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Opinião

O gigante acordou, mas ainda engatinha

Manifestante ergue a bandeira brasileira em São Paulo. Foto: Marcelo Camargo/ABrVou interromper a minha série de artigos sobre o tema do amor, pois não posso me calar diante das notícias, imagens e vozes que vêm a nós há mais de uma semana, de todas as partes do país.

E, pasmem, isso em tempos de Copa do Mundo! Certamente o país não será o mesmo depois disso, ou melhor, já deixou de ser.
Que o “gigante acordou”, disso não resta dúvida.O que resta saber agora é, para quê foi que ele acordou. Mas concordar com vandalismo, isso é praticamente uma unanimidade entre os cidadãos: não! Basta!

Não me admiraria se os mesmos vândalos entre os cidadãos autênticos (ou seja, aqueles dotados de consciência e responsabilidade pela coisa pública), sejam aqueles que deram o pontapé inicial ao efeito dominó: os que defendem não apenas a redução da tarifa, mas o chamado “passe livre”.

Solidarizo-me com aqueles que vieram às ruas para manifestar a sua insatisfação com a situação social, política e econômica do país, mas não posso concordar com essa motivação. O que significa o passe livre, se não, a estatização do transporte, que já se chama “público”? Não quero entrar aqui na discussão ampla sobre se abraçar os pensamentos de Marx seja igual a estatizar, e privatizar sinônimo de negá-los. Isso daria um livro.

O que é preciso dizer, em meio a tanta euforia, é que parece que esquecemos como foi que se iniciaram as Grandes Guerras Mundiais e que tipo de sentimento as deflagrou (patriotismo extremado ou nazi-fascismo, com papel excessivo atribuído ao Estado). Também as revoluções comunistas e os grandes golpes de direita tiveram circunstâncias e motivações parecidas (isto é, ditatoriais).

Então, não ficarei surpresa, se o que nos espera seja um golpe ou uma revolução, mas oro a Deus para que vença o bom senso de todos os partidos e partidários, seja lá do que for. Pode até haver movimento “inter” ou “supra” partidário, mas haverá movimento “apartidário”?

Ser contra e denunciar certas coisas é muito fácil, mas o que haveremos de “anunciar” no lugar delas? Que coisa é essa pela qual estamos tomando partido e estamos lutando? Essa falta de definição política clara leva qualquer governo a reações de desespero, ou alegadas como sendo desesperadas, já que (alegadamente) não se pode negociar, porque (verdadeiramente) não há algo concreto a ser negociado, inclusive da parte do governo atual.

O que é, por exemplo, “acabar com a corrupção”? Acabar com os políticos? Ora, então teremos uma revolução anárquica. Acabar com a própria política? Qual é a nação que já fez a proeza de acabar com a corrupção? Minimizá-la, sim, mas “acabar”?

A conclusão que eu tiro disso tudo é que o Brasil ainda está engatinhando, em termos de democracia. O brasileiro parece uma criança que entra pela primeira vez num supermercado e quer levar tudo o que encontra pela frente.

E se estiver junto com outras crianças nesse supermercado, é briga e confusão na certa! As teorias de psicologia grupal explicam o que acontece em um aglomerado de pessoas. Onde há concentração de poder, não importa de qual partido, os problemas aparecem cedo ou tarde. Quanto mais quando se trata de pessoas revoltadas!

Então, sou partidária das palavras sensatas de G.K. Chesterton, que dizia que a melhor forma de governo seria a anárquica, se não fosse a pecaminosidade (corrupção) do homem -- e da mulher também.


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É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br
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