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Antologia do sofrimento

A fatalidade do sofrimento

O sofrimento é um problema universal que, de uma ou de outra forma, afeta a vida de todas as pessoas, em todos os níveis. (Lídia Swain, em Por Que Sofremos, p. 7)

Todos somos irmãos e irmãs no sofrimento. Ninguém chega até nós de uma casa que nunca conhece a tristeza. Eles vêm para nos ajudar porque também eles sabem o que é ser magoado pela vida. (Rabino Harold S. Kushner, em Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, p. 113)

Vida sem sofrimento só existe em sonhos e programas utópicos, não, porém, na realidade. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 104)

Se alguém não sofre, deve-se não só a que não padece, como também a que não se compadece. (Augusto Guerra, em Dicionário de Pastoral, p. 524)

O sofrimento ocupa lugar considerável nas Escrituras. Desde Caim até Jó, desde o Gólgota até as visões do Apocalipse, há poucas páginas na Bíblia que não tocam de perto ou de longe esta dura realidade da existência humana. (A. Amsler, em Vocabulário Bíblico, p. 404)

Para os que pensam, a vida é uma comédia; para os que sentem, é uma tragédia. (Horace Walpole, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 13)



A problemática do sofrimento

O livro de Jó é provavelmente a maior, mais completa e mais profunda discussão jamais escrita sobre o tema das pessoas boas que sofrem. (Harold S. Kushner, em Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, p. 42)

Existem sofrimentos primariamente físicos, primariamente psíquicos e ainda primariamente sociais e outros mais. Todos, porém, não permanecem apenas no plano físico ou psíquico, mas são ou tornam-se multidimensionais e complexos, passando a manifestar-se não só na área física, mas também na área psíquica e mental, muitas vezes já desde o início. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 123)

O problema de conciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus que ama só é insolúvel enquanto associarmos um significado trivial à palavra “amor” e considerarmos as coisas como se o homem fosse o centro delas. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 35)

O sofrimento mental é menos dramático do que o físico, mas é mais comum e também mais difícil de suportar. A tentativa freqüente de esconder o sofrimento mental aumenta o fardo. É mais fácil dizer: “Meu dente está doendo” do que “Meu coração está partido”. Todavia, se a causa for aceita e enfrentada, o conflito irá fortalecer e purificar o caráter e com o tempo a dor geralmente passará. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 113)

O sofrimento é uma experiência terrível, diante da qual, especialmente quando é sem culpa, o homem põe aquelas difíceis, tormentosas, por vezes dramáticas interrogações, que ou constituem uma denúncia, ou um desafio, ou um brado de rejeição de Deus e da sua providência. (Hugo Schleninger e Humberto Porto, em Dicionário Enciclopédico das Religiões, vol. II, p. 2.411)

É melhor sofrer do que fazer sofrer. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 203)



A causa do sofrimento,

Sofrimento jamais surge no indivíduo por causa exclusiva de sua culpa intrínseca. Outros estão envolvidos como causadores, espectadores ou amigos. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 8)

Quem quiser eliminar sofrimentos deve contar com o fato de que o pecado causará sempre novos sofrimentos. Onde não estiver afastado o mal fundamental, sempre surgirão sofrimentos. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que sofrer?, p. 202)

Quando as almas se tornam perversas, elas certamente fazem uso desta possibilidade para se ferirem umas às outras. Isto talvez justifique quatro-quintos dos sofrimentos humanos. Foram os homens, e não Deus, que inventaram a tortura, os chicotes, as prisões, a escravidão, as armas, as baionetas e as bombas. A pobreza e o excesso de trabalho são produtos da avareza ou da estupidez humana e não uma distorção da natureza. De todo modo, porém, existe ainda muito sofrimento que não pode ser atribuído a nós mesmos. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 64)

A dor é um dos sinais da desordem completa que a rebelião do homem introduziu na criação. Na atual situação do mundo pecador, o domínio do sofrimento é tal que ninguém lhe escapará. (A. Amsler, em Vocabulário Bíblico, p. 404)

Embora muitos dos sofrimentos humanos que nos sobrevêm sejam irremediáveis, a maior parte deles são provenientes dos sistemas humanos errôneos, e, se são feitos pelo homem, por ele podem ser desfeitos. (Stanley Jones, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 185)



O proveito do sofrimento

A dor é a maneira pela qual a natureza nos diz que estamos sendo superpressionados, que alguma parte de nosso corpo ou não está funcionando como deveria, ou que dela se está exigindo mais do que pode dar. (Harold S. Kushner, em Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, p. 67)

O erro e o pecado são um mal mascarado; o sofrimento é um mal às claras, indiscutível. Todo homem sabe que algo está errado quando sente dor. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 67)

O sofrimento oferece uma oportunidade para o heroísmo; e essa oportunidade é aceita com surpreendente freqüência. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 113)

Quando estivermos sendo carbonizados no fogo do sofrimento, devemos compreender que o divino Artista nos está preparando para sermos instrumentos do seu propósito. (Stanley Jones, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 236)

O sofrimento quebra a resistência oposta a Deus, de modo que o pecador e o obstinado entram contritamente em si mesmos e reconhecem a sua culpa. É precisamente em meio ao mais amargo sofrimento que surge o desejo de comunhão com Deus. (Josef Scharbert, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.071)

O sofrimento deve obrigar o homem a uma tomada de posição definitiva pró ou contra Deus. Deve arrancá-lo de sua auto-segurança, lembrá-lo de sua culpa perante Deus e assim, depois do pecado, inaugurar o processo de cura. (Josef Scharbert, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.071)

O sofrimento purifica a piedade e aprofunda a comunhão com Deus. (Josef Scharbert, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.072)

Entre sofrimento e salvação existe um nexo semelhante ao que existe entre dores de parto e alegrias maternas. (Josef Scharbert, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.072)

O sofrimento torna o cristão consciente de sua fraqueza e de sua nulidade e o preserva de superestimar-se a si mesmo, de apoiar-se na sua própria força em vez de na de Deus. (Josef Schmid, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.076)

É preciso escolher entre duas coisas: ou sofrer para se desenvolver, ou não se desenvolver para não sofrer. (Theodore Jouffroy, em Dicionário do Pensamento, p. 241)



Como lidar com o sofrimento

Por vezes o caminho de evitar sofrimentos é descrito como escolha entre duas atitudes, ambas acarretando sofrimentos, uma, porém, menos que a outra. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 203)

Não devemos jamais tornar o problema do sofrimento pior do que já é, falando vagamente de “uma soma inconcebível de miséria humana”. (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, p. 83)

O homem do Antigo Testamento não esconde a sua dor, antes a manifesta pelo choro e por lamentações apaixonadas. Tal comportamento não é considerado covarde. Trata-se de escapar ao máximo do sofrimento. A atitude ascética de quem procura o sofrimento espontaneamente para refrear os instintos inferiores ou para fortalecer o corpo ou a força de vontade são estranhos ao Antigo Testamento. Por outro lado, o homem piedoso sabe também suportar o sofrimento inevitável, sobretudo quando assim o exige o serviço de Deus. (Josef Scharbert, em Dicionário de Teologia Bíblica, vol. II, p. 1.070)

Jesus não nos deixou nenhuma fórmula quanto ao porquê e à origem do sofrimento. Ele nos presenteou um caminho de vitória frente ao sofrimento. Ele viveu em triunfo em meio ao sofrimento. O segredo de seu triunfo foi sua identificação com a vontade do Pai no sofrimento. (Julian C. McPheeters, em Diccionario de Teologia, p. 507)

O cristão deve ser o homem mais extraordinariamente feliz do mundo, porque tem alegria apesar das circunstâncias. (Stanley Jones, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 237)



Esperança para os que sofrem

Em face da glória futura, tudo adquire sua verdadeira perspectiva e dimensão, inclusive o sofrimento. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 179)

O contrário do sofrimento não é precisamente a saúde ou o bem-estar, mas a consolação e a glória, quer dizer, a reabilitação mediante a graça perante Deus. (A. Amsler, em Vocabulário Bíblico, p. 404)

O pecado, o sofrimento e a morte serão banidos do universo, com a vitória final do reino de Deus. (Stanley Jones, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 214)

Aquilo que sofremos agora é insignificante, se compararmos com a glória que Deus nos dará mais tarde. (Paulo, em Romanos 8.18, BV)

É ilusória uma atualidade livre do sofrimento enquanto a morte, “o último inimigo”, não está ainda derrotada definitivamente com seu poder e enquanto esbofeteia e inflige sofrimento. (Erhard S. Gerstenberger, em Por Que Sofrer?, p. 174)



As tentações do sofrimento

O homem está sujeito a inúmeras tentações: tentações do egoísmo, tentações do ódio, tentações do orgulho, tentações do dinheiro, tentações da lascívia e assim por diante. Mas ninguém se lembra das tentações do sofrimento. Elas também existem. Quando mal enfrentado, o sofrimento pode levar ao álcool, às drogas, ao desespero, à apostasia, à descrença e ao suicídio. “O sofrimento sempre significa tentação e até o homem piedoso está sujeito a se revoltar passageiramente contra Deus”, avisa o teólogo alemão Josef Scharbert. Em seu livro O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis explica que “o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podendo levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento”.

Este artigo pretende nomear e analisar as tentações do sofrimento.



A tentação da apatia

A apatia é uma das conseqüências da frustração. É ausência de sentimento e de resposta aos apelos emocionais. Algo como indiferença, desinteresse e entorpecimento emocional.

Não se pode confundir resignação com apatia. Resignação é virtude e refere-se à submissão paciente aos sofrimentos da vida. Jó suportou seus infortúnios e não “atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1.22), mas não foi apático. Ele amaldiçoou o processo todo de seu nascimento, da concepção ao parto, e terminou com o clamor: “Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso, e já me vem grande perturbação” (Jó 3.26). Jesus chorou em público, frente à dor causada pela morte de Lázaro (Jo 11.35) e não escondeu dos discípulos a sua reação ante o sofrimento do Getsêmani: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mt 26.38).

A apatia não ajuda nada. É quase sempre uma mentira mental a uma porta aberta ao fatalismo, aquela atitude que desencoraja qualquer resistência ao sofrimento. O fatalista diz com muita simplicidade e pressa: “É como Deus quer”.



A tentação da autoflagelação

A autoflagelação tem a sua gênese na infeliz associação entre o sofrimento e o misticismo. O raciocínio é este: como a dor em alguns casos alimenta a religiosidade, ela é boa e atraente. Pendem para este comportamento aqueles que acreditam que a salvação é pelas obras e não pela graça de Deus. A pessoa se acostuma com a dor, passa a gostar dela e se aproveita dela para chamar a atenção e os cuidados dos outros. É algo doentio. Alguém observou que “quando não temos uma cruz pesada para suportar nós a fabricamos com dois palitos”. Mas é C. S. Lewis quem denuncia: “Em todo o reino da medicina não existe nada mais terrível de contemplar do que um indivíduo com melancolia crônica”.

Na declaração de Paulo — “sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo” (2 Co 12.10) — não há nenhuma idéia de autoflagelação. O prazer não está no sofrimento, mas naquilo que o sofrimento produzia: maior dependência de Deus e melhor apropriação dos recursos provenientes de Deus. O contexto mostra que o apóstolo lutou o quanto pôde contra o espinho na carne. Aceitou-o como uma imposição de Deus com fins benéficos.



A tentação da superindagação

A preocupação com a causa do sofrimento é até certo ponto justa e sadia. Tem enchido páginas e páginas de muitos livros, desde os tempos mais remotos. É o assunto do livro de Jó, no Velho Testamento. O grande problema é que o homem tem errado muito na tentativa de descobrir a razão do sofrimento. Ele apresenta respostas simples demais, embora o problema seja complexo demais. Às vezes gasta mais tempo com a análise do sofrimento do que com a solução dele. Com freqüência esta superindagação toma ares altivos e desrespeitosos para com Deus.

Naturalmente há algumas possíveis respostas, mas não para todos os casos de dor. O sofrimento pode ter como causa muitos fatores simplesmente humanos e removíveis, como, por exemplo, a imprevidência, a indolência, o vício, a estrutura injusta e o mais citado de todos: o pecado. O rabino Harold S. Kushner, autor do livro Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, lembra que o “Holocausto aconteceu porque milhares de pessoas foram persuadidas a juntar-se a Hitler em sua loucura, e milhões de outras pessoas deixaram-se amedrontar, sendo induzidas a cooperarem”.

Todavia é necessário que não se atribua ao pecado próprio e ao pecado alheio toda a razão do sofrimento. A Bíblia não nos permite pensar assim. O livro de Jó conta que Elifaz, Bildade e Zofar estavam tremendamente enganados quando atribuíram o sofrimento do homem da terra de Uz a alguma iniqüidade daquele que Deus declarou ser íntegro e reto (Jó 1.1). Quando os discípulos viram o cego de nascença, perguntaram a Jesus: “Quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” A resposta foi contundente: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.1-3). Em outra ocasião, Jesus corroborou este mesmo pensamento, afirmando que os galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que realizavam, e os dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé, não eram mais pecadores ou culpados do que todos os outros (Lc 13.1-5).

A tetraplégica Joni Eareckson Tada, que experimentou tremendo sofrimento, sugere uma atitude muito sábia: “Quando as peças do quebra-cabeça não se encaixam, deixemos que Deus seja Deus”. Essa reação acertada acaba com a tentação da superindagação.



A tentação da exageração

É muito fácil dramatizar. É muito fácil espalhar a dor por todo o corpo, quando apenas o joelho está doendo. É muito fácil esticar a dor de ontem para hoje e a de hoje para amanhã, quando ela já passou ou já diminuiu de intensidade. É muito fácil exagerar o tamanho e o tempo do sofrimento. É muito fácil fazer coleção de dores e de doenças. É muito fácil esquecer o precioso recado do salmista: “Ao anoitecer pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5).

O povo de Israel várias vezes caiu nessa tentação de exagerar o sofrimento. Os espias exageraram a altura e o número dos gigantes da terra de Canaã: “Perto deles nós nos sentíamos tão pequenos como gafanhotos” (Nm 13.32-33). Até Elias exagerou a situação de apostasia na época do reinado de Acabe e Jezabel, quando disse que só ele havia permanecido fiel diante de Deus, embora houvesse mais sete mil que não dobraram a Baal os seus joelhos (1 Rs 19.14-18).

Um dos exageros que cometemos hoje gira em torno da atuação satânica. Estamos enriquecendo o currículo de Satanás, atribuindo-lhe poderes e proezas que ele não tem. Esse expediente torna a nossa caminhada cristã mais agitada e mais difícil. O já citado C. S. Lewis diz que “não devemos tornar o problema do sofrimento pior do que já é, falando vagamente de uma soma inconcebível de miséria humana”.

Para vencer essa tentação bastante comum é necessário ter em mente que Deus controla o número, a freqüência e a intensidade da dor, como se vê claramente no livro de Jó e na declaração de Paulo de que Deus não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças (1 Co 10.12).



A tentação da fixação

Há pessoas que recusam qualquer alívio. É o caso de Jacó, cujo filho José fora dado como morto. Todos os seus filhos e filhas levantaram-se para o consolar, mas o patriarca não quis ser consolado: “Chorando, descerei a meu filho até à sepultura” (Gn 37.35). Essa tentação é muito comum.

A fixação fecha a porta ao alívio e dispensa o consolo que o passar do tempo produz. Pode provocar traumas, que mais tarde provocarão sofrimento maior. As vítimas da fixação da dor acreditam que a não fixação é um desrespeito à memória do morto. Conservam intactos o quarto e os pertences do ente querido que partiu. Criam um ambiente mórbido. Param no tempo. Entregam-se à dor e não esboçam a menor reação.

Não foi assim que Davi se comportou quando soube da morte do filho recém-nascido, por cuja cura orou com intensidade. Ele encerrou definitivamente o assunto da morte da criancinha e explicou aos seus amigos surpresos: “Enquanto o menino estava vivo, eu jejuei e chorei porque o Deus Eterno poderia ter pena de mim e não deixar que ele morresse. Mas agora que ele está morto, por que jejuar? Será que eu poderia fazê-lo viver novamente? Um dia eu irei para o lugar onde ele está, porém ele nunca voltará para mim” (2 Sm 12.22-23, BLH). O rei não fez cara triste nem ficou zangado com Deus. Ao contrário, facilitou e apressou o processo da superação da dor e readaptou-se à realidade, retornando rapidamente às atividades normais.

Para o nosso próprio bem e dos que nos cercam, não devemos nos amarrar à dor, afastando de vez o necessário alívio.



A tentação da amargura

Amargura não é só tristeza. É muito mais do que tristeza. É a infeliz mistura do sofrimento com o ressentimento e seus associados: decepção, ódio, ira e agressividade. O coração amargurado é tão desagradável e nocivo que a Palavra de Deus declara: “Não haja em vós alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe e, por meio dela, muitos sejam contaminados” (Hb 12.15).

Quando Esaú se viu enganado por seu irmão Jacó a respeito da bênção da primogenitura, ele bradou com profundo amargor: “Abençoa-me também a mim, meu pai!” (Gn 27.34). O contexto revela que Esaú estava tomado de tristeza e de ira. Foi nesse dia que ele passou a odiar Jacó e resolveu matá-lo em ocasião oportuna. O sofrimento fica muito mais pesado se for associado à amargura. O escritor francês Alphonse Lamartine dizia que “tudo cresce e se renova, menos a vida do homem quando se gasta em amarguras”.

Quando a amargura é contra Deus, então o problema torna-se muito mais sério e perigoso. A esse respeito é oportuno lembrar a declaração de um sobrevivente do Holocausto: “Enquanto eu fui um dos habitantes de Auschwitz, nunca me ocorreu questionar o que Deus fez ou deixou de fazer. Nunca fiquei mais ou menos religioso com o que os nazistas nos faziam. Nunca acreditei que a minha fé em Deus fosse minada em suas bases. Nunca me ocorreu associar a calamidade que estávamos experimentando a Deus, censurá-lo, acreditar menos ou deixar de crer nele de todo, só porque Ele não vinha em nosso socorro”.

O conselho de Paulo é mais do que oportuno: “Abandonem toda amargura, ódio e raiva” (Ef 4.31, BLH).



A tentação da apostasia

A maior tentação do sofrimento é a perda dos padrões de fé e comportamento. Por causa da dor uma pessoa pode se desencaminhar moral e religiosamente, entregando-se ao álcool, às drogas, às orgias sexuais, à violência, ao crime e ao desregramento total. Não é à toa que o enorme abuso de drogas coincide com os sérios problemas do mundo de hoje. O raciocínio é simples: Deus falhou, deixando-nos sofrer, logo, também não temos compromisso com Ele.

Pior que a perda de padrões de comportamento, certamente é a perda dos padrões de fé. Nesta área duas coisas podem acontecer: o abandono do evangelho e o abandono de Deus. No primeiro caso, abandona-se a fé cristã e adere-se à outra doutrina, contrária à Palavra de Deus, como, por exemplo, ao espiritismo, que apresenta uma explicação ou teoria sobre o sofrimento humano, cujo fundamento dispensa a pessoa e a obra de Cristo. No segundo caso, abandona-se o próprio Deus e parte-se para a completa descrença: Deus não existe. No primeiro caso, comete-se mais propriamente uma heresia, que é a negação ou rejeição voluntária de uma ou mais afirmações da fé bíblica. No segundo caso, comete-se mais propriamente uma apostasia, que é o abandono total da fé bíblica.

Naturalmente esse processo é, às vezes, vagaroso. Começa com um sentimento de decepção com Deus e de revolta contra Ele. Em seguida surgem dúvidas cruciantes sobre o amor, o poder e a justiça de Deus. Nessa altura, o sofredor assenta-se na cadeira do juiz e coloca Deus no banco dos réus. Se as dúvidas não forem superadas, então o que vai restar é o completo abandono de Deus, uma espécie de suicídio espiritual.

Não obstante as muitas e variadas tentações do sofrimento, há uma série enorme de benefícios causados por ele. O rabino Joseph B. Soloveitchik lembra que “o sofrimento serve para enobrecer o homem, para eliminar de sua mente o orgulho e a superficialidade, para ampliar seus horizontes e reparar os defeitos de personalidade”. Já o teólogo luterano Erhard S. Gerstenberger, em seu livro Por que sofrer?, ensina que os sofrimentos querem que a atenção do sofredor seja voltada de si para Deus e do presente para o futuro, para a plenitude da salvação. Para C. S. Lewis, “o efeito redentor do sofrimento jaz principalmente em sua tendência a reduzir a vontade rebelde”. Sendo assim, é preciso vencer todas as tentações do sofrimento, com o auxílio daquele que exclamou: “No mundo vocês vão sofrer, mas tenham coragem. Eu venci o mundo.” (Jo 16.33, BLH).

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