terça-feira, 09.fevereiro.2010
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OPINIãO
 
  Torturado por um mantra
 
Rodrigo de Lima Ferreira

Certa vez eu fui resolver certos assuntos pessoais em Cuiabá, a bela e quente capital matogrossense. No dia em que ia voltar para casa resolvi passear um pouco. E o que é que a gente faz com tempo livre? Passeia no shopping. E lá fui eu, rumo a um bonito shopping, ao lado de um templo evangélico gigantesco.

Ao chegar visitei algumas lojas, mas logo rumei a uma de departamentos, daquelas onde vendem de tudo: de meias para bebês a impressoras a laser. Como gosto de filmes de ação, lá fui eu para a seção de DVDs, para ver se compraria um do James Bond.

Na loja estava tocando um CD “ultramantreiro”, daqueles que fazem a festa gospel bombar. Comecei a reparar na letra, e de repente o cantor solta: “Eu quero fazer uma aliança com o Senhor inquebrável, / Inabalável / Eu quero fazer uma aliança com o Senhor / Meu Deus / De ser fiel até o fim”. Será que Deus faz aliança assim, desse jeito, conosco? Afinal, ainda que eu seja cristão, não deixei de ser pecador falho e imperfeito. Como Deus pode confiar em uma aliança assim, “inquebrável”, com alguém como eu? Se nem o apóstolo Pedro foi fiel até o fim, traindo Jesus no meio da sua jornada, imagine eu!

Bom, depois dessa, ouvi o seguinte: “A minha fidelidade, a minha obediência / Sempre vai tocar o coração de Deus / A minha santidade, me leva em tua presença / Eu amo tua casa, eu sou filho teu”. Fora o erro de concordância, que dói no fundo do ouvido, eu nunca tinha ouvido algo tão medonho assim. Quer dizer que são meus esforços próprios que chamam a atenção de Deus? O que dizer de Isaías 64.6, em que o profeta afirma que minha própria justiça não passa de lixo para Deus? Não foi ele quem tomou a iniciativa de vir em minha direção, revelando-se em amor em misericórdia? Quer dizer que precisei fazer uma pequena chantagem, um “charminho” pra cima de Deus? Quer dizer que a santidade, a fidelidade e a obediência são frutos de meu próprio labor? Puxa vida, é só eu, eu, meu, meu... Deus está se tornando acessório. Mas vamos em frente, que ainda não apresentei a última, que quase me matou.

A letra dizia assim: “A tua unção está em mim / Se eu for até o fim / Eu não vou medir esforços / Para receber o que tu tens pra mim / Eu tomo posse da minha herança / Sou herdeiro da promessa de Deus / Eu tenho fé e confiança / Que eu já recebi tudo aquilo que é meu”. Na hora me lembrei das palavras de Paulo a Timóteo, onde ele aconselhava o jovem pastor: “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3.12). Paulo não fala em unção sobre Timóteo, nem fala em perseverar para conquistar aquilo que Deus tem para ele (a perseverança se dá em outro nível, não nesse materialismo barato), mas sim fala a respeito de restrição, renúncia e sofrimento por amor a Cristo.

Só sei que depois de ouvir tanto mantra, saí da loja sem comprar o DVD do James Bond. Perdeu a graça. Na saída da loja, recoloquei meu CD player portátil para tocar e começou uma bonita canção de Carly Simon que dizia: “You’re so vain / You probably think this song is about you” (“Você é tão fútil / Você provavelmente pensa que essa canção é a seu respeito”). Dizem as más línguas que ela escreveu essa música pensando em Warren Beatty, um antigo namoro. Mas, adaptando para o nosso tempo, penso que os mantreiros cantam (inconscientemente) isso é para Deus. Nas canções de muitos, o Pai se tornou fútil e sem sentido. Pensam que cantam a respeito dele, contudo criam um falso ídolo, um bezerro, não de ouro, mas de plástico (dos CDs e dos cartões de crédito) e de papel-moeda.

Consegui escapar da sessão de tortura. Porém ainda sinto dores, especialmente quando penso em milhares de pessoas que aceitam, de bom grado, trocar o Deus verdadeiro por esse baal pós-moderno, se iludindo e enganando a outros. O anestésico para essas dores é o estudo da Palavra. Mas será que a igreja evangélica brasileira ainda se interessa por essa cura?


• Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e mestre em missões urbanas pela FTSA, hoje pastoreia a IPI de Rolim de Moura, RO. revdigao.wordpress.com
   
 
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Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Carlos Roberto Koscky Paier | Campinas - SP #1
Sem falar naquelas músicas em que o ministro de louvor repete mil vezes a mesma frase... poxa, posso até entender que aquela foi uma experiência pessoal do irmão, mas será que isso tem q estar na edição final tb? Qual a relevancia dessa experiencia para nós, q ouviremos a música? Paulo ensina que certas experiências pessoais com o Espírito devem permanecer na intimidade, e Jesus ensina que não é pelo muito falar que seremos ouvidos... então, coloquemos boas letras e cantemos a Palavra, porque não aguentamos mais ouvir as mesmas coisas!
Postado em 14/08/2009 às 05:45:08
 
Marcia Roberta Nascimento | Lauro De Freitas - BA #2
É incrível como a cada dia encontro mais pessoas insatisfeitas com o modelo de "cristianismo" que estamos vivendo neste tempo... A opinião do pastor reflete também o pensamento de muitos cristãos insatisfeitos com o evangelho distorcido que estamos vivendo... Que Deus nos ajude!!!
Postado em 15/08/2009 às 12:46:12
 
Leonir Oliveira Moraes | Feira De Santana - BA #3
Não sei se o mantra está em acreditarmos que existe um Deus que recompensa os seus fiés ou acreditarmos num Deus que tem prazer em ver os seus filhos sofrendo. A Bíblia nos exorta a sermos fiéis até a morte e só assim receberemos a coroa da Vida; diz também que nós temos a unção do senhor; alguns pastores que chegaram a um ´certo nível intelectual, entendem que a razão deve prevalcer a fé; a Bíblia diz que a fé não é de todos e que devemos viver pela fé e que tudo é possível ao que crer. Não é questão de mantra e sim de samântica. As nossas dececpções pessoais nos tornam frios espiritualmente.
Postado em 17/08/2009 às 17:29:07
 
Robson Negrão De Silos | Curitiba - PR #4
Revolução! É tempo de Revolução!
"A fé implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana. A minha fé é o ponto de ruptura, não com os meus companheiros humanos, mas com as religiões. (J.Ellul)
Postado em 23/08/2009 às 16:47:27
   
 
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