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Opinião

Outra fogueira, Jesus, Pedro e eu

Tão difícil quanto admitir meu erro era receber o perdão que não pedi, mas tanto desejava

Por Affonso H. L. Zuin


Neguei conhecer Jesus algumas vezes ao longo da minha vida. Nunca o fiz por meio de declaração verbal, nem mesmo em pensamento, mas através de atitudes, ações ou omissões.

Após sua morte e ressurreição, Jesus, demonstrou uma atenção especial a Pedro, no desejo de o restaurar após as três vezes que negou ser seu discípulo ou ter estado com ele (Jo 18.17, 25-27).
Pedro recebeu o recado do anjo dado às mulheres (Mc16.7) sobre a ressurreição. Jesus apareceu individualmente a Pedro (Lc 24.34) e no cenáculo. Mas foi diante de outra fogueira que algo mais forte se passou.

No lugar de Pedro, a proximidade de Jesus e o calor daquela segunda fogueira me trariam frio na espinha, embrulho no estômago e rubor à face.

Eu não desejaria esse encontro – pelo menos daquela forma.

Seria tão mais fácil rever Jesus de longe, abrigado em meio a uma multidão, recebendo recados de terceiros ou em encontros rápidos. Eu sorriria, ficaria aliviado e seguiria minha vidinha com a sensação difusa de que o que eu havia feito não importava tanto mais, já que Jesus estava bem, ressurreto e aparecendo aqui e ali. A ferida, entretanto, continuaria lá dentro, ainda que encoberta com os afazeres da vida cotidiana, como a pesca.

Aquele encontro era necessário para Pedro e para mim também. Identifico-me com Pedro. Torno-me, por um pouco, ele próprio.



Quando criança levei muitos tombos e ralei os joelhos no chão inúmeras vezes. Nesses momentos, tratar a ferida era algo temido, que eu tentava adiar com frases como “não foi nada” e “está tudo bem”. Depois de passado o susto da queda, a temida lavagem era o início indispensável do tratamento.

Sou da época em que o antisséptico ardia – e acho que isso até fazia bem. Mesmo assim, a lavagem inicial parecia trazer mais desconforto que aquele remédio que tingia a pele. Mover as mãos que escondiam a parte ferida para que fosse lavada era um ato de coragem. Era a primeira admissão de que o “não foi nada” era mentira – uma metanoia rudimentar na minha mentalidade autossuficiente e infantil.

Mesmo quando as feridas passaram a ser menos frequentes na pele que na alma, o processo de cura continuou o mesmo, ainda que figurativamente. Minha alma ferida precisa ser lavada após suas quedas.

Esse encontro foi pessoal e íntimo, ainda que não solitário. Sem o frio daquela noite trágica em meio a estranhos que me perguntavam se eu o conhecia, o convite ao pão e ao peixe que assavam era um anúncio implícito do perdão. O que importava de fato era o tratamento que aconteceu diante da fogueira. Aquele a quem eu neguei me trouxe, junto com os meus mais próximos, o conforto de uma refeição após uma noite inteira de trabalho infrutífero.

Ele nunca perguntou por que o neguei, pois sabia melhor do que eu. Cada vez que Jesus perguntava se eu o amava, era um derrame de água sobre a ferida. Era uma recordação viva e dolorosa da ferida que se formou e então se desnudava. Cada resposta minha era um gemido e o resgate do amor latejante sob a úlcera, bem aquela que a terra do chão e minhas mãos por cima tentavam esconder. Tão difícil quanto admitir meu erro era receber o perdão que não pedi, mas tanto desejava.

E de que forma veio esse perdão?

Não através de um “eu perdoo você”, mas de algo muito mais incisivo: “cuide daqueles por quem eu dei minha própria vida”: vocação e comissão.

Separando-me de Pedro e voltando a ver-me no momento presente, enxergo minhas feridas, o tratamento acontecendo e o perdão a mim concedido. Vejo a prova desse perdão na tarefa de cuidar daqueles por quem Jesus morreu e hoje me cercam. Ele me confiou uma família, uma igreja, um trabalho, uma cidade e um planeta para amar e cuidar como ele próprio amou e por quem se entregou.

Dói muito perceber que falhar na resposta à minha vocação é exatamente como nego a Jesus, mas o alimento, a companhia e o cenário que ele me dá – o pão e o peixe sobre o braseiro, compartilhados com os que me amam e viver imerso na natureza que criou – fornecem a força de que preciso para prosseguir.

  • Affonso H. L. Zuin, casado com Débora, pai de Anne, Amanda e Dominic, presbítero na Igreja Presbiteriana de Viçosa (IPV), professor de paisagismo na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Viçosa, MG.

Imagem: Unsplash.
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Saiba mais:
» Os Últimos dias de Jesus – O que de fato aconteceu?, N. T. Wright; Craig A. Evans
» O Discípulo – Um chamado para ser como Cristo, John Stott e Tim Chester
» E depois da Páscoa?, por Luiz Fernando dos Santos
» Pedro Peixeiro, por Oséas Heckert

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