Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Opinião

Quando a graça redefine a família: para além do modelo tradicional

Uma família redimida é aquela onde fragilidades se reconhecem e se acolhem

Por Clarice Ebert e Carlos José Hernández

Estamos acostumados a perceber o mundo de forma objetiva para definir estruturas e padrões de convivência, a garimpar causas para desmontar os efeitos, a importar modelos para obter sucesso. Assim também tendemos a determinar o que seria uma família mais ou menos saudável. No campo religioso cristão, estabelece-se, pelo mesmo filtro objetivo, o que seria uma família bíblica.

O modelo tradicional e sua construção cultural
Uma família bíblica, defendem alguns, seria a família tradicional: aquela onde há um homem que se assume como líder, provedor e sacerdote do lar; uma mulher que se submete a esse homem em suas decisões e orientações, dispondo-se ao auxílio em todas as esferas domésticas, afetivas e sexuais; e filhos que obedecem sem desregularem em questionamentos e sem se desviarem do caminho proposto pelos pais.

No entanto, a ideia de que existe um único modelo “correto” é uma construção moderna objetiva, especialmente reforçada nos séculos 19 e 20, com o ideal burguês de família nuclear. Assim, o modelo gerencialista de família, proposto na família tradicional conservadora,não foi estabelecido por uma ordem bíblica. Ele foi desenhado pela cultura ocidental e não surge por acaso, pois cumpre funções sociais específicas. Como, por exemplo:
a) garantir que os bens da família fossem transmitidos a descendentes masculinos “legítimos”;
b) organizar o trabalho economicamente – homens no trabalho produtivo externo e mulheres no trabalho reprodutivo e doméstico;
c) promover estabilidade política – famílias patriarcais formavam a base de sociedades hierárquicas maiores, onde o “pai” era um microgovernante e o rei era o “pai” da nação;
d) promover controle social e moral – a submissão feminina e a obediência infantil eram vistas como necessárias para manter ordem e previsibilidade.

Essa estrutura obteve um robusto reforço religioso, e muitas tradições antigas e medievais a sacralizaram, dando-lhe caráter divino. Essa sacralização também foi adotada pelo cristianismo, que, numa teologização e espiritualização da cultura, propagou essa estrutura gerencialista de família como o modelo bíblico.

Famílias da Bíblia: diversidade, fragilidade e graça
No entanto, quando visitamos as famílias da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, encontramos famílias em estruturas diversas. E, mesmo assim, a graça divina permeia suas convivências.

Isso nos leva a perceber que uma família segundo o coração de Deus não seria aquela que se encaixa em uma estrutura específica. Caso fosse, bastaria ficar bonita na foto. Uma família bíblica não se revela pela sua estrutura, mas pela redenção que a alcança.

A redenção pode alcançar qualquer estrutura familiar. Sem ela, mesmo a família considerada tradicional pode se mostrar disfuncional e até mesmo nada bíblica. Sem a redenção, qualquer família está fadada a se alienar numa “lata”, deixando de experimentar a graça divina das Escrituras.

Os sofrimentos e desafios familiares, bem como suas estruturas, são incalculavelmente diversos e precisam ser tratados com respeito, acolhimento e, a exemplo de Jesus, com muita compaixão.



Genealogias e Patriarcas: a Bíblia não uniformiza famílias
Os modelos familiares bíblicos não se restringem a um único formato. Vemos isso quando visitamos as famílias listadas na genealogia de Jesus, por exemplo. Temos famílias parecidas com o modelo tradicional proposto, mas também temos:
- a família de Rute e Noemi (entre estrangeiros, com diferenças de crenças e costumes);
- a de Raabe (uma prostituta que vivia em um muro, rejeitada por todos);
- a de Davi (com poligamia, incesto, assassinato, adultério);
- a de José e Maria (uma virgem grávida e um homem solteiro que a aceita e aceita cuidar do filho dela; quando Jesus nasceu, eles já estavam juntos e ainda não eram casados).

E se fôssemos visitar as famílias dos patriarcas? A poligamia era norma nelas. Temos a família de Abraão e a de Jacó, com mais de uma esposa e muitos filhos.

Não basta dizer que Deus nunca aprovou essas estruturas familiares diferentes, apenas permitiu, e que quando a graça dele visitou essas famílias, ele as transformou. Sem dúvida, a graça as transformou, mas as estruturas não foram desmontadas. Os patriarcas continuaram com suas esposas e filhos.

Da mesma forma, nos dias atuais, temos muitas famílias cristãs que não estão numa configuração como a família considerada “tradicional”. E, mesmo assim, a graça as alcança e podem ser chamadas “família” também.

A família redimida: espaço de doação e cura
Uma família redimida não é aquela que se encaixa na imagem de família tradicional conservadora, mas é aquela que se transforma em espaço de doação, de cuidado da vida, onde fragilidades se reconhecem e se acolhem. O casal se doa primeiro, rendendo-se ao amor que aprofunda a intimidade. Depois, os pais se oferecem aos filhos em acolhimento, aceitação e cuidados. Em seguida, os filhos honram seus pais, não por obrigação, mas por liberdade. Mesmo em conversas difíceis, filhos jamais deveriam insultar seus pais. E, finalmente, os irmãos se doarão em comunhão, anulando competições e mantendo casas e corações abertos.

A família que cuida da vida tem uma essência curativa, similar à biologia que regenera as feridas do corpo. Um corte na pele, por exemplo, passa por uma coreografia silenciosa de cicatrização. Logo após o corte, o corpo “desperta” as suas defesas, depois produz colágeno, novos vasos sanguíneos e novo tecido. A ferida começa a se fechar pelas bordas por algo que atua por dentro. É como se o corpo costurasse a si mesmo.

Assim, a essência curativa da família está na vida que cuida e que chega a ela inesgotavelmente por uma graça que é divina. Quando a família reencontra a graça da doação, ela volta a respirar. Não por ajustar-se à uma estrutura perfeita, mas pela vida que flui dela. Não é transacional, nem gerencialista, mas é donativa e transformadora.

Conclusão
A família bíblica não é um molde, mas um milagre. Não é uma forma fixa, mas um fluxo de graça. Não é uma estrutura perfeita, mas um espaço onde a vida se oferece, se cura e se renova. A redenção não exige uma configuração, ela cria um caminho. E, enquanto houver amor que se doa, haverá sempre um lugar chamado lar.

  • Clarice Ebert, psicóloga – CRP08/14038, terapeuta familiar e de casais, mestre em teologia, e Carlos José Hernández, médico psiquiatra, doutor em medicina. 

Imagem
: Rute, a moabita, por 
Hyatt Moore (@hyatt.moore.art) para a edição 376 de Ultimato. Uso exclusivo Ultimato.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”
Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.

Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.

É disso que trata a
edição 417. Para assinar, clique aqui.

Saiba mais:
» Acontece nas Melhores Famílias – Famílias da Bíblia à luz da terapia familiar, Carlos "Catito" Grzybowski e Jorge Maldonado
» A Bíblia - Um livro como nenhum outro, John Stott e Tim Chester
» Família, graças a Deus!, edição 365 de Ultimato

Leia mais em Opinião

Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.