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Opinião

Mindfulness: quando parar é um ato de sabedoria

Fazer e observar, agir e descansar, produzir e contemplar

Por Marcos Carvalho Elizeu Júnior

Poucas marcas definem tão bem o homem contemporâneo quanto o cansaço. Não se trata apenas de fadiga física, mas de um esgotamento mais profundo, que alcança a atenção, a vida emocional e o sentido da existência. A revolução industrial inaugurou uma nova relação com o tempo, organizada em torno da produtividade e do rendimento. A revolução tecnológica, por sua vez, levou essa lógica ao limite. Vivemos conectados, solicitados e disponíveis o tempo todo. A atenção humana tornou-se um recurso continuamente requisitado, fragmentado e, não raras vezes, exaurido.

O filósofo Byung-Chul Han descreve esse cenário como a passagem de uma sociedade marcada pela disciplina para uma sociedade do desempenho. Já não somos constrangidos por ordens externas; somos impulsionados por expectativas internalizadas. A pressão não vem apenas de fora, mas de dentro. Cada indivíduo se torna gestor de si mesmo, responsável por produzir, render e corresponder. Nesse contexto, o fracasso deixa de ser apenas um evento e passa a ser vivido como culpa pessoal. O resultado é uma cultura que adoece não por excesso de proibições, mas por excesso de exigências.

A neurociência ajuda a compreender por que esse modo de vida cobra um preço tão alto. O cérebro humano não foi projetado para manter atenção sustentada sobre múltiplas tarefas complexas de forma contínua. O chamado “multitarefa” é, na prática, uma alternância rápida de foco, que aumenta o desgaste cognitivo, eleva os níveis de estresse e compromete funções essenciais como memória, concentração e regulação emocional. Quando o organismo permanece por longos períodos em estado de alerta, como se estivesse sempre diante de uma ameaça, o corpo reage. Ansiedade, irritabilidade, insônia e esgotamento tornam-se experiências comuns.

O problema, no entanto, não está no trabalho, na tecnologia ou no avanço científico em si. Está na perda do ritmo. Está na dificuldade de parar. Está na ideia silenciosa de que descansar é improdutivo e de que silenciar é perder tempo. Nesse cenário, o ser humano se distancia de algo fundamental: a capacidade de estar presente.

Curiosamente, essa não é uma descoberta nova. Ao longo da história, diferentes tradições espirituais reconheceram a importância da atenção, do silêncio e da contemplação. No cristianismo, o deserto sempre foi lugar de encontro com Deus. Jesus se retirava para orar. Os salmos convidam ao silêncio interior: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. A tradição monástica desenvolveu práticas de oração contemplativa, como a lectio divina, que não visa produzir algo, mas permanecer diante da Palavra.



Em outras tradições, como o budismo e o hinduísmo, práticas meditativas foram desenvolvidas como formas de cultivar clareza, presença e integração da consciência. Apesar das diferenças profundas entre essas visões de mundo, há um ponto comum: a compreensão de que o ser humano não pode viver apenas no registro da ação incessante. Há um saber que nasce da pausa, da observação e da escuta.

Esse conhecimento, no entanto, foi sendo gradualmente ofuscado pela urgência moderna do fazer. Produzir passou a valer mais do que perceber. Agir, mais do que contemplar. Nesse deslocamento, perdeu-se o equilíbrio entre ação e presença, entre intervenção e silêncio.

É nesse contexto que o mindfulness passa a ser incorporado à psicologia contemporânea. A partir das décadas finais do século 20, pesquisadores como Jon Kabat-Zinn, médico e professor emérito da Universidade de Massachusetts, desenvolveram programas clínicos baseados em mindfulness para lidar com estresse, dor crônica e sofrimento emocional. Paralelamente, a psicóloga Ellen Langer, professora de Harvard, contribuiu para o campo ao apresentar uma compreensão do mindfulness voltada à flexibilidade cognitiva e à consciência ativa do contexto, como exposto em sua obra “Mindfulness” publicada em 1989.

Gradualmente, o mindfulness passou a integrar abordagens psicológicas consolidadas, especialmente as terapias cognitivo-comportamentais de terceira onda. Nesses modelos, ele não é entendido como técnica de relaxamento ou esvaziamento da mente, mas como um treino da atenção e da consciência. Seus princípios centrais são simples, embora profundos: observar a experiência como ela se apresenta e aceitá-la sem julgamento imediato.

Na prática clínica, essa postura tem se mostrado eficaz no manejo da ansiedade, na redução do pensamento ruminativo, na diminuição de comportamentos de fuga e no enfraquecimento de padrões compulsivos que surgem como tentativas de aliviar o sofrimento interno. Ao aprender a observar pensamentos e emoções sem se confundir inteiramente com eles, o indivíduo amplia sua liberdade interna e sua capacidade de escolha.

As evidências científicas, nesse sentido, confirmam algo que a tradição já intuía: o ser humano não foi feito apenas para funcionar bem, entregar resultados e manter alta performance. Foi feito para perceber, significar e contemplar. A vida saudável não se sustenta em um único polo, mas no equilíbrio entre dimensões complementares: fazer e observar, agir e descansar, produzir e contemplar.

Nem sempre a solução está em intervir, corrigir ou modificar o mundo. Em muitos momentos, ela está em permanecer, em sustentar a atenção, em apenas reconhecer e aceitar a realidade tal como ela é. A própria narrativa bíblica da criação revela um ritmo que alterna ação e descanso, ímpeto e serenidade, palavra e silêncio.

O mindfulness nos convida a repensar a própria ideia de conhecimento. A modernidade privilegiou, com grande êxito científico, a análise objetiva da realidade. No entanto, há formas de saber que não se esgotam na explicação ou na mensuração. Há um conhecimento que nasce da presença atenta, da contemplação e da experiência vivida.

Conhecer não é apenas investigar e modificar o mundo material ou psíquico, mas também habitá-lo. Não é apenas transformar, mas reconhecer. Nesse sentido, o mindfulness pode ser compreendido não como uma novidade exótica, mas como a redescoberta de uma sabedoria antiga: a de que parar, silenciar e prestar atenção também são formas profundas de compreender a realidade — e de cuidar da vida.

Este artigo é um diálogo com o artigo Contemplating tomorrow: The future of mindfulness Rethinking mindful science in an age of noise and uncertainty, de Roger Bretherton - Psicólogo Clínico. Disponível aqui.

  • Marcos Carvalho Elizeu Júnior, psicólogo clínico, especializado em psicologia cognitiva e psicologia da personalidade, escritor e palestrante. Pesquisador no Centro de Estudos em Espiritualidade Orientado para Relacionamentos (CEETRO). Membro do Laboratório de Psicologia Hospitalar e Neuropsicologia da UFMG, da Equipe Heaven e host do Luminus Podcast. Congrega na Igreja Esperança em Belo Horizonte.

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Unsplash.


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