservadora) nos servem de alerta. Aprendamos, enquanto é tempo, que a sabedoria e a diversidade políticas são fundamentais para a saúde da igreja. Tenhamos a sabedoria de escolher bem as batalhas. E tenhamos a consciência da diversidade política evangélica que de fato existe, tendo o cuidado interno de não exigir uma “ortodoxia” política de toda a imensa comunidade evangélica, e a preocupação externa de esclarecer à sociedade a respeito da pluralidade política evangélica e seu compromisso com as normas democráticas.

Aprendamos, enquanto é tempo, que a sabedoria e a diversidade políticas são fundamentais para a saúde da igreja. Tenhamos a sabedoria de escolher bem as batalhas.

É importante que os cristãos não se deixem consumir pelo ódio político, mas que deem exemplo de uma comunidade não unida politicamente (o que, além de impossível, seria indesejável porque decorreria somente de uma unidade manipulada), mas unida no tratamento cristão das diferenças políticas. Lembremos as exortações bíblicas de amar a todos, mas especialmente os irmãos na fé (como João 13.34-35, em que a capacidade dos cristãos de se amarem mutuamente é o fator mais importante na sua reputação diante do mundo; e Gálatas 6.10, em que “fazer o bem” é recomendado, acima de tudo, aos que compartem da mesma fé). Pois é especialmente tentador nutrir uma antipatia para com aqueles que nos são mais próximos, mas que discordam de nós! Se os cristãos não forem capazes de viver essa ética do amor, dentro da comunidade cristã e no meio da tormenta política que nos divide, não teremos nada a contribuir à sociedade.


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Autor de "Religião e Política, sim; Igreja e Estado, não" e "Nem Monge, Nem Executivo - Jesus: um modelo de espiritualidade invertida", ambos pela Editora Ultimato; e "Neemias, Um Profissional a Serviço do Reino" e "Quem Perde, Ganha", pela ABU Editora, Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor do programa de pós-graduação em ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos e, desde 2003, professor catedrático de sociologia no Calvin College, nos Estados Unidos. É colunista da revista Ultimato.
  • Textos publicados: 15 [ver]

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