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Palavra do leitor

Grosjean e a fornalha ardente

A cena foi dantesca. Uma bola de fogo subindo, em meio a grossas camadas pretas de combustível queimando. No escurecer da noite cálida de Bahrein o quadro alcançou uma perspectiva ainda mais assustadora.
Milhões de espectadores do mundo inteiro grudados em suas telas de TV, respiração intermitente por saber que no meio daquele medonho fogaréu havia um ser humano, um jovem cheio de vida e de sonhos.
Será que ele teria conseguido se libertar a tempo das rigorosas parafernálias de segurança? — era a pergunta que emergia em meio à angústia, deixando leigos sem respiração.
Ou teria ele desmaiado em razão do brutal impacto a mais de 220km por hora, que geralmente resulta em perda de consciência? — pensavam os especialistas.
Vinte e oito segundos e sete décimos quase sem respirar, de puro desespero.
Pais, irmãos, esposa, filhos, amigos, fãs, perplexos pensando o pior.
Eis que, do meio da bola de fogo gerada pela queima de 120 litros de combustível, como que de um filme hollywoodiano, surge a silhueta de um homem com capacete, dando ainda um ar mais medonho.
Romain Grosjean, piloto franco-suíço da escuderia Haas, vivo e aparentemente inteiro e ileso, sobe e pula o "guardrail", amparado pelas mãos de um corajoso e vigilante fiscal de pista.
Mais tarde seu filho Simon, aliviado, revelaria poeticamente sua paixão ao dizer que o pai foi protegido "por um escudo invisível de amor".

O episódio me transportou para o ano 600 a.C., mais ou menos, para uma cena ainda mais dramática, envolvendo não 1 mas 3 jovens, sem roupas antichamas, nenhum mecanismo de segurança, sem fiscais de pista ou médico para os socorrer e num fogo que faria o de Grosjean parecer palito de fósforo queimando.
Nabucodonosor se sentia poderoso. Famoso. Dono de um império, quase do mundo. Acabara de conquistar a Palestina e levado cativo seus melhores cérebros, seus jovens mais brilhantes.
Lidar com o poder é tarefa complexa. Quantos já se perderam em face do poder. Até o porteiro humilde, ao botar seu uniforme, se sente imbuído de um poder incomum. E poder absoluto é desgraça anunciada.
É do Lorde Acton a pertinente observação: "O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus".
Nabucodonosor tinha chegado a esse ponto. Perdera a noção de suas limitações e fragilidades. É o estado em que o ser de barro se acha ser divino. Acima dos demais mortais. Acima do bem e do mal. Como comentou um amigo ao analisarmos o comportamento de um arrogante e rico empresário do setor de logística: "É que ele não se acha deus, mas professor de deus".
Era assim que Nabucodonosor sentia: "Quem é o DEUS que vos poderá livrar das minhas mãos" — vociferou arrogante e jupiterianamente ao saber que três jovens desafiavam sua ordem de adorar sua própria estátua.
A condenação era desalmada, desumana: Fornalha de Fogo Ardente!
A atividade de fundição de minério e a fabricação de cerâmica demandavam a existência de muitos fornos em Babilônia, cujo sistema de ventilação permitia controlar a intensidade do fogo.
Mas o forno que servia as atividades reais era ainda mais especial em capacidade. Nele cabia vários homens em pé.
Furioso, o rei ordenou que o fogo fosse elevado à sua temperatura máxima. A ponto de os homens fortes do exército, que jogaram amarrados os 3 jovens ousados, não suportarem a irradiação do fogo e caírem fulminados.
Os pais, familiares e amigos de Azarias, Hananias e Misael, tensos e amargurados, imaginando que sequer teriam um corpo para velar e enterrar.
Nabucodonosor, orgulhoso, sorriso assoberbado, festejava o sabor antecipado da vitória. Se sentia vencedor no duelo com o Deus dos audaciosos jovens hebreus. Afinal o Deus deles não os livrou da fornalha.
É insano e tolo ver homens tomados de presunção querendo enfrentar DEUS.
Certo dia, entrou na minha sala de trabalho, o gerente de manutenção da empresa, pesaroso e sorumbático. A empresa acabara de ser vendida. O proprietário anterior, empresário temente a Deus, tinha escrito nas portas de cada caminhão, "Posso tudo naquele que me fortalece". Meu gerente fora incumbido pelo novo proprietário de apagar essas frases, alegando: "O que esse Deus não fez por 10 anos eu vou fazer em 3 meses".
"Fique em paz, ele está buscando encrenca agora não com quem escreveu a frase, mas com o Deus dele" — busquei animá-lo.
Não durou muito para que essa unidade de negócio fosse fechada após meses continuados de prejuízo.
Nabucodonosor não sabia que o Deus daqueles rapazes não age de acordo com protocolos humanos: Ele os desafia. Que Ele não procede de forma previsível: afinal Ele desenha um pôr do sol diferente a cada dia. Que Ele não se sujeita a leis da física: Ele as criou.
Osasco - SP
Textos publicados: 1 [ver]
Site: http://monteirofortes.com
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