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Opinião

Silêncio, um filme de Martin Scorsese

Por Carlos Caldas

O desconcertante silêncio de Deus

Em 2011 estava lendo o suplemento literário do jornal O Estado de S. Paulo quando me deparei com um título que chamou minha atenção: O desconcertante silêncio de Deus. A matéria em questão era sobre o lançamento no Brasil de O silêncio, do romancista japonês Shuzako Endo (1923-1996). A resenha chamou tanto minha atenção que corri para comprar o livro. Não demorou para que eu o devorasse . O livro de Endo é um dos mais poderosos e perturbadores que já li. Shuzako Endo era um narrador extremamente habilidoso. E sua biografia o capacitou para escrever um livro tão intenso: tendo sido batizado em uma igreja cristã – católica – na infância, sofreu preconceito e perseguição de seus patrícios por ter abraçado a fé cristã. Alguns anos depois viaja para o Ocidente, para a França, para ser mais preciso, para estudar. Mas mais uma vez sofre preconceito, desta feita, étnico, por não ser branco. Estas experiências o levam a questionar a fé que abraçou. Endo depois viajou para a Palestina e o que não muitos anos depois viria a ser o atual Estado de Israel, com objetivo de estudar in loco sobre a vida terrena de Jesus. Nesta viagem teve percepção clara de como Jesus também sofreu preconceito, discriminação e rejeição. Quando retorna ao Japão, dedica-se a pesquisar documentos e relatos sobre a presença missionária jesuíta portuguesa na região de Nagasaki. O resultado é Silêncio¹, livro baseado na história das missões jesuíticas portuguesas no Japão do século XVII. Uma história dramática, de sofrimento intenso, de muitos martírios, torturas indescritivelmente dolorosas, física e emocionalmente, uma perseguição implacável aos kirishitan (como os japoneses pronunciavam a palavra “cristão”), intolerância religiosa (tema que está na moda hoje) elevada à última potência, com objetivo explícito de erradicar qualquer traço de presença ou influência cristã no país.

O silêncio (Chimnoku, em japonês) do título do livro, é o silêncio de Deus². O livro, portanto, trata de um dos temas mais difíceis da teologia cristã em todos os tempos. Pois na Bíblia, Deus é apresentado como aquele que fala, e algo acontece: “Haja luz – e houve luz” (Gn 1.3 s). “Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8). Mas, e quando este Deus que fala, se cala? E quando Deus não fala? Este é o dilema terrível trabalhado com maestria rara na obra de Endo. O prefácio do livro é escrito pelo próprio diretor, o respeitado e consagrado cineasta ítalo-americano Martin Scorcese, que assina clássicos como “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “A cor do dinheiro” (1986), e também de filmes que tratam de temáticas religiosas, como “A última tentação de Cristo” (1988) e “Kundun” (1997, este tratando do budismo tibetano). Fiquei curiosíssimo na época quando, neste prefácio, Scorcese anuncia que estava trabalhando na adaptação do livro de Endo para o cinema.

Em filme, “Silêncio” foi esnobado e desprezado pela Academia

Eis que finalmente, no início de 2017, o filme de Scorsese chegou às telas de todo o mundo. Filme longo, cerca de três horas de duração. Tremendamente bem conduzido, com atuações memoráveis: Andrew Garfield, que aos poucos se firma como o ator mais competente de sua geração, como o Padre Sebastião Rodrigues, e o já veterano Liam Neeson, como o Padre Cristóvão Ferreira, estão simplesmente magníficos em seus respectivos papeis. Neeson consegue expressar todos os seus sentimentos apenas com seu olhar, com a maneira como franze a testa, como abaixa o levanta os olhos enquanto conversa. Tristeza, revolta, acomodação, tudo está em seu olhar.

Inexplicavelmente o filme foi esnobado e desprezado pela Academia de Hollywood, pois recebeu apenas uma mísera indicação para o Oscar, e em uma categoria técnica: Melhor Fotografia, que por fim, não ganhou. Scorsese é um diretor experiente, trabalhou anos e anos neste filme, e não recebeu reconhecimento deste seu trabalho primoroso, nem da parte da muitas vezes incompreensível Academia, e nem da parte do grande público. Lamentável.

As torturas terríveis sofridas pelos cristãos camponeses pobres

O livro que inspira o filme é muito denso. É muito difícil, virtualmente impossível, passar para o cinema o turbilhão de emoções e sentimentos contraditórios que invadem a mente e o coração do jovem Padre Sebastião Rodrigues diante do cenário que encontra no Japão: em pouco tempo a missão jesuítica naquele país obtivera razoável sucesso. Há muitos convertidos entre os camponeses pobres. Mas o xogunato da época não tinha o menor interesse na presença de religiões vindas da Europa no Japão. Com objetivo declarado de eliminar todo e qualquer sinal da presença cristã no país, os xoguns usam torturas horríveis, que com o tempo se mostram capazes de esmagar o corpo e a mente do crente mais resistente. Logo chegam a Portugal rumores que o Padre Ferreira, a lenda dos jesuítas, haveria apostatado. Não se sabe se a notícia procede ou não. Dois padres jovens, o mencionado Rodrigues e seu colega Francisco Garpe (chamado de Garupe na legendagem brasileira), voluntariam-se para ir ao Japão e descobrir a veracidade ou não daqueles boatos. Já no Japão, são ajudados por Kichigiro, um japonês convertido ao cristianismo, mas que logo se revela pouco – ou nada – confiável.

O horror com que os padres Rodrigues e Garpe se deparam é indescritível. Eles logo se dão conta que no vocabulário vivencial dos xoguns não existem palavras como compaixão, misericórdia e perdão. Aldeias inteiras são massacradas. Os convertidos têm que esconder sua fé, e vivem constantemente com medo, desconfiam de tudo e de todos. Diante das autoridades, os criptocristãos se passavam por budistas, mas às ocultas, celebravam os ritos cristãos como podiam. Eles temiam particularmente a presença em suas aldeias de um destacamento de soldados armados enviados pelo xogum que obrigasse a todos os aldeões a um teste, para descobrir se eram ou não cristãos: todos eram organizados em uma fila e, um por um, teriam que pisar no que é chamado de “fumiê” – uma placa pequena com uma representação de Jesus crucificado. Quem não pisasse seria imediatamente identificado como cristão, e seria executado da maneira mais cruel, lenta e dolorosa possível. Quem pisasse, teria sua vida preservada, mas viveria o resto de seus dias com peso na consciência por não ter tido coragem de afirmar sua fé.

A presença dos padres lhes acende uma chama de esperança. Mas Rodrigues, em quem se concentra o foco narrativo do filme, começa a ter dúvidas atrozes: por que tanto sofrimento? Por que Deus permite tudo aquilo? Por que Deus não intervém? Por que o silêncio divino? Qual o sentido em tudo aquilo?

De que vale uma fé que só traz sofrimento, perseguição e morte?

Por fim, o mistério é esclarecido: o Padre Ferreira havia mesmo renegado a fé – mas o fizera para salvar uma família de aldeões. O preço para salvar a vida daqueles camponeses pobres fora sua demonstração pública de apostasia. Aí está a malignidade genial de Inoue, o magistrado japonês responsável por erradicar do Japão por completo a presença cristã. Em um diálogo com o Padre Rodrigues, Inoue conta-lhe uma parábola: um rico senhor japonês tinha quatro concubinas em seu palácio, que viviam brigando entre si. Um dia expulsou as quatro, e passou a viver em paz. Rodrigues, inocentemente, responde que o homem tinha sido sábio em expulsar as quatro mulheres. Inoue então lhe explica que o rico senhor japonês era o próprio Japão, e as quatro concubinas, as nações européias católicas Portugal e Espanha, e as protestantes Inglaterra e Holanda. Logo, a motivação primeira de Inoue é nacionalista: ele quer um Japão livre da presença de credos estrangeiros. Em uma das sequências mais fortes do filme, Inoue pergunta a Rodrigues se este achava justo perturbar o povo japonês com uma fé que só lhes traria sofrimento, perseguição e morte. Com espanto, Rodrigues se dá conta que o inquisidor Inoue tem uma visão do cristianismo muito maior que ele jamais suspeitara.

Rodrigues não tem resposta para as perguntas de Inoue. O jovem missionário, idealista e romântico em sua visão da vida, é colocado frente ao mesmo dilema que, não muitos anos antes, Ferreira tivera de enfrentar. E sua decisão é a mesma de seu mentor: ele renuncia a fé cristão para salvar a vida de aldeões pobres.

Padre Rodrigues tem de enfrentar as traições e pedidos de perdão de Kichigiro. E descobre que, não raro, ele age em relação com Deus como o detestável e inconstante guia japonês. Rodrigues se dá conta que não é de modo algum melhor que Kichigiro. Na verdade, todos somos Kichigiro.

“Onde estás, Senhor Deus?”

O tema do silêncio de Deus é realmente inquietante, perturbador, desconcertante, constrangedor. É o clamor ouvido por João de Patmos quando o quinto selo é aberto: “Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram. Eles clamaram em voz alta, dizendo: Ó Soberano, santo e verdadeiro, até quando aguardarás para julgar os que habitam sobre a terra e vingar o nosso sangue?” (Ap 6.9-10, Almeida Século 21). É o clamor que Castro Alves coloca na boca dos escravos africanos em Vozes d’África:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...


É o clamor do próprio Jesus crucificado: “Eli, Eli, lama sabactâni – Deus meu Deus meu, por que me desamparaste?” (cf. Mc 15.34; Mt 27.46). É o clamor de milhares, milhões, que sofrem por sua fé, clamam aos céus, mas não recebem resposta.

Ou talvez, tenham-na sim recebido. Mas não a entenderam. Por conta da pressão e da angústia de viver momentos fortemente estressantes, não conseguiram entender. Talvez a resposta esteja no fato que algumas vezes, Deus responde no silêncio, responde sem falar. Talvez a resposta esteja no fato observado com perspicácia por Dietrich Bonhoeffer, ele próprio um mártir da fé cristã, quando disse que não conseguiria crer em um Deus que não sofresse conosco.

A apostasia que manteve viva a chama da fé

Em sua apostasia (?), Ferreira e Rodrigues salvaram vidas. Com isso, conseguiram manter acesa a chama da fé. Na negação da fé, alimentaram-na e mantiveram-na acesa³.

Cada vez mais, hoje e nos próximos anos, haverá martírios por conta da fé cristã. Talvez o mesmo silêncio seja a resposta. Neste silêncio eloquente, há que se ouvir a voz daquele que sofreu conosco, solidário conosco em nossa morte. E a nós novamente será dito: “Não chores... o leão da tribo de Judá, venceu... Olhei, e eis que estava no meio do trono um cordeiro, como havendo sido morto... Então ouvi a voz de milhares de milhares e milhões de milhões, que diziam, Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças...” (Ap 5.6,12).

Notas:
1 A primeira edição do livro traz o artigo definido masculino singular – O silêncio. Já a segunda edição traz simplesmente Silêncio, sem o artigo. Observe-se que o artigo também é inexistente na versão inglesa – Silence. A eliminação do artigo é fiel ao original japonês.
2 Para uma abordagem do silêncio de Deus em perspectiva da teologia bíblica, consultar, José Baez, Silvio. Quando tudo se cala. O silêncio na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2011, p. 117-166.
3 Para detalhes, consultar, entre outros, Philip Jenkins. A próxima Cristandade. A chegada do cristianismo global. São Paulo: Record, 2004.

• Carlos Caldas é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas.

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