Opinião
28 de novembro de 2008- Visualizações: 3507
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Materialismo, um tiro pela culatra
Karl Heinz Kienitz
Desde meados do século 19, o cotidiano da sociedade ocidental tem se tornado cada vez mais complexo. Embora a especialização nas atividades profissionais e a explosão de inovações técnicas tenham facilitado o dia-a-dia, contribuindo para a redução de tempo e esforço dedicado a certas atividades, elas também têm levado, paradoxalmente, a uma aceleração do passo de vida das pessoas. A partir do século 20, essa complexidade tem se agravado por causa do acesso quase-instantâneo a avalanches de informações, serviços e entretenimento. Hoje, um típico cidadão ocidental percebe-se em agitação constante, num cenário intrincado, cujas minúcias mal compreende.
Além das reações organísmicas ao aumento da complexidade -- tais como as doenças relacionadas ao “stress” -- verifica-se também uma nítida reação intelectual, que co-define a tônica da sociedade moderna e pós-moderna. Trata-se da adoção (explícita ou tácita) de uma atitude materialista. De forma geral, tal materialismo não se caracteriza tanto por uma posição intelectual, e sim pela atitude de negar ou ignorar dimensões não-materiais no dia-a-dia. Uma atitude simplificadora, fundamentada na hipótese subjacente de que as dimensões ignoradas não seriam importantes.
A redução da dimensionalidade de representações é uma forma comum de simplificação, usada, por exemplo, numa aula de ciências em que explicamos um problema tridimensional de forma simplificada, usando figuras ou outras representações de duas dimensões. A terceira dimensão é omitida temporariamente para melhor enfatizar alguns aspectos fundamentais do problema ou de alguma solução. Porém, na consideração minuciosa, definitiva do assunto, a dimensão adicional torna a ser considerada. No materialismo, no entanto, as dimensões não-materiais “somem”.
O paralelo com a aula de ciências indica que o materialismo não é uma alternativa promissora, pois dimensões não-materiais podem não ser insignificantes. Num de seus textos mais antigos, a Bíblia diz: “Os tolos pensam assim: ‘Para mim, Deus não tem importância.’” (Salmo 53.1, NTLH). No Novo Testamento, o amor ao dinheiro -- uma típica manifestação materialista -- é rotulado de “fonte de todos os tipos de males” e causa de sofrimentos. Jesus pessoalmente convida ao alijamento de opções materialistas: “Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, eu lhes darei descanso”, e garante “deixo com vocês a minha paz; a minha paz lhes dou, não como o mundo costuma dar”. Ele também alerta para o efeito alienador do materialismo: “Outras pessoas são parecidas com as sementes que foram semeadas no meio dos espinhos. Elas ouvem a mensagem, mas as preocupações deste mundo e a ilusão das riquezas sufocam a mensagem, e essas pessoas não produzem frutos”.
Assim o materialismo, que acena com uma simplificação por meio de uma redução de dimensionalidade, acaba revelando sua verdadeira face: a de um tiro que sai pela culatra.
• Karl Heinz Kienitz é doutor em engenharia elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. (www.freewebs.com/kienitz)
Desde meados do século 19, o cotidiano da sociedade ocidental tem se tornado cada vez mais complexo. Embora a especialização nas atividades profissionais e a explosão de inovações técnicas tenham facilitado o dia-a-dia, contribuindo para a redução de tempo e esforço dedicado a certas atividades, elas também têm levado, paradoxalmente, a uma aceleração do passo de vida das pessoas. A partir do século 20, essa complexidade tem se agravado por causa do acesso quase-instantâneo a avalanches de informações, serviços e entretenimento. Hoje, um típico cidadão ocidental percebe-se em agitação constante, num cenário intrincado, cujas minúcias mal compreende. Além das reações organísmicas ao aumento da complexidade -- tais como as doenças relacionadas ao “stress” -- verifica-se também uma nítida reação intelectual, que co-define a tônica da sociedade moderna e pós-moderna. Trata-se da adoção (explícita ou tácita) de uma atitude materialista. De forma geral, tal materialismo não se caracteriza tanto por uma posição intelectual, e sim pela atitude de negar ou ignorar dimensões não-materiais no dia-a-dia. Uma atitude simplificadora, fundamentada na hipótese subjacente de que as dimensões ignoradas não seriam importantes.
A redução da dimensionalidade de representações é uma forma comum de simplificação, usada, por exemplo, numa aula de ciências em que explicamos um problema tridimensional de forma simplificada, usando figuras ou outras representações de duas dimensões. A terceira dimensão é omitida temporariamente para melhor enfatizar alguns aspectos fundamentais do problema ou de alguma solução. Porém, na consideração minuciosa, definitiva do assunto, a dimensão adicional torna a ser considerada. No materialismo, no entanto, as dimensões não-materiais “somem”.
O paralelo com a aula de ciências indica que o materialismo não é uma alternativa promissora, pois dimensões não-materiais podem não ser insignificantes. Num de seus textos mais antigos, a Bíblia diz: “Os tolos pensam assim: ‘Para mim, Deus não tem importância.’” (Salmo 53.1, NTLH). No Novo Testamento, o amor ao dinheiro -- uma típica manifestação materialista -- é rotulado de “fonte de todos os tipos de males” e causa de sofrimentos. Jesus pessoalmente convida ao alijamento de opções materialistas: “Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, eu lhes darei descanso”, e garante “deixo com vocês a minha paz; a minha paz lhes dou, não como o mundo costuma dar”. Ele também alerta para o efeito alienador do materialismo: “Outras pessoas são parecidas com as sementes que foram semeadas no meio dos espinhos. Elas ouvem a mensagem, mas as preocupações deste mundo e a ilusão das riquezas sufocam a mensagem, e essas pessoas não produzem frutos”.
Assim o materialismo, que acena com uma simplificação por meio de uma redução de dimensionalidade, acaba revelando sua verdadeira face: a de um tiro que sai pela culatra.
• Karl Heinz Kienitz é doutor em engenharia elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. (www.freewebs.com/kienitz)
Tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça. É professor de engenharia em São José dos Campos (SP). É editor do blog Fé e Ciência.
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Site: http://www.freewebs.com/kienitz/
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