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Palavra do leitor

Alienação e Discernimento

Estava vendo tv hoje e duas noticias me chamaram a atenção. A 1ª foi sobre a aprovação de um novo grupo de direitos civis e sociais que guardam a privacidade de crianças e adolescentes e seus direitos de buscar informações em fontes múltiplas. E sobre a marcha pela família que acontece hoje aqui na cidade.
Apesar de serem coisas muito distintas penso que pode haver um nexo que unifica as quatro.
O filósofo social Jürgen Habermas ao refletir sobre a complexidade da cultura contemporânea afirmou:
"estamos perdendo a capacidade de discernir sobre nossas escolhas e gradualmente nos tornando presas de um processo de desumanização que nós mesmos criamos. Logo, será tarde demais".
Ele se referia ao processo social em que algumas instituições sociais como a justiça, a educação, a mídia e a economia tomam a função de estabelecer o que é certo e o errado para os indivíduos.
É fácil entender o que ele diz quando nos lembrarmos que cada vez mais as relações humanas estão mais mediadas por direitos que individualizam e simultaneamente isolam o sujeito em suas relações. Nunca na história da humanidade tivemos tantos direitos. Possivelmente em quase nenhum outro período da história foi tão necessária a presença de especialistas para nos auxiliar a entender os limites de nossas ações.
Ele se referia a ampliação dos direitos para áreas da vida antes não regulamentadas. Áreas que antes cabiam a esfera privada e, portanto, dependiam da capacidade do indivíduo para dizer o limite, para reconhecer o que é certo ou não.
Segundo Habermas, o resultado da modernização - que aboliu os referenciais tradicionais e religiosos da ação e consequentemente estimulou a individualização - foi a progressiva perda da capacidade de julgar o que é certo ou não. De observar o mundo a sua volta e discernir quais os limites para as próprias ambições e desejos.
Bauman, outro sociólogo, concordando com isso afirmou que nos fechamos em nós mesmos. Aprisionados em nossos desejos nos tornamos incapazes de reconhecer os que nos cercam como seres humanos. Em lugar disso, as pessoas são cada vez mais julgadas segundo a utilidade que representam na persecução de nossos objetivos. E depois de alcançados os objetivos, as pessoas utilizadas perdem o seu valor e são descartadas.
Segundo esses dois sociólogos o aumento do número de direitos na nossa sociedade é reflexo direto dessa incapacidade de julgar que constitui a modernidade, que coisifica os homens em suas relações.
Também é por esse motivo que surgem tantas religiões e movimentos fundamentalistas na atualidade. É mais fácil ao homem moderno, preocupado com a própria felicidade delegar a outros a atribuição de discernir. Produzindo um julgamento homogêneo das situações e das pessoas, sem ter que se informar sobre o que é certo ou errado.
É curioso, portanto, relacionar esse contexto com a passagem bíblica de Mateus 16:01-08.
Nessa passagem, os fariseus e saduceus confrontam Jesus tentando testá-lo. Eles pedem um sinal de sua divindade ou messianidade. Ao que Jesus confronta a incapacidade daquela geração de julgar a moral e a sociedade em que estavam e, por fim, profetiza do sinal da ressurreição que haveria de vir.
O texto continua mostrando que nem mesmo os discípulos de Jesus haviam o entendido. Ao que Jesus adverte da necessidade de estar vigilante e discernir todo o tempo sobre os movimentos que são produzidos por nossa cultura.
A fé cristã é justamente esse movimento de reflexão contra a acomodação e falta de discernimento que a cultura moderna ensina sob o lema da felicidade, da praticidade e da utilidade.
A salvação na fé cristã é individual e assim como a santificação não dependem em nada de nossas ações. Mas, o indivíduo que acredita na mensagem da salvação adota um caráter reflexivo em todas as áreas de sua vida e posta-se contra os movimentos alienantes e desumanizantes que esta cultura promove.
Torna-se imperativo para o sujeito que recebe a fé cristã escrutinar cada aspecto de cada orientação que recebe no seu cotidiano e se postar contra as tendências culturais deste mundo tenebroso.
Nisso há uma afinidade intrínseca entre as afirmações do apóstolo Paulo e da teoria crítica da escola de Frankfurt. Viver e ser livre significa "pensar a contrapelo", não se"conformar com o presente século".
A boa, perfeita e agradável vontade de Deus é que sejamos livres da incapacidade de discernir que nos torna vitimas de praticas desumanizantes. E que através da restituição do discernimento consigamos erigir uma comunidade fraterna que ultrapassa os condicionantes sócio culturais que limitam nossa capacidade de enxergar o outro como um seres humanos com necessidades, sonhos e defeitos. Uma lógica a que nos subordinamos conscienciosamente.
Viver por fé é imitar o caráter misericordioso daquele que nos salvou por graça e que em nome desse imperativo se postou ativamente contra as determinações fáceis da moralidade estabelecida de seu tempo em nome da humanização do ser humano a quem Ele pretendia salvar.
Araguaína - TO
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