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04 de maio de 2026- Visualizações: 243
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A fé que aprendi com minha mãe
Ela me ensinou a amar a Cristo vivendo uma vida que só fazia sentido porque Cristo estava no centro dela
Por Medson Barreto
Era madrugada. Todos da casa dormiam. A menina de dez anos levantou-se, caminhou pelos cômodos na ponta dos pés e abriu a porta da frente. Atravessou a rua, entrou pela porta dos fundos de uma igreja vazia e escolheu um canto discreto. Se ajoelhou. Por duas horas, contou a Deus todos os seus problemas: os acessos do pai, ora carinhoso, ora violento com ela e os irmãos; a saúde frágil da mãe; a pobreza da família. Acreditava que Deus podia atendê-la. Tinha fé. E fazia aquilo todos os dias.
Essa menina é minha mãe.
Maria Barros cresceu entre o interior do Paraná e Minas Gerais, sobreviveu a uma infância e adolescência difícil, casou-se, teve dois filhos e ficou viúva aos 37 anos, quando eu tinha apenas um ano e onze meses. Ela nos criou sozinha, sustentando nossa família com uma barraca de camelô no centro de Belo Horizonte. Ao longo dos anos, enfrentou endometriose com hemorragias que duraram quase uma década, depressão, e um problema na vesícula que evoluiu para cirrose, pancreatite e sepse. E, nesse meio tempo, fez algo que só décadas depois aprendi a chamar pelo nome: me discipulou.
Em Deuteronômio 6, Moisés instrui os pais a ensinarem a fé aos filhos “quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar.” A fé é transmitida no ritmo da vida, no ordinário de cada dia. Minha mãe entendia isso de modo instintivo. Depois do café da manhã, promovíamos o culto doméstico: canções, leitura da Bíblia, oração. Mesmo quando vinha de uma noite mal dormida, com o corpo ainda carregando o cansaço do dia anterior, fazia mesmo assim. Aquele era o modo como ela ordenava o mundo ao redor, nos mostrando, todos os dias, que havia um Deus real, próximo, digno de toda confiança.
Em muitas madrugadas, eu acordava e a encontrava passando mal, enfrentando uma crise de hemorragia, o corpo exausto. Mas o que eu ouvia, invariavelmente, era uma oração. Ela orava pelos filhos. Sem saber que eu estava acordado.

Aos treze anos, eu enfrentava bullying pesado na escola: agressões físicas, humilhações constantes. Vivia crises de identidade e uma depressão que eu ainda não sabia nomear. Precisava de um culpado para tudo. E escolhi minha mãe, como se ela fosse a responsável por cada dor que eu carregava. Cheguei em casa certa tarde e gritei: “Eu te odeio com toda a força do meu coração!”
Pensei que fosse me castigar. Mas ela se aproximou, segurou meu braço com carinho e disse: “Venha cá, meu filho. Fale por que me odeia e eu vou dizer por que te amo”. Desabei a chorar. Ela me ouviu, pediu perdão pelos erros que talvez tivesse cometido e me abraçou. Minha mãe se tornou, naquele momento, uma parábola viva do amor de Deus. Mais do que uma pregação ou um estudo bíblico, aprendi o que significa ser cristão, ao olhar para a vida daquela mulher.
Algum tempo depois, numa noite em que estava sozinho, orei: “Senhor, não consigo ter fé como a minha mãe tem. Me ajude a crer”. Não pedi a fé de Abraão. Pedi a fé daquela crente que eu via de perto, que sangrou e orou, e que me amou quando era odiada. O discipulado encarnado cria em você um desejo concreto: você não quer “ter fé” como algo abstrato. Você quer a fé que aprendeu com alguém.
Há algo que minha mãe me ensinou e que demorei anos para articular com palavras: a fé cristã, no fundo, é amar a uma pessoa: Cristo. Os cultos da manhã, as orações que eu ouvia de madrugada, o abraço naquela tarde, a perseverança mesmo enfrentando tantas enfermidades, tudo era expressão desse amor. Fui sendo formado por ele antes de entender o que estava recebendo. Ela nunca me transmitiu grandes conceitos teológicos. Me ensinou a amar a Cristo vivendo diante de mim uma vida que só fazia sentido porque Cristo estava no centro dela.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, visite a loja Ultimato aqui.
Saiba mais:
» O Discípulo Radical, John Stott
» A Pessoa Mais Importante do Mundo, Elben César
» As 8 marcas do discipulado cristão, segundo John Stott, por Gladston Cunha
» O que muda quando a gente vira mãe?, por Liz Valente
Por Medson Barreto
Era madrugada. Todos da casa dormiam. A menina de dez anos levantou-se, caminhou pelos cômodos na ponta dos pés e abriu a porta da frente. Atravessou a rua, entrou pela porta dos fundos de uma igreja vazia e escolheu um canto discreto. Se ajoelhou. Por duas horas, contou a Deus todos os seus problemas: os acessos do pai, ora carinhoso, ora violento com ela e os irmãos; a saúde frágil da mãe; a pobreza da família. Acreditava que Deus podia atendê-la. Tinha fé. E fazia aquilo todos os dias.Essa menina é minha mãe.
Maria Barros cresceu entre o interior do Paraná e Minas Gerais, sobreviveu a uma infância e adolescência difícil, casou-se, teve dois filhos e ficou viúva aos 37 anos, quando eu tinha apenas um ano e onze meses. Ela nos criou sozinha, sustentando nossa família com uma barraca de camelô no centro de Belo Horizonte. Ao longo dos anos, enfrentou endometriose com hemorragias que duraram quase uma década, depressão, e um problema na vesícula que evoluiu para cirrose, pancreatite e sepse. E, nesse meio tempo, fez algo que só décadas depois aprendi a chamar pelo nome: me discipulou.
Em Deuteronômio 6, Moisés instrui os pais a ensinarem a fé aos filhos “quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar.” A fé é transmitida no ritmo da vida, no ordinário de cada dia. Minha mãe entendia isso de modo instintivo. Depois do café da manhã, promovíamos o culto doméstico: canções, leitura da Bíblia, oração. Mesmo quando vinha de uma noite mal dormida, com o corpo ainda carregando o cansaço do dia anterior, fazia mesmo assim. Aquele era o modo como ela ordenava o mundo ao redor, nos mostrando, todos os dias, que havia um Deus real, próximo, digno de toda confiança.
Em muitas madrugadas, eu acordava e a encontrava passando mal, enfrentando uma crise de hemorragia, o corpo exausto. Mas o que eu ouvia, invariavelmente, era uma oração. Ela orava pelos filhos. Sem saber que eu estava acordado.

Aos treze anos, eu enfrentava bullying pesado na escola: agressões físicas, humilhações constantes. Vivia crises de identidade e uma depressão que eu ainda não sabia nomear. Precisava de um culpado para tudo. E escolhi minha mãe, como se ela fosse a responsável por cada dor que eu carregava. Cheguei em casa certa tarde e gritei: “Eu te odeio com toda a força do meu coração!”
Pensei que fosse me castigar. Mas ela se aproximou, segurou meu braço com carinho e disse: “Venha cá, meu filho. Fale por que me odeia e eu vou dizer por que te amo”. Desabei a chorar. Ela me ouviu, pediu perdão pelos erros que talvez tivesse cometido e me abraçou. Minha mãe se tornou, naquele momento, uma parábola viva do amor de Deus. Mais do que uma pregação ou um estudo bíblico, aprendi o que significa ser cristão, ao olhar para a vida daquela mulher.
Algum tempo depois, numa noite em que estava sozinho, orei: “Senhor, não consigo ter fé como a minha mãe tem. Me ajude a crer”. Não pedi a fé de Abraão. Pedi a fé daquela crente que eu via de perto, que sangrou e orou, e que me amou quando era odiada. O discipulado encarnado cria em você um desejo concreto: você não quer “ter fé” como algo abstrato. Você quer a fé que aprendeu com alguém.Há algo que minha mãe me ensinou e que demorei anos para articular com palavras: a fé cristã, no fundo, é amar a uma pessoa: Cristo. Os cultos da manhã, as orações que eu ouvia de madrugada, o abraço naquela tarde, a perseverança mesmo enfrentando tantas enfermidades, tudo era expressão desse amor. Fui sendo formado por ele antes de entender o que estava recebendo. Ela nunca me transmitiu grandes conceitos teológicos. Me ensinou a amar a Cristo vivendo diante de mim uma vida que só fazia sentido porque Cristo estava no centro dela.
- Medson Barreto é escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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» A Pessoa Mais Importante do Mundo, Elben César
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