Palavra do leitor
22 de outubro de 2013- Visualizações: 1757
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O fenômeno do protestantismo popular (final)
A igreja evangélica do Brasil vive um momento que em certa medida reproduz um pouco essa lógica de massa no seio da cultura contemporânea. Vivemos numa época, no caso de algumas igrejas históricas, em que a ânsia por crescer e manter a “clientela” está levando algumas lideranças a abdicar das facetas boas da tradição reformada, herdada dos missionários, em detrimento da construção de uma pretensa “identidade evangélica brasileira”, seja lá o que isso quer dizer.
Por conta da invasão “gospel” e da influência pós-pentecostal ou neo-pentecostal, e também por força da cultural contemporânea, superficial, rizomática e mediática, algumas igrejas históricas têm aderido a um modus operandi supostamente carismático (ou avivado) com toques de pietismo tardio (o que de si mesmo não seria um problema) e adotou como sua face pública uma estética pasteurizada que se afina bem com a massa, soando um pouco “kitsch” em alguns aspectos, com um gradual abandono de práticas e símbolos litúrgicos no afã de estar mais próxima do povo.
Apesar de afirmarem que professam um credo teologicamente ortodoxo, na prática essas igrejas estão adotando um ethos que compartilha dos valores e da estética da indústria cultural gospel, com seus produtos, marcas e “artistas”, passando a incorporar à sua linguagem códigos e jargões inerentes aos profetas da prosperidade.
O esgarçamento do tecido social e da estrutura familiar contemporânea, com a gradual individualização do que é ser cristão, o narcisismo, o egocentrismo e o assédio de outros sistemas simbólicos como o consumismo e o hedonismo, levou as lideranças a supor que se oferecerem um programa de igreja mais lúdico e mediático terão mais sucesso em reter membros.
Assim, a começar dos jovens, a igreja comete o mesmo erro da sociedade secular ao infantilizar os crentes, subestimando a sua capacidade de absorver conteúdo consistente e de qualidade, ao tornar a celebração um evento mais lúdico do que reverente, com o desuso dos símbolos litúrgicos, com o despojamento estético dos templos, “limando” a liturgia de sua hinódia, dos paramentos, das vestes talares e da boa arte sacra, por associá-los a elementos do romanismo, às elites, ao atraso, ao formalismo e ao passado. Se isso for verdade, deixaremos de ouvir Bach e Mozart ou de ler Machado de Assis e os escritos dos pais da Igreja e dos reformadores por serem demasiado antigos. Talvez deixemos de ler a própria Bíblia.
Ao invés disso, o que deveria ser um elemento de agregação, de enriquecimento do legado cultural reformado em terras brasileiras, como a adoção de ritmos nacionais na música de louvor, tornou-se uma aberração por meio da importação e do uso sem critério de modelos de culto que prezam mais pelo entretenimento do que pela adoração, com o uso de recursos fáceis e batidos e de fórmulas de manipulação de massa, com a repetição de frases e refrões de modo a criar clímax, quase como mantras.
O pior é que como não tem formação (também como consequência do enfraquecimento da Escola Dominical), interesse e base crítica para discernir uma coisa de outra, a grande maioria dos membros das igrejas acha isso normal e até gosta dessa situação porque não lhes solicita maior esforço de reflexão. A questão, na verdade, está em que os adultos e pais de jovens entendem que esse modelo agrada e retém seus filhos na igreja, pois de certa forma reproduz um padrão de cultura e de entretenimento existente no meio secular, mais nocivo para a juventude. Como se a igreja fosse um universo a parte que reproduz sucedâneos light e diet da cultura contemporânea que não representam perigo (“não engordam”), servindo como redoma que protege os mais jovens (pelo menos aos finais de semana). Mas, e no resto da semana? Que resposta essa gente vai dar quando colocada à prova quanto aos valores de sua fé?
Esse segmento da igreja evangélica nacional optou por crescer em números mas parar de crescer em termos de qualidade e maturidade. É a “congregação na Terra do Nunca” do “Rev. Peter Pan” com seus “meninos perdidos” que não querem crescer, não querem carregar a cruz, não querem aprender, não querem estudar, não querem ser adultos na fé. Por outro lado, querem festa, louvorzão, querem prosperidade, querem colo, querem um Deus-gênio da lâmpada que atenda seus pedidos. Querem uma vida cristã cada vez mais Disney.
Por conta da invasão “gospel” e da influência pós-pentecostal ou neo-pentecostal, e também por força da cultural contemporânea, superficial, rizomática e mediática, algumas igrejas históricas têm aderido a um modus operandi supostamente carismático (ou avivado) com toques de pietismo tardio (o que de si mesmo não seria um problema) e adotou como sua face pública uma estética pasteurizada que se afina bem com a massa, soando um pouco “kitsch” em alguns aspectos, com um gradual abandono de práticas e símbolos litúrgicos no afã de estar mais próxima do povo.
Apesar de afirmarem que professam um credo teologicamente ortodoxo, na prática essas igrejas estão adotando um ethos que compartilha dos valores e da estética da indústria cultural gospel, com seus produtos, marcas e “artistas”, passando a incorporar à sua linguagem códigos e jargões inerentes aos profetas da prosperidade.
O esgarçamento do tecido social e da estrutura familiar contemporânea, com a gradual individualização do que é ser cristão, o narcisismo, o egocentrismo e o assédio de outros sistemas simbólicos como o consumismo e o hedonismo, levou as lideranças a supor que se oferecerem um programa de igreja mais lúdico e mediático terão mais sucesso em reter membros.
Assim, a começar dos jovens, a igreja comete o mesmo erro da sociedade secular ao infantilizar os crentes, subestimando a sua capacidade de absorver conteúdo consistente e de qualidade, ao tornar a celebração um evento mais lúdico do que reverente, com o desuso dos símbolos litúrgicos, com o despojamento estético dos templos, “limando” a liturgia de sua hinódia, dos paramentos, das vestes talares e da boa arte sacra, por associá-los a elementos do romanismo, às elites, ao atraso, ao formalismo e ao passado. Se isso for verdade, deixaremos de ouvir Bach e Mozart ou de ler Machado de Assis e os escritos dos pais da Igreja e dos reformadores por serem demasiado antigos. Talvez deixemos de ler a própria Bíblia.
Ao invés disso, o que deveria ser um elemento de agregação, de enriquecimento do legado cultural reformado em terras brasileiras, como a adoção de ritmos nacionais na música de louvor, tornou-se uma aberração por meio da importação e do uso sem critério de modelos de culto que prezam mais pelo entretenimento do que pela adoração, com o uso de recursos fáceis e batidos e de fórmulas de manipulação de massa, com a repetição de frases e refrões de modo a criar clímax, quase como mantras.
O pior é que como não tem formação (também como consequência do enfraquecimento da Escola Dominical), interesse e base crítica para discernir uma coisa de outra, a grande maioria dos membros das igrejas acha isso normal e até gosta dessa situação porque não lhes solicita maior esforço de reflexão. A questão, na verdade, está em que os adultos e pais de jovens entendem que esse modelo agrada e retém seus filhos na igreja, pois de certa forma reproduz um padrão de cultura e de entretenimento existente no meio secular, mais nocivo para a juventude. Como se a igreja fosse um universo a parte que reproduz sucedâneos light e diet da cultura contemporânea que não representam perigo (“não engordam”), servindo como redoma que protege os mais jovens (pelo menos aos finais de semana). Mas, e no resto da semana? Que resposta essa gente vai dar quando colocada à prova quanto aos valores de sua fé?
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