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Opinião

O conflito sobre as caricaturas de Maomé: uma análise


Dom Robinson Cavalcanti

Um jornal da Dinamarca publicou no ano passado uma série de caricaturas (“charges”) consideradas desrespeitosas ao Islamismo, e, em particular, ao seu profeta Maomé. Os desenhos satíricos foram reproduzidos por veículos da imprensa de outros países, notadamente europeus ocidentais. A sua divulgação provocou reações de massas em países de maioria islâmica, e entre imigrantes seguidores daquela religião na Europa. Algumas dessas manifestações foram de caráter violento, resultando, inclusive, em várias mortes. Relações diplomáticas foram afetadas, relações comerciais foram suspensas, em crescentes expressões de sentimentos não apenas anti-dinamarqueses, mas anti-ocidentais, e, eventualmente, anticristãos. Apesar da repressão policial e do apelo de líderes religiosos, o episódio tem sido marcante, não esgotou os seus desdobramentos, e tem feito vir à tona questões históricas não-resolvidas, questões conjunturais não-aceitas, e diferenças profundas não só entre o Islã e o Cristianismo, mas, acima de tudo entre o Ocidente e o Islamismo como Civilizações. Em um mundo globalizado, de comunicações instantâneas, vão desaparecendo as “questões locais”. Tudo afeta a todos, e os problemas também são globalizados, embora o encaminhamento das suas soluções nem sempre o sejam.

Em 1993, a revista Foreign Affairs publicou um artigo provocativo intitulado “O Choque das Civilizações?”, de autoria de Samuel P. Huntington, professor de Relações Internacionais na Universidade de Harvard, EUA, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional da Administração Jimmy Carter, e presidente da Associação Americana de Ciência Política. O texto obteve a mais ampla repercussão. Em 1966, Huntington o ampliou e o transformou em um livro: O Choque das Civilizações e a Reconstrução da Ordem Mundial (Editora Simon & Schuster), considerada a obra analítica de relações internacionais de maior impacto em nosso tempo. Nela o autor aponta para o eclipse das antigas utopias (de bases econômicas), o fim da Guerra Fria, o declínio do Ocidente, e o surgimento de uma nova Ordem Internacional multipolar e multicivilizacional, em que as identidades serão primordialmente culturais. Há um ressurgimento político e econômico do mundo não-ocidental, particularmente na Ásia e no espaço multicontinental (não somente árabe) do Islã. A área de maioria cristã ortodoxa oriental (Leste e Sudeste europeu) e a América Latina são portadores de características próprias. O próximo conflito mundial – na previsão do autor – não seria entre Estados ou Ideologias, mas entre Civilizações.

Huntington destaca que a ameaça da globalização à identidade de povos e indivíduos será respondida pela ênfase na Cultura. Um aspecto central de cada cultura – além da língua, dos costumes, valores e instituições – é a Religião (que, ao contrário das previsões racionalistas, não desapareceu), maiormente aquelas nítidas e de maior adesão consciente. Esse não seria o caso do Ocidente, mas das outras Culturas, inclusive de amplos setores da Cristandade do Hemisfério Sul. Um destaque pode ser dado ao item do capítulo IV, denominado de “La Revanche de Dieu” (A Revanche de Deus). Ele aponta para o fracasso do Racionalismo, e para as necessidades psicológicas, emocionais e sociais que têm concorrido para a revalorização da Religião em nossa era Pós-Moderna. Ele cita Ronald Dore:

“A atribuição de valor a uma religião tradicional, é a pretensão à paridade de respeito afirmada contra as outras “nações dominantes”, e, freqüentemente, simultaneamente, e mais proximamente, contra a classe dirigente local que abraçou os valores e o estilo de vida daquelas outras nações dominantes”.

Cita, ainda, William McNeill, para quem:

“Mais do que qualquer coisa, a reafirmação do Islã, qualquer que seja a sua forma mais sectária, significa o repúdio à influência européia e norte-americana sobre a sociedade local, sua política e sua moral”.

Ao que Huntington resume, em conclusão:

“Nesse sentido, o reavivamento das religiões não-ocidentais é a mais poderosa manifestação de anti-ocidentalismo nas sociedades não-ocidentais. Esse reavivamento não é a rejeição da modernidade; é a rejeição do Ocidente e da cultura secular, relativista e degenerada associada com o Ocidente”.

E é essa rejeição o que tem sido chamado de “Ocidentetoxificação” das sociedades não-ocidentais. Uma declaração de independência cultural em relação ao Ocidente, uma declaração com orgulho: “Nós seremos modernos, mas não queremos ser como vocês”.

A categoria Ocidente adotada se refere ao conjunto de países desenvolvidos do Norte da Europa e da América do Norte (incluindo-se, ainda, a Austrália e a Nova Zelândia) de maioria nominal Protestante, marcados por uma situação privilegiada na atual ordem internacional globalizada, e internamente, pela opulência, pelo consumismo, pela busca do prazer (neo-hedonismo), pelo secularismo, pelo racionalismo, pelo que um autor islâmico denominou de “desrespeito para com o sagrado”, com o abandono da Religião ou o seu confinamento à esfera meramente privada. Os Estados Democráticos de Direito Seculares do Ocidente se tornaram, de fato, agressivamente, em Estados Secularistas, e suas culturas, de fato, materialistas. Esse estado de coisas é o desdobramento último do fenômeno cultural do Iluminismo, de influência menor na Cristandade Oriental ou Latino-americana, e, mais débil ainda nas culturais asiáticas e no mundo islâmico.

Some-se a essas profundas diferenças de Civilização, as dolorosas experiências do Colonialismo e do Neo-Colonialismo, o apoio das potências ocidentais a regimes políticos autoritários e corruptos no mundo islâmico (mas que garantem o fornecimento do petróleo), a presença de bases militares, o apoio ao Sionismo secularizado do Estado de Israel (apenas 10% de religiosos), sem uma ação decisiva para solucionar a questão Palestina, com a pobreza e desesperança das massas, e teremos as condições dadas para o acirramento do “choque”.

O Islã (que tem alguns elementos judaicos e cristãos no seu conteúdo religioso) tem uma diferença histórica – para menos – de sete séculos em relação ao Cristianismo. Fenômenos como o Iluminismo lhe são estranhos, bem como a própria noção de separação entre Religião e Estado. Quando não são teocráticos, são, ao menos, teológicos em relação ao governo dos países da “Umma”, a sociedade dos fiéis. Nesse contexto, o sagrado é profundamente respeitado, e conceitos como “blasfêmia” ainda é parte das suas visões de mundo. Enquanto isso, a própria Dinamarca, por exemplo, tem uma cruz horizontal em sua bandeira e uma Igreja Estatal, a Luterana, à qual mais de 90% dos seus cidadãos pertencem (o que, para os Islâmicos, caracteriza um “país cristão”), mas que a freqüência aos cultos oscila, apenas, entre 1% e 4%, a Teologia Liberal domina a hierarquia da Igreja, e não somente o Estado oficializou o “casamento” entre homossexuais, mas a própria Igreja ordena os seus praticantes e “abençoa” as suas uniões, para choque e escândalo do mundo islâmico (e não só dele). As comunidades cristãs que vivem (algumas há dois mil anos) nos países islâmicos, começam já a sofrer retaliações, por associação com seus “irmãos” do Ocidente, havendo, de parte destes, reações, também violentas, onde sua presença é expressiva.

Os Ocidentais não conseguem entender uma Civilização onde o Sagrado seja tão levado a sério, e os Islâmicos não conseguem entender uma Civilização onde o Sagrado não é nada levado a sério. Não há, por outro lado, qualquer previsão plausível, a curto prazo, de uma “conversão” do Ocidente ou uma “secularização” de outras culturas, particularmente do Mundo Islâmico. O que mantém o impasse.

Um mundo globalizado, portanto, está a requerer, com urgência, também o conhecimento de informações globais, o conhecimento das “outras” Civilizações. A liberdade de imprensa não pode ser nem ilimitada, nem irresponsável, nem desrespeitosa, caso contrário um espiral de violência será inevitável. As tensões estão hoje, inclusive, no próprio coração da União Européia (que renegou qualquer referência histórica ao Cristianismo no Preâmbulo na sua Constituição proposta), e que, com baixíssimas taxas de natalidade, passa a depender cada vez mais da mão-de-obra estrangeira (inclusive de não-cristãos), em um novo caldeirão multicultural explosivo. Os Ocidentais parecem ainda não ter percebido que o mundo é maior, mais complexo e mais diversificado do que a sua Civilização Secularizada, e que não temos, ainda, um paradigma de convivência estabelecido.

O Brasil, pelo menos legalmente, garante tanto a liberdade de imprensa quanto a liberdade religiosa, e criminaliza tanto a ofensa aos símbolos religiosos, quanto a ofensa à memória dos mortos. O poder e a manipulação da mídia é um dado preocupante, e, mais preocupante, ainda, é a crescente indiferença ou irreverência diante do Sagrado por parte das nossas elites dominantes, também cada vez mais ocidentalizadas.

A Bíblia nos adverte que quando os fiéis do Senhor não se posicionam, “as próprias pedras clamarão” (Lc.19:40b).

Todas as formas de violência – verbal, simbólica ou física – devem ser evitadas e condenadas, como método de resolução de conflito entre pessoas ou entre povos. O lamentável é reconhecer que a tarefa da Missão Integral e mundial da Igreja é debilitada e obstaculada pela abjuração dos povos que uma vez já confessaram a fé no Crucificado.

A nós resta sempre conhecer, avaliar adequadamente, interceder e intervir (e pagar o preço) no mundo para onde somos enviados como embaixadores do Reino de Deus.

Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br

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