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Palavra do leitor

Onde nos encontramos?

Hoje acordei contigo. Lembro de agradecer e me entregar a Ti, Senhor.
​Antes que o mundo fizesse barulho em meus olhos,
Tu já vigiavas meu sono.
Antes que minha boca ensaiasse o primeiro som,
teu amor já sustentava o meu peso.
​Por isso agradeço.
​Rabisco planos para o caminho,
mas desacelero a pressa do coração,
pois aprendi que os teus pensamentos têm o horizonte mais largo que os meus
e que teus passos sempre sabem onde a terra é firme.
​Durante o dia, Tu caminhas comigo.
Nas tarefas repetitivas,
nas alegrias caladas,
nas guerras silenciosas que travo por dentro.
E, quando a noite fecha as pálpebras do dia,
recolho-me no Teu abrigo,
certo de que Tu não dormes enquanto eu descanso.
​Nossos encontros são passeios pelo jardim.
​Ali o tempo perde a pressa.
​Caminhamos onde o verde é denso,
ouvindo as criaturas ensaiarem acordes para o Criador.
O vento me atravessa sem pedir licença,
e tua voz faz ninho no silêncio da minha alma.
​Às margens da fonte,
olho o meu reflexo na moldura das águas
e me recordo de quem sou:
barro moldado por teus dedos,
alvo da tua teimosia em me amar,
filho que traz o Teu sobrenome.
​Nossas conversas são como água tirada do fundo do poço,
como a sombra espessa de uma figueira ao meio-dia,
como o sopro frio que assenta a poeira do cansaço.
​Então seguimos caminhando,
pelas subidas íngremes e pelas planícies,
sem o aperto no peito,
sem olhar para trás,
porque tua presença transforma qualquer estrada em lar.
​E quanto mais gasto os meus sapatos contigo,
mais compreendo que a verdadeira paz
não é o silêncio dos ventos,
mas a certeza de que a tempestade não dita as regras do caminho.
​Por isso continuo contando os dias.
​Não porque estejas distante,
mas porque tenho fome do banquete final,
quando os teus dedos limparão o rosto dos que choraram
e pisaremos descalços, para sempre,
no chão recuperado da tua presença.
​Até lá,
cada amanhecer será um ensaio,
cada oração será um passo na estrada,
e cada respirar ao teu lado será o aviso
de que o infinito já fincou raízes no peito
daquele que aprendeu a andar no ritmo de Deus.

Valdecio Gama
Ferraz De Vasconcelos - SP
Textos publicados: 14 [ver]
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