Opinião
30 de outubro de 2026- Visualizações: 150
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Expiação – culpa, perdão e o sacrifício de Cristo – entrevista com Eleonore Stump
Entrevista
No final de junho de 2026 o quadro "Entre Mundus", da revista Unus Mundus, entrevistou a professora Eleonore Stump é uma das mais importantes filósofas contemporâneas da religião, com contribuições significativas nas áreas de filosofia medieval, especialmente o pensamento de Tomás de Aquino, metafísica e o problema do mal e do sofrimento.
Eleonore ocupa a Cátedra Robert J. Henle de Filosofia na Universidade de Saint Louis, onde leciona desde 1992. Formada em línguas clássicas pelo Grinnell College, com mestrado em estudos bíblicos pela Universidade Harvard e doutorado em filosofia medieval pela Universidade Cornell, Stump é autora de diversas obras influentes, entre elas, Wandering in Darkness (2010) e Atonement (2018), publicado no Brasil como Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo pela Editora Ultimato e ABC2, na série Filosofia e Fé Cristã.
A entrevista foi conduzida por Tiago Pereira, gerente editorial da revista Unus Mundus, que contou com a participação dos professores Gesiel da Silva e Rodrigo Silveira.
Gesiel Borges da Silva [GS] – Em seu livro Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo, a senhora discute o que chama de “a interpretação anselmiana” da doutrina da expiação. Um de seus objetivos é argumentar contra a interpretação anselmiana. Para orientar esta conversa, a senhora poderia oferecer uma breve exposição do que trata essa doutrina? Em que sentido ela foi uma inovação em sua época, quando comparada, por exemplo, aos Pais da Igreja ou aos autores cristãos do início da Idade Média?
Eleonore Stump [ES] – A noção de expiação é, obviamente, muito antiga, e ela não se limita ao cristianismo. É, sem dúvida, uma ideia importante no judaísmo, e análogos certamente podem ser encontrados, por exemplo, na cultura grega e também em outros lugares.
A ideia básica é que de alguma forma entre o poder divino sobrenatural – seja qual for a forma que ele assuma – e os seres humanos, existe algo que nos causa preocupação. Um dos aspectos mais interessantes da ideia hebraica de sacrifício, por exemplo, é que o propósito de trazer uma oferenda à divindade é radicalmente diferente do propósito de trazer uma oferenda à divindade em Homero, com os deuses pagãos.
Em Homero, o objetivo é tentar persuadir a divindade a fazer o que você quer que ela faça. No caso da noção hebraica de sacrifício, o propósito é ajudar a si mesmo a superar uma espécie de preocupação em relação ao seu relacionamento com a divindade. Isso pode ser visto mais claramente nos primeiros sacrifícios registrados nas escrituras hebraicas.
Noé, por exemplo, é chamado por Deus para preservar os animais em seu barco, para evitar que eles morram na destruição que se abaterá sobre o mundo. E ele faz assim até que o dilúvio termine. Quando sai do barco, ele mesmo mata alguns dos animais que preservou com tanto cuidado e os oferece como uma oferenda à divindade.
Ao oferecer uma dádiva e aguardar para ver se Deus a aceitará, a terrível preocupação dos seres humanos remanescentes, após a destruição de toda a vida como eles conheciam, poderia encontrar algum alívio. Essa interpretação da história é, obviamente, confirmada pela reação de Deus ao sacrifício. Deus diz a Noé: "Olha, não farei isso novamente. Foi algo que só aconteceu uma vez. Não farei isso novamente”.
Existe uma espécie de abismo entre seres humanos e o poder que governa o mundo e algo precisa ser feito a esse respeito e, também, é preciso haver alguma compreensão sobre o que causa o abismo. E aqui passamos para a noção cristã de expiação que, do período patrístico em diante, supõe que a fonte do abismo é o mal moral e os seres humanos, o que é constatado com muita clareza em Agostinho.
Não está claro se antes de Agostinho vamos localizar o problema na vontade ou no intelecto dos seres humanos. Mas quando chegamos a ele, nós já temos esse problema resolvido e, a partir desse ponto, o entendimento cristão básico é que o abismo entre Deus e os seres humanos é causado pela maldade inerente aos seres.
Quanto ao abismo, fundamentalmente, existem três explicações para o seu surgimento na história do cristianismo:
. a divindade. A ira de Deus, a justiça implacável de Deus, por exemplo.
. os seres humanos. Os desejos humanos se afastam da beleza e da santidade da divindade.
E para Anselmo havia ainda uma terceira explicação, atribuída por ele aos pais patrísticos, segundo os quais o problema era o diabo. O diabo criou esse abismo, e ninguém sabia como libertar os seres humanos de seu poder.
Houve, nos últimos tempos, um desafio na literatura que se perguntou se a ideia de Anselmo sobre a patrística seria de alguma forma correta. Mas nesta fase da nossa pesquisa sobre a patrística, nós não temos uma opinião predominante sobre o que a patrística realmente estava tentando dizer antes de Agostinho. No livro Expiação, eu simplesmente deixei a teoria patrística de lado uma vez que ainda não estamos em posição de entendê-la e, portanto, nem de avaliá-la. Com isso, resta-nos as outras duas opções para explicar o abismo entre os seres humanos e Deus: a divindade ou os seres humanos.
E Anselmo é responsável por uma explicação poderosamente influente da ideia de que o problema está na divindade. Deus, em sua justiça, honra, bondade não pode preencher a lacuna entre si e os seres humanos sem que algo seja feito para justificar os seres humanos, para aplacar a sua ira.
Dependendo a qual pensador nessa tradição específica nos referimos, obtemos diferentes interpretações a partir da ideia de Anselmo. Mas entre Anselmo e Calvino, por exemplo, existe um alto grau de concordância, e qual o grau de concordância é controverso?
É um assunto polêmico, mas eles pertencem ao mesmo grupo. Certamente houve muitas pessoas que pensaram que o único grupo que existia era esse, e que Tomás de Aquino também fazia parte dele, mas definitivamente não é esse o caso. Se você observar os detalhes da própria ideia de expiação de Tomás de Aquino, sem dúvida alguma, ele pensa que o problema que mantém os humanos separados de Deus reside nos seres humanos.
E esse é o problema que precisa, de alguma forma, ser resolvido, para que os seres humanos não permaneçam a uma distância infinita, da divindade. E o que é muito importante sobre essa discussão, é que nenhuma das respostas que foram dadas em resposta à pergunta "O que é a doutrina da expiação?" possui o status de credo.
Isto é, para a encarnação de Cristo existe a fórmula de Calcedônia, e isso é credal. Ela especifica o que é a doutrina da encarnação, e qualquer coisa fora desses estreitos limites é considerado herético. Não existe uma situação semelhante em relação à doutrina da expiação. Então, o que é credal?
É que de alguma forma Cristo resgatou os seres humanos da separação da divindade, mas tudo o que vier depois disso não é credal. Não há nenhuma especificação credal da doutrina da expiação, e isso significa que é possível discordar sobre os meios pelos quais Cristo resgatou a humanidade da separação de Deus.
É possível discordar sem afirmar que seu oponente é um herege, o que é bom. O que é inegociável se você é cristão é que Cristo, de alguma forma, resolveu o problema. O que é definitivamente negociável é a explicação sobre como isso aconteceu.
Rodrigo Silveira [RS] – Professora Eleonora, uma característica geral de seu trabalho é o engajamento constante com a história, a biografia, a literatura, a narrativa, e também com a psicologia e a neurociência. Qual a importância de fazer filosofia dessa maneira? E qual é o seu conselho sobre como fazer isso bem?
[ES] – Esta é uma pergunta difícil do meu ponto de vista, porque, na minha opinião, a resposta parece meio maluca. Qual a melhor maneira de se fazer filosofia? Conheça tudo. E como você conhece tudo? Simplesmente leia tudo.
Todas as ciências nos dão informações sobre o mundo em que vivemos, sobre nossa própria natureza como criaturas corpóreas, e assim nos impedem de filosofar de uma forma estúpida.
Aqui está um exemplo, houve um momento em que, no mundo de língua inglesa, os filósofos tinham uma questão que eles não sabiam como responder. E o argumento dizia que era impossível aprender um idioma, porque, em princípio, você nunca sabe a que o professor de um idioma está se referindo.
Uma mãe segura uma criança e diz: "Cachorro, cachorro." E a criança não tem como saber se a mãe está apontando para o movimento, a cor, a substância etc e não consegue descobrir o que a vocalização "cachorro" está indicando. E claro, isso é ridículo, porque embora você não consiga descobrir como as crianças aprendem um idioma a partir dessa maneira de pensar, nós sabemos que elas aprendem.
O que sabemos é que estamos confusos sobre o que está acontecendo na interação entre uma mãe e um filho, quando a mãe aponta e diz "cachorro" e a criança aprende o significado da palavra. Acontece que essa confusão é realmente significativa para todas as áreas da filosofia. A confusão negligencia todas essas fontes de cognição que são mediadas pelo lado direito do cérebro humano. E são muitas. São muitas capacidades cognitivas. E agora sabemos disso. Temos informações muito detalhadas sobre a engenharia neural que permite que as crianças "leiam a mente" de suas mães.
Então, não sei se existe uma palavra adequada em português que traduza "ler a mente". Mas na filosofia anglófona, "ler a mente" se tornou um termo técnico especializado. E refere-se à capacidade cognitiva humana de conhecer de forma intuitiva, perceptiva, o que outra pessoa está pensando e sentindo.
E é essa capacidade cognitiva, cuja engenharia neural agora entendemos melhor que nos permite comunicar uma linguagem às crianças, por exemplo.
Se não tivéssemos a neurociência, estaríamos perplexos sobre muitas coisas. Ficaríamos intrigados, por exemplo, com o que Martin Buber disse sobre a relação eu-tu com a divindade. Como você pode ter um relacionamento eu-tu com a divindade? Você foi programado para isso. É assim que a sua engenharia neural o coloca em condição de interação com uma segunda pessoa, com outras mentes. E você não precisa da percepção sensorial do outro para fazê-lo. Você pode obtê-lo por mensagem de texto, por exemplo.
Portanto, tudo o que sabemos sobre o mundo ao nosso redor nos ajuda a evitar erros na filosofia, e nos ajuda a encontrar o nosso caminho adiante na filosofia. E, obviamente, já que você não pode fazer tudo, surge a difícil questão: “Como você deve aprender? Como deve ler? Como deve organizar seu tempo de modo que ainda possa fazer, se não tudo, pelo menos o máximo que puder em termos de aprendizado nas ciências, na literatura, em teologia, na história do grande patrimônio intelectual cristão?”.
Minha recomendação é ser parcimonioso. Se não tem rios de dinheiro, você faz um orçamento, calcula quanto dinheiro tem, resolve em que quer gastar e planeja de acordo com isso. E pode fazer o mesmo com o tempo. Se não tem tanto tempo quanto precisa ou deseja para aprender tudo, pode calcular quanto tempo tem, descobrir onde o está desperdiçando, e como quer organizá-lo, de forma que o tenha disponível para estudar e aprender.

[GS] – Qual é o objetivo da expiação de Cristo? Qual é o objetivo quando Cristo morre, e morre por nós? Qual é a ideia central, e de que forma a sua resposta para esta pergunta interage com as respostas anteriores na história da filosofia?
[ES] – Ao responder à primeira pergunta no livro Expiação, passei muito tempo observando com muita atenção à resposta de Anselmo a ela. E o que eu afirmo é que a resposta de Anselmo é, provavelmente, a resposta mais comum e a mais difundida para essa questão.
A maioria dos cristãos hoje em dia assumem que essa seja a única resposta, sem ter a menor ideia de que alguma vez, na história do pensamento cristão, houve uma resposta diferente. E o que eu quero dizer sobre essa resposta de Anselmo é que ela é simplesmente irremediável. Ela não pode estar certa. Houve muitos ataques contra a resposta de Anselmo nas últimas décadas do pensamento teológico, e todos eles têm algo que vale a pena considerar.
Mas, do meu ponto de vista, o principal problema com a interpretação de Anselmo é que ela é incompatível com a doutrina de que Deus é amor, porque ela pressupõe que sem que algo fosse oferecido a Deus, Deus não estaria disposto a perdoar seres humanos. Deus não poderia estar unido aos seres humanos. E é isso que Cristo proporciona, aquilo de que Deus precisa. E, naturalmente, existem interpretações muito diversas sobre o que exatamente é isso que Cristo oferece a Deus.
Contudo, todas essas diferentes interpretações compartilham a mesma ideia: a menos que Deus tenha recebido isso por meio de Cristo, ele não se uniria aos seres humanos, seja porque não poderia, ou não quereria, ou ambos os motivos. E o que as escrituras cristãs dizem é que Deus é amor, e o seu amor é a sua própria natureza.
E o amor, em sua essência, consiste em dois desejos que interagem e se governam mutuamente: um para o bem do amado, não para o que o amado deseja, mas o que é verdadeiramente bom para ele, e a união com o amado. Esses são os desejos constitutivos do amor. Se Deus é amor, se Deus é perfeitamente amoroso, então esses dois desejos devem constituir a natureza de Deus, o caráter de Deus.
E se for assim, então o caso não pode ser que Deus não seria unido aos seres humanos sem que algo fosse dado a ele, porque, por sua natureza, não pode ser assim. Sua natureza é necessária a ele, é essencial a ele. Ele não pode fazer outra coisa senão o que está em sua natureza. E a sua natureza é o desejo de união, e o desejo pelo bem, que é união. No caso de Deus, com os dois desejos, chegamos à mesma conclusão.
Portanto, a interpretação de Anselmo da doutrina da expiação começou completamente equivocada. O problema que precisa ser resolvido não é um problema para Deus. É um problema para nós. Esse é o problema.
Geralmente dizemos, de forma educada, que o problema com a condição humana é que os seres humanos preferem seu próprio poder ou priorizam o próprio prazer em detrimento de um bem maior. Se você olhar para qualquer lugar do mundo hoje verá que o que os seres humanos fazem uns aos outros é tão cruel, o mal é tão chocante, que é difícil saber qual é a descrição correta de qual é o problema conosco.
E não importa onde você se encaixe, em qualquer posição no espectro político, essa imagem do ser humano está absolutamente em todo lugar. E, claramente, ninguém supõe, enquanto esse grau de maldade e crueldade for endêmico na alma humana, que um ser humano nessa condição possa ser unido a um Deus que é belo e santo, na medida em que o que se espera na tradição cristã é a união entre Deus e o ser humano. O que fica muito claro é que, a menos que algo seja feito em relação a nós, essa união é impossível.
Diante disso, surge a questão: “Se deixarmos Anselmo de lado e enxergarmos o problema não como um problema em Deus, mas como um problema nos seres humanos, o que resolveria esse problema?”.
Nada. E eis o porquê de a resposta parecer ser "nada". É evidente que Deus não pode resolver isso. Por quê? Porque se Deus desejasse, por sua vontade onipotente, que o ser humano também fosse belo e santo, então não haveria nada com que Deus pudesse se unir. Isso porque ele teria a vontade de Deus em si. E a vontade de Deus estaria também em Deus. E agora temos só uma vontade, em Deus e no ser humano. E não se pode fazer uma união de apenas uma vontade. Para uma união é preciso que haja duas vontades.
Portanto, Deus não pode resolver esse problema no ser humano. E aqui está a outra parte triste da história: O ser humano também não consegue resolver isso. E por quê? Porque para consertar isso, ele teria que desejar a beleza e a santidade. E seja lá o que possa pensar sobre si mesmo, garanto que não é isso que ele deseja.
Temos em Agostinho e em seu desejo de praticar o celibato o nosso mais famoso representante desse tipo de problema. Ele acreditava que o celibato era a única condição boa para si mesmo, e também acreditava que era uma condição com a qual não conseguiria viver.
Por isso, ele orou incessantemente: "Concedei-me o celibato, mas não agora! Não me dê isso agora". E essa é uma condição com a qual todos nós estamos muito familiarizados. Talvez não no que diz respeito ao celibato, mas com relação a algo como: "Dá-me a pessoa boa que eu quero ser, mas não agora". Porque neste momento eu preciso ter essas coisas que eu desejo, que me alegram, que me trazem conforto, e essas coisas não são compatíveis com beleza e santidade em mim. Você não pode consertar isso. Deus não pode resolver isso.
Então o que fazer? A resposta está na brilhante ideia de Tomás de Aquino. A resposta em que todos pensam, independentemente de qual seja sua opinião. Todos pensam que a resposta é a graça de Deus. Certo. E o que é a graça? Quando ela se manifesta? Como a graça de Deus pode ser a resposta para o problema?
Refletindo sobre isso, Agostinho disse: "Não sei como pode ser essa resposta. Eu sei o que eu não sei. Não me pergunte mais sobre isso. Não consigo entender". E ele não conseguiu entender porque na vontade humana existem apenas duas possibilidades: você pode querer aceitar ou rejeitar a graça de Deus. Mas é só isso. Se rejeita a graça de Deus, o problema não está resolvido. Se aceita a graça de Deus, então o problema está resolvido. Mas o ser humano não a aceitaria se já não desejasse ter a beleza e a santidade de todo coração. Então ele não consegue resolver o problema.
Tomás de Aquino ocupa uma terceira posição sobre o desejo, que explica como o problema no ser humano deve ser resolvido. Como Deus pode ajudar os seres humanos a alcançarem beleza e santidade, necessárias para a união com ele, sem simplesmente assumir o controle sobre eles?
A resposta é a rendição ou a aquiescência. E a minha maneira de explicar esta terceira posição para o desejo é a seguinte: Suponha que você e eu queiramos ser úteis nas comunidades onde vivemos no Missouri. Então, concordamos em ir juntos à clínica médica local e ajudar os médicos a vacinarem as crianças contra o sarampo. E você diz: "Eu tenho uma regra: não aplicarei a vacina em nenhuma criança que grite "Não, não, não"". E eu concordo: "Essa é uma boa regra. Eu também não vou maltratar nenhuma criança. Não farei isso". Então você diz: "Na verdade, tenho uma segunda regra: as únicas crianças em que aplicarei a vacina são as crianças que dizem: "Por favor, posso tomar a vacina?’”. Então, eu respondo: "Acho que essa é uma regra estúpida. Não vou adotar essa ideia". O que fica claro é que você e eu vamos vacinar um número muito diferente de crianças, porque entre as que gritam: "Não" e as que dizem: "Por favor, posso ser vacinada?" está a maioria das crianças. Elas simplesmente param de gritar "Não", se rendem e recebem a vacina.
E é isso que Aquino diz. Ele diz que Deus dá graça com a necessidade, mas sem compulsão. E isso parece ser uma distinção sem uma diferença, mas o que ele quer dizer é que Deus concede graça com causa formal, mas não com causa eficiente. E qual é a diferença? A causa eficiente empurra para fora uma configuração que já estava lá. Se uma criança grita "não" e você a força a dizer "sim", você exclui o "não" e insere um "sim". E isso é causalidade eficiente. E Tomás de Aquino diz que Deus jamais agirá no desejo por meio de causalidade eficiente.
Mas com a causa formal, a causalidade formal, o ser humano se rende, entra em estado de aquiescência, desliga o desejo. De modo que não há nenhuma forma ali, e então Deus pode dar a forma de um "sim" lá dentro, sem violar o desejo, sem cometer violência contra o seu "não". É esse entendimento de como Deus pode resgatar seres humanos pecadores.
A questão, então, se torna: “O que há de tão especial em Cristo? O que há de tão especial em sua paixão e morte que pode ajudar o ser humano a entrar na posição de rendição?”.
Nos Estados Unidos, estamos acostumados a pensar sobre esta questão a partir do alcoolismo. Temos os Alcoólicos Anônimos – a única abordagem bem-sucedida para o alcoolismo no mundo de língua inglesa. Eles dizem exatamente a mesma coisa: Para ser curado, é preciso se render. E para se render, é preciso chegar ao ponto em que você para de negar, de gritar "Não", e simplesmente aceita que precisa de ajuda.
Esse ponto de rendição, pode ser acompanhado da ajuda das pessoas ao redor, de outros alcoólicos anônimos, etc. Mas, basicamente, o que deve acontecer é o alcoólatra aceitar, se render.
Há muitos motivos pelos quais as pessoas não gostariam de se render à divindade para obter ajuda contra o mal que existe dentro de si. Quero dizer, por que pensar nisso em relação ao amor? Se Deus é amor, não seria lógico que todos desejassem ser amados? Não faria sentido que todos ficassem felizes em pensar que Deus é amor e deseja amá-los? Qual é o problema?
O problema é que ao abrir-se para o amor de Deus, o ser humano será visto por Deus exatamente como é. E poderá notar-se como é aos olhos de Deus e descobrir que é absolutamente insuportável. E então, é claro, Deus poderá ajudá-lo a ser a pessoa que ele realmente não quer ser, como o celibatário que Agostinho realmente não queria ser, embora ele também desejasse isso.
Em todos esses aspectos, o poder de Deus para ver, influenciar, moldar, fazem o ser humano pensar: "É melhor eu manter o controle da minha própria vida". O que Cristo nos oferece é a foto de um bebê recém-nascido, gerado em uma família de classe baixa e nascido em um estábulo com animais ao redor, sendo coagido a viajar no inverno por um imperador romano. O que nos é oferecido é alguém nu sendo torturado até a morte diante das pessoas que o amam, incluindo sua mãe.
O quanto o ser humano se comove pelo poder da divindade por meio desta imagem? E o quanto está inclinado a pensar que precisa cerrar o punho contra isso, para que não o domine nem o machuque? Ele é convidado a ver o amor não como onipotente, mas como fraco, indefeso e vulnerável por amor.
E embora isso não possa garantir uma rendição, quando ele pensa no que o motiva a dizer "Não, ainda não" à divindade, ele pode ver que a imagem do amor de Deus nessa história, apresentada nessas ações, no sofrimento vulnerável, é o melhor meio que alguém já pensou para superar o "não" que os humanos dão para a beleza da santidade de Deus. É possível ver isso perfeitamente nas tentações de Cristo.
Na primeira tentação, Satanás diz a Cristo: "Fale com esta pedra, e que ela seja transformada em pão”. Ele está sugerindo que Cristo resolva o problema da alienação humana da divindade alterando a natureza dos corações humanos com um comando, para que os corações humanos se tornem bons em vez de pedras, corações de pedra.
E Cristo recusa isso. Ainda bem, porque se escolhesse esse caminho, ele não teria o que Deus deseja. Ele teria a destruição daquilo que Deus deseja.
A próxima coisa que Satanás lhe sugere é: "Faça isso pelo poder. Faça isso pela força. Reúna todos os exércitos do mundo, torne-se uma espécie de analogia celestial suprema do imperador romano e mostre para as pessoas que todo o poder está do seu lado. E se eles querem estar do lado do poder, é melhor que façam exatamente o que você diz".
Sabemos que ao tentar unir poder e bondade, o resultado será pessoas que amam o poder. Não será possível fazer com que as pessoas amem a bondade. Essa também é uma estratégia muito ineficaz. E Cristo também diz não a isso.
A tentação final, a maior, é quando Satanás diz a Cristo: "Está bem, tudo bem, finja sofrer por amor a eles, mas não sofra de verdade. Caia de uma grande altura, mas deixe que os anjos o amparem antes que você caia".
E então teremos o docetismo, a heresia que diz que Cristo parecia ter sofrido pelos seres humanos. Mas ele detinha todo o poder, e ele não sofreu de verdade. Era apenas uma espécie de fraude piedosa para induzi-los à rendição. E Cristo diz não também a isso. Ele escolhe o sofrimento real para deixar claro o verdadeiro amor que Deus tem pelos seres humanos. É assim que ele faz.
Portanto, toda a obra é feita pela graça. Mas é uma graça que não toma o controle do seu desejo. Ela o satisfaz.
[RS] – No livro Expiação, a senhora afirma que existe uma obrigação moral de quem ama perdoar incondicionalmente o seu amado. E uma vez que Deus ama todas as pessoas, ele perdoa a todos, independentemente do arrependimento. Como, Deus pode perdoar e ainda assim punir as pessoas no julgamento final? E também, e quanto às passagens bíblicas que parecem implicar que o perdão de Deus é condicional ao nosso perdão para com os outros, (Mt 6.14-15; 18.21-35), o que poderia nos dizer?
[ES] – O perdão é uma expressão de amor. O perdão é o amor oferecido a alguém que fez algo errado. Então você fez algo errado contra alguém? Este alguém o perdoa. E ao perdoá-lo, ele deseja o que é bom para você. E ele quer estar unido a você. Isso é perdão.
Pensando assim, perdão é amor demonstrado a alguém que fez algo ruim contra você, certo? A questão é: “Como pode você querer algo bom para alguém mau e querer estar unido a ele e, ainda assim, puni-lo?”. E: “Qual é a sua visão sobre punição? Qual a sua opinião sobre punição?”.
Aqui está uma ilustração.
Estamos sentados à mesa de jantar com a família. E meu netinho, que na época desta história tinha apenas dois anos de idade, está comendo pizza, sua comida favorita. E sua família, que o ama muito, está toda ao seu redor. Em determinado momento do jantar, com tristeza e sofrimento, sua mãe lhe diz: "Johnny, se você jogar pizza no chão e bater em sua irmã mais uma vez, você não vai jantar e ficará em seu quarto sozinho”. O garotinho olha nos olhos da mãe, atira a pizza no chão e dá um tapa na irmã. Então, a mãe o pega no colo, carrega até o quarto, fecha a porta e nós ficamos sentados ali, na frente de uma pizza fria, ouvindo-o gritar. Isso é castigo. Isso é punição. E a questão é: “Será que a punição é compatível com o perdão e o amor?”. Claro! É a falta de punição que não é compatível com o perdão e o amor. Um rapazinho assim, desafiando a pessoa que o ama, machucando sua irmã, recusando a comida que lhe foi oferecida está a caminho de se tornar um verdadeiro delinquente. É melhor cortar o mal pela raiz antes que ele se torne um adolescente ou um jovem assaltando farmácias.
A essência da punição é ir contra a vontade da pessoa que está sendo punida. Você vai contra a vontade dele, primeiro porque ela é má, e em segundo lugar, porque você quer o bem dele. Você quer que ele seja o tipo de pessoa que pode ter à mesa de jantar sem precisar puni-lo. E a punição é a maneira de levá-lo a essa condição, se nada mais funcionar.
Na minha história, a mãe tenta uma pequena lição de moral primeiro. As lições de moral são normalmente muito ineficazes para reformar malfeitores, então, se a lição não funcionar, a punição é aplicada para que ele associe o ato contra a vontade com o mau comportamento.
A punição, por sua natureza, vai contra a vontade, mas ir contra a vontade pode ser uma bênção para a pessoa punida. É claro que, se a pessoa que irá punir é má, pode ser que a punição não seja compatível com o amor. Mas isso acontece porque ela está em desarmonia.
Porém, se a pessoa que irá punir é alguém que ama, ela pode fazê-lo na medida em que a punição seja medicinal para a pessoa que ela deseja ter em união novamente.
A resposta para a segunda parte de sua questão também é realmente maravilhosa. Repare como é peculiar a condição que está no evangelho. Deus o perdoará, se, e somente se, você perdoar o seu ofensor. Agora, não diga que se o seu ofensor não se arrepender, você pode simplesmente não o perdoar. Não há nenhuma condição imposta ao ofensor. Você precisa perdoá-lo, esteja ele arrependido ou não. O texto bíblico não diz que Deus vai perdoar seus pecados se você perdoar os pecados daqueles que se arrependeram das ofensas que cometeram contra você. Diz simplesmente que deve perdoar todos aqueles que pecaram contra você.
E observe que também não há condições para você. Você não precisa se arrepender dos seus pecados para que Deus o perdoe. Você só precisa perdoar os pecados de seu ofensor. E ele poderia permanecer sem se arrepender, e você poderia não se arrepender, e ainda assim poderia entrar no céu, contanto que o perdoasse. Então, a primeira coisa a notar sobre essa passagem nos Evangelhos é o quão estranha ela é.
A questão é: “Como devemos entender isso, agora que notamos como é difícil de entender a forma como nós entendemos?”. A resposta é a mesma que dei sobre a expiação: Deus é amor, e o amor é constituído por dois desejos: o bem e a união com o outro. E é isso que Deus reservou para cada um de seus filhos, sem exceção.
Para unir-se a Deus, você precisa ter o desejo que Deus deseja. Não é possível estar em comunhão com Deus se o seu desejo for contrário ao desejo dele. Deus deseja estar unido e deseja o bem à pessoa que o magoou. Este é o significado do perdão. Se essa for a sua atitude em relação ao ofensor, então o seu desejo estará alinhado com o desejo de Deus.
Deus pode perdoar os seus pecados porque você está em uma posição em que ele pode lhe dar o que é bom para você e conduzi-lo à união consigo mesmo. Por quê? Porque você está desejando o que ele deseja, e é assim que se deve pensar sobre isso.
[RS] – Muitas pessoas pensam em punição de forma retributiva, não de forma reformativa.
E o julgamento final, supostamente, é o fim. Então, supostamente não há mais chance para aqueles que vão para o inferno. Assim, como o inferno pode ser uma oportunidade para as pessoas entrarem em união com Deus, como, estando em união com Deus?
[ES] – Existem pessoas que são a favor da punição como forma de retribuição, e essas pessoas têm dois tipos diferentes de abordagens. Uma delas é que gostam de vingança. Podemos simplesmente deixar de lado essas pessoas porque elas querem ferir o outro mais do que o outro os feriu. E isso é simplesmente uma injustiça.
Mas existe uma linha de pensamento sobre punição retributiva que funciona mais ou menos assim: Quando alguém o machuca, ele não lhe causa simplesmente algum tipo de dano, mas altera seu status. Ele o rebaixa a ponto de você se tornar um ser humano menos valioso do que ele próprio. Ele o fere mais do que apenas o tipo específico de dano que ele lhe causa. Ele machuca você, diminui a sua dignidade, sua humanidade etc.
Neste caso, a punição retributiva restaura o equilíbrio entre você e ele, na medida em que por meio dela ele é rebaixado, e então parte da capacidade dele de rebaixá-lo é reparada. Essa é a ideia por trás desse tipo de punição retributiva. E é isso que eu quero dizer. Que, com certeza absoluta, qualquer punição verdadeira e justa terá esse efeito retributivo.
Na minha pequena história sobre meu neto e a pizza, ao ser retirado da mesa e levado para o quarto, o equilíbrio entre ele e sua irmã foi restaurado a uma condição mais justa. Ela não era mais sua vítima. Sua posição foi elevada pela redução do padrão dele ao receber a punição.
Portanto, na medida em que qualquer punição vá contra a vontade da pessoa punida, parte do que os punidores retributivos desejam está incluído na punição medicinal. Ou seja, a punição retributiva assume duas formas: Um tipo é injusto e o outro tipo está incluído nas punições medicinais.
Quanto à pergunta sobre inferno, é preciso entender que, na doutrina cristã ninguém jamais sai do inferno e nem melhora nele. Essa é a premissa da sua pergunta.
Mas há algo que é preciso observar, quem está no inferno pode piorar. Pense em Joseph Goebbels, que foi responsável por um mal horrível. Ou, talvez, em Albert Speer, o nazista alemão responsável pelo trabalho forçado nos campos de concentração onde foram produzidas munições para a máquina de guerra alemã. A expectativa média de vida nessas fábricas era de seis meses porque Albert Speer economizou dinheiro ao não ventilar as fábricas adequadamente, e as pessoas que respiravam os gases tóxicos que permanecia no ambiente não viviam mais do que seis meses. Não sei quanto a vocês, mas para mim esse é um mal tão avassalador que é difícil até mesmo de ouvir a descrição. Dói só de ouvir isso.
Albert Speer foi capturado pelas forças aliadas e julgado em Nuremberg. Ele foi humilhado perante o mundo inteiro e condenado à prisão por muitos anos. Depois, ele passou a se apresentar como um nazista arrependido, ministrou muitas palestras e escreveu livros sobre as atrocidades dos fascistas alemães. Se os alemães tivessem vencido a guerra e Speer não tivesse sido punido daquela forma, quais seriam as chances de ele algum dia tornar-se o nazista arrependido como ele se apresentava? Nenhuma. E se tivesse continuado no poder agindo com maldade, teria passado de uma pessoa horrível para alguém demoníaco. Ele teria piorado cada vez mais. A bênção da punição para pessoas como Albert Speer é que ela as impedem de piorar. Havia muita gente que achava que Speer não estava realmente arrependido. Que ele apenas fingiu. Talvez seja isso mesmo. Mas, mesmo fingindo arrependimento, isso foi muito melhor do que quando ele estava no poder.
No inferno, Deus recebe aqueles que poderiam continuar a declinar, a se desintegrar, a se deteriorar enquanto permanecem sentenciados, e ele os impede de se transformarem em um horror moral colocando-os em um lugar onde eles não podem mais causar danos a inocentes, e onde eles próprios são forçados a confrontar algo semelhante ao mal que criaram com suas vidas, tendo sobre eles mesmos algo do efeito que os julgamentos de Nuremberg tiveram sobre Speer.
E é nesse sentido que o inferno também é medicinal.
[GS] – O propósito de Deus é restaurar toda a criação e os humanos que nela vivem e, também, todo o universo. Como a expiação de Cristo aborda esse objetivo cosmológico?
[ES] – Quero começar dizendo que não sei. Não tenho uma boa resposta para explicar como a paixão e a morte de Cristo podem ajudar com as coisas erradas no mundo além de nós. Mas aqui está a resposta para a pergunta como eu mesma acredito: “Quem é o responsável por todos os outros problemas? Por que os animais sofrem?”. Eles atacam uns aos outros e fazem isso porque não têm comida, água, habitat ou porque estão sendo massacrados de uma forma cruel. Quer dizer, quem é o responsável por isso? Somos nós.
E não só porque maltratamos, mas também porque não cuidamos deles. O que Deus disse a Adão? "Você tem domínio sobre este mundo", e as pessoas traduzem essa palavra, "domínio", como se isso significasse: "Tudo é seu, e você pode fazer o que quiser com isso. Você é o rei disso. Você pode fazer o que quiser".
Mas essa é a noção de realeza que vai contra o amor de Deus. Um rei não é um rei se ele puder fazer o que quer. Ele é um tirano se ele puder fazer tudo o que quiser. Um rei governa para o bem daqueles sobre quem ele governa. E ter domínio sobre a criação é ser para a criação assim como você espera que Deus seja para você, buscando o seu bem e buscando a união com ele. E buscar o bem e a união com o mundo animal é tratar os animais de acordo com sua natureza. Isso inclui guiá-los, pastoreá-los para que eles não ataquem uns aos outros, e cuidar para que não sejamos a principal fonte de seu sofrimento.
Na medida em que algo muito semelhante pode ser dito sobre as partes imateriais. Ou melhor, as partes inanimadas da criação. Quem é responsável pela terrível degradação
da terra no Peru? É uma empresa sediada em Saint Louis que polui o solo com chumbo.
Portanto, à medida que a paixão e a morte de Cristo nos transformam em pessoas que desejam o que Deus deseja, a destruição do planeta e a crueldade colossal para com os animais também encontrarão uma solução.
Mas, dado que nós já arruinamos tudo, e agora? E essa é parte da resposta que eu não sei. O que as Escrituras prometem é que Deus criará um novo céu e uma nova terra. Não faço ideia do que isso significa, mas o que eu vejo é que nós não conseguimos consertar a bagunça que fizemos com a terra e os animais sem o poder divino. A destruição é avassaladora. Então, essa é a parte que não sei como responder.
REVISTA ULTIMATO – A VOCAÇÃO NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE
Além de serem alvos da mesma graça, idosos e jovens são chamados a frutificar. Juntos. Os jovens podem aprender com os mais velhos sobre fidelidade e resiliência. Podem ser despertados a dizer não a uma cultura pragmática e tecnocrata que empurra a sabedoria para fora. Os velhos podem ser contagiados pelo ânimo e energia dos mais jovens e ser agraciados com vínculos de amizade. Eles podem encontrar uma vocação, ou um propósito, ao servirem como pontes de amadurecimento e como mentores dos mais jovens. Ambos os grupos vivem entre “o já e o ainda não”. E isso molda a sua esperança.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 422. Conheça mais aqui.
Saiba mais:
» Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo, Eleonore Stump
» A Ética de Deus – Normas da Ação Divina e o Problema do Mal, Mark C. Murphy
» Culpa e Graça, Paul Tournier
» Minicurso Expiação
No final de junho de 2026 o quadro "Entre Mundus", da revista Unus Mundus, entrevistou a professora Eleonore Stump é uma das mais importantes filósofas contemporâneas da religião, com contribuições significativas nas áreas de filosofia medieval, especialmente o pensamento de Tomás de Aquino, metafísica e o problema do mal e do sofrimento.
Eleonore ocupa a Cátedra Robert J. Henle de Filosofia na Universidade de Saint Louis, onde leciona desde 1992. Formada em línguas clássicas pelo Grinnell College, com mestrado em estudos bíblicos pela Universidade Harvard e doutorado em filosofia medieval pela Universidade Cornell, Stump é autora de diversas obras influentes, entre elas, Wandering in Darkness (2010) e Atonement (2018), publicado no Brasil como Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo pela Editora Ultimato e ABC2, na série Filosofia e Fé Cristã.
A entrevista foi conduzida por Tiago Pereira, gerente editorial da revista Unus Mundus, que contou com a participação dos professores Gesiel da Silva e Rodrigo Silveira.
Gesiel Borges da Silva [GS] – Em seu livro Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo, a senhora discute o que chama de “a interpretação anselmiana” da doutrina da expiação. Um de seus objetivos é argumentar contra a interpretação anselmiana. Para orientar esta conversa, a senhora poderia oferecer uma breve exposição do que trata essa doutrina? Em que sentido ela foi uma inovação em sua época, quando comparada, por exemplo, aos Pais da Igreja ou aos autores cristãos do início da Idade Média?Eleonore Stump [ES] – A noção de expiação é, obviamente, muito antiga, e ela não se limita ao cristianismo. É, sem dúvida, uma ideia importante no judaísmo, e análogos certamente podem ser encontrados, por exemplo, na cultura grega e também em outros lugares.
A ideia básica é que de alguma forma entre o poder divino sobrenatural – seja qual for a forma que ele assuma – e os seres humanos, existe algo que nos causa preocupação. Um dos aspectos mais interessantes da ideia hebraica de sacrifício, por exemplo, é que o propósito de trazer uma oferenda à divindade é radicalmente diferente do propósito de trazer uma oferenda à divindade em Homero, com os deuses pagãos.
Em Homero, o objetivo é tentar persuadir a divindade a fazer o que você quer que ela faça. No caso da noção hebraica de sacrifício, o propósito é ajudar a si mesmo a superar uma espécie de preocupação em relação ao seu relacionamento com a divindade. Isso pode ser visto mais claramente nos primeiros sacrifícios registrados nas escrituras hebraicas.
Noé, por exemplo, é chamado por Deus para preservar os animais em seu barco, para evitar que eles morram na destruição que se abaterá sobre o mundo. E ele faz assim até que o dilúvio termine. Quando sai do barco, ele mesmo mata alguns dos animais que preservou com tanto cuidado e os oferece como uma oferenda à divindade.
Ao oferecer uma dádiva e aguardar para ver se Deus a aceitará, a terrível preocupação dos seres humanos remanescentes, após a destruição de toda a vida como eles conheciam, poderia encontrar algum alívio. Essa interpretação da história é, obviamente, confirmada pela reação de Deus ao sacrifício. Deus diz a Noé: "Olha, não farei isso novamente. Foi algo que só aconteceu uma vez. Não farei isso novamente”.
Existe uma espécie de abismo entre seres humanos e o poder que governa o mundo e algo precisa ser feito a esse respeito e, também, é preciso haver alguma compreensão sobre o que causa o abismo. E aqui passamos para a noção cristã de expiação que, do período patrístico em diante, supõe que a fonte do abismo é o mal moral e os seres humanos, o que é constatado com muita clareza em Agostinho.
Não está claro se antes de Agostinho vamos localizar o problema na vontade ou no intelecto dos seres humanos. Mas quando chegamos a ele, nós já temos esse problema resolvido e, a partir desse ponto, o entendimento cristão básico é que o abismo entre Deus e os seres humanos é causado pela maldade inerente aos seres.
Quanto ao abismo, fundamentalmente, existem três explicações para o seu surgimento na história do cristianismo:
. a divindade. A ira de Deus, a justiça implacável de Deus, por exemplo.
. os seres humanos. Os desejos humanos se afastam da beleza e da santidade da divindade.
E para Anselmo havia ainda uma terceira explicação, atribuída por ele aos pais patrísticos, segundo os quais o problema era o diabo. O diabo criou esse abismo, e ninguém sabia como libertar os seres humanos de seu poder.
Houve, nos últimos tempos, um desafio na literatura que se perguntou se a ideia de Anselmo sobre a patrística seria de alguma forma correta. Mas nesta fase da nossa pesquisa sobre a patrística, nós não temos uma opinião predominante sobre o que a patrística realmente estava tentando dizer antes de Agostinho. No livro Expiação, eu simplesmente deixei a teoria patrística de lado uma vez que ainda não estamos em posição de entendê-la e, portanto, nem de avaliá-la. Com isso, resta-nos as outras duas opções para explicar o abismo entre os seres humanos e Deus: a divindade ou os seres humanos.
E Anselmo é responsável por uma explicação poderosamente influente da ideia de que o problema está na divindade. Deus, em sua justiça, honra, bondade não pode preencher a lacuna entre si e os seres humanos sem que algo seja feito para justificar os seres humanos, para aplacar a sua ira.
Dependendo a qual pensador nessa tradição específica nos referimos, obtemos diferentes interpretações a partir da ideia de Anselmo. Mas entre Anselmo e Calvino, por exemplo, existe um alto grau de concordância, e qual o grau de concordância é controverso?
É um assunto polêmico, mas eles pertencem ao mesmo grupo. Certamente houve muitas pessoas que pensaram que o único grupo que existia era esse, e que Tomás de Aquino também fazia parte dele, mas definitivamente não é esse o caso. Se você observar os detalhes da própria ideia de expiação de Tomás de Aquino, sem dúvida alguma, ele pensa que o problema que mantém os humanos separados de Deus reside nos seres humanos.
E esse é o problema que precisa, de alguma forma, ser resolvido, para que os seres humanos não permaneçam a uma distância infinita, da divindade. E o que é muito importante sobre essa discussão, é que nenhuma das respostas que foram dadas em resposta à pergunta "O que é a doutrina da expiação?" possui o status de credo.
Isto é, para a encarnação de Cristo existe a fórmula de Calcedônia, e isso é credal. Ela especifica o que é a doutrina da encarnação, e qualquer coisa fora desses estreitos limites é considerado herético. Não existe uma situação semelhante em relação à doutrina da expiação. Então, o que é credal?
É que de alguma forma Cristo resgatou os seres humanos da separação da divindade, mas tudo o que vier depois disso não é credal. Não há nenhuma especificação credal da doutrina da expiação, e isso significa que é possível discordar sobre os meios pelos quais Cristo resgatou a humanidade da separação de Deus.
É possível discordar sem afirmar que seu oponente é um herege, o que é bom. O que é inegociável se você é cristão é que Cristo, de alguma forma, resolveu o problema. O que é definitivamente negociável é a explicação sobre como isso aconteceu.
Rodrigo Silveira [RS] – Professora Eleonora, uma característica geral de seu trabalho é o engajamento constante com a história, a biografia, a literatura, a narrativa, e também com a psicologia e a neurociência. Qual a importância de fazer filosofia dessa maneira? E qual é o seu conselho sobre como fazer isso bem?
[ES] – Esta é uma pergunta difícil do meu ponto de vista, porque, na minha opinião, a resposta parece meio maluca. Qual a melhor maneira de se fazer filosofia? Conheça tudo. E como você conhece tudo? Simplesmente leia tudo.
Todas as ciências nos dão informações sobre o mundo em que vivemos, sobre nossa própria natureza como criaturas corpóreas, e assim nos impedem de filosofar de uma forma estúpida.
Aqui está um exemplo, houve um momento em que, no mundo de língua inglesa, os filósofos tinham uma questão que eles não sabiam como responder. E o argumento dizia que era impossível aprender um idioma, porque, em princípio, você nunca sabe a que o professor de um idioma está se referindo.
Uma mãe segura uma criança e diz: "Cachorro, cachorro." E a criança não tem como saber se a mãe está apontando para o movimento, a cor, a substância etc e não consegue descobrir o que a vocalização "cachorro" está indicando. E claro, isso é ridículo, porque embora você não consiga descobrir como as crianças aprendem um idioma a partir dessa maneira de pensar, nós sabemos que elas aprendem.
O que sabemos é que estamos confusos sobre o que está acontecendo na interação entre uma mãe e um filho, quando a mãe aponta e diz "cachorro" e a criança aprende o significado da palavra. Acontece que essa confusão é realmente significativa para todas as áreas da filosofia. A confusão negligencia todas essas fontes de cognição que são mediadas pelo lado direito do cérebro humano. E são muitas. São muitas capacidades cognitivas. E agora sabemos disso. Temos informações muito detalhadas sobre a engenharia neural que permite que as crianças "leiam a mente" de suas mães.
Então, não sei se existe uma palavra adequada em português que traduza "ler a mente". Mas na filosofia anglófona, "ler a mente" se tornou um termo técnico especializado. E refere-se à capacidade cognitiva humana de conhecer de forma intuitiva, perceptiva, o que outra pessoa está pensando e sentindo.
E é essa capacidade cognitiva, cuja engenharia neural agora entendemos melhor que nos permite comunicar uma linguagem às crianças, por exemplo.
Se não tivéssemos a neurociência, estaríamos perplexos sobre muitas coisas. Ficaríamos intrigados, por exemplo, com o que Martin Buber disse sobre a relação eu-tu com a divindade. Como você pode ter um relacionamento eu-tu com a divindade? Você foi programado para isso. É assim que a sua engenharia neural o coloca em condição de interação com uma segunda pessoa, com outras mentes. E você não precisa da percepção sensorial do outro para fazê-lo. Você pode obtê-lo por mensagem de texto, por exemplo.
Portanto, tudo o que sabemos sobre o mundo ao nosso redor nos ajuda a evitar erros na filosofia, e nos ajuda a encontrar o nosso caminho adiante na filosofia. E, obviamente, já que você não pode fazer tudo, surge a difícil questão: “Como você deve aprender? Como deve ler? Como deve organizar seu tempo de modo que ainda possa fazer, se não tudo, pelo menos o máximo que puder em termos de aprendizado nas ciências, na literatura, em teologia, na história do grande patrimônio intelectual cristão?”.
Minha recomendação é ser parcimonioso. Se não tem rios de dinheiro, você faz um orçamento, calcula quanto dinheiro tem, resolve em que quer gastar e planeja de acordo com isso. E pode fazer o mesmo com o tempo. Se não tem tanto tempo quanto precisa ou deseja para aprender tudo, pode calcular quanto tempo tem, descobrir onde o está desperdiçando, e como quer organizá-lo, de forma que o tenha disponível para estudar e aprender.

[GS] – Qual é o objetivo da expiação de Cristo? Qual é o objetivo quando Cristo morre, e morre por nós? Qual é a ideia central, e de que forma a sua resposta para esta pergunta interage com as respostas anteriores na história da filosofia?
[ES] – Ao responder à primeira pergunta no livro Expiação, passei muito tempo observando com muita atenção à resposta de Anselmo a ela. E o que eu afirmo é que a resposta de Anselmo é, provavelmente, a resposta mais comum e a mais difundida para essa questão.
A maioria dos cristãos hoje em dia assumem que essa seja a única resposta, sem ter a menor ideia de que alguma vez, na história do pensamento cristão, houve uma resposta diferente. E o que eu quero dizer sobre essa resposta de Anselmo é que ela é simplesmente irremediável. Ela não pode estar certa. Houve muitos ataques contra a resposta de Anselmo nas últimas décadas do pensamento teológico, e todos eles têm algo que vale a pena considerar.
Mas, do meu ponto de vista, o principal problema com a interpretação de Anselmo é que ela é incompatível com a doutrina de que Deus é amor, porque ela pressupõe que sem que algo fosse oferecido a Deus, Deus não estaria disposto a perdoar seres humanos. Deus não poderia estar unido aos seres humanos. E é isso que Cristo proporciona, aquilo de que Deus precisa. E, naturalmente, existem interpretações muito diversas sobre o que exatamente é isso que Cristo oferece a Deus.
Contudo, todas essas diferentes interpretações compartilham a mesma ideia: a menos que Deus tenha recebido isso por meio de Cristo, ele não se uniria aos seres humanos, seja porque não poderia, ou não quereria, ou ambos os motivos. E o que as escrituras cristãs dizem é que Deus é amor, e o seu amor é a sua própria natureza.
E o amor, em sua essência, consiste em dois desejos que interagem e se governam mutuamente: um para o bem do amado, não para o que o amado deseja, mas o que é verdadeiramente bom para ele, e a união com o amado. Esses são os desejos constitutivos do amor. Se Deus é amor, se Deus é perfeitamente amoroso, então esses dois desejos devem constituir a natureza de Deus, o caráter de Deus.
E se for assim, então o caso não pode ser que Deus não seria unido aos seres humanos sem que algo fosse dado a ele, porque, por sua natureza, não pode ser assim. Sua natureza é necessária a ele, é essencial a ele. Ele não pode fazer outra coisa senão o que está em sua natureza. E a sua natureza é o desejo de união, e o desejo pelo bem, que é união. No caso de Deus, com os dois desejos, chegamos à mesma conclusão.
Portanto, a interpretação de Anselmo da doutrina da expiação começou completamente equivocada. O problema que precisa ser resolvido não é um problema para Deus. É um problema para nós. Esse é o problema.
Geralmente dizemos, de forma educada, que o problema com a condição humana é que os seres humanos preferem seu próprio poder ou priorizam o próprio prazer em detrimento de um bem maior. Se você olhar para qualquer lugar do mundo hoje verá que o que os seres humanos fazem uns aos outros é tão cruel, o mal é tão chocante, que é difícil saber qual é a descrição correta de qual é o problema conosco.
E não importa onde você se encaixe, em qualquer posição no espectro político, essa imagem do ser humano está absolutamente em todo lugar. E, claramente, ninguém supõe, enquanto esse grau de maldade e crueldade for endêmico na alma humana, que um ser humano nessa condição possa ser unido a um Deus que é belo e santo, na medida em que o que se espera na tradição cristã é a união entre Deus e o ser humano. O que fica muito claro é que, a menos que algo seja feito em relação a nós, essa união é impossível.
Diante disso, surge a questão: “Se deixarmos Anselmo de lado e enxergarmos o problema não como um problema em Deus, mas como um problema nos seres humanos, o que resolveria esse problema?”.
Nada. E eis o porquê de a resposta parecer ser "nada". É evidente que Deus não pode resolver isso. Por quê? Porque se Deus desejasse, por sua vontade onipotente, que o ser humano também fosse belo e santo, então não haveria nada com que Deus pudesse se unir. Isso porque ele teria a vontade de Deus em si. E a vontade de Deus estaria também em Deus. E agora temos só uma vontade, em Deus e no ser humano. E não se pode fazer uma união de apenas uma vontade. Para uma união é preciso que haja duas vontades.
Portanto, Deus não pode resolver esse problema no ser humano. E aqui está a outra parte triste da história: O ser humano também não consegue resolver isso. E por quê? Porque para consertar isso, ele teria que desejar a beleza e a santidade. E seja lá o que possa pensar sobre si mesmo, garanto que não é isso que ele deseja.
Temos em Agostinho e em seu desejo de praticar o celibato o nosso mais famoso representante desse tipo de problema. Ele acreditava que o celibato era a única condição boa para si mesmo, e também acreditava que era uma condição com a qual não conseguiria viver.
Por isso, ele orou incessantemente: "Concedei-me o celibato, mas não agora! Não me dê isso agora". E essa é uma condição com a qual todos nós estamos muito familiarizados. Talvez não no que diz respeito ao celibato, mas com relação a algo como: "Dá-me a pessoa boa que eu quero ser, mas não agora". Porque neste momento eu preciso ter essas coisas que eu desejo, que me alegram, que me trazem conforto, e essas coisas não são compatíveis com beleza e santidade em mim. Você não pode consertar isso. Deus não pode resolver isso.
Então o que fazer? A resposta está na brilhante ideia de Tomás de Aquino. A resposta em que todos pensam, independentemente de qual seja sua opinião. Todos pensam que a resposta é a graça de Deus. Certo. E o que é a graça? Quando ela se manifesta? Como a graça de Deus pode ser a resposta para o problema?
Refletindo sobre isso, Agostinho disse: "Não sei como pode ser essa resposta. Eu sei o que eu não sei. Não me pergunte mais sobre isso. Não consigo entender". E ele não conseguiu entender porque na vontade humana existem apenas duas possibilidades: você pode querer aceitar ou rejeitar a graça de Deus. Mas é só isso. Se rejeita a graça de Deus, o problema não está resolvido. Se aceita a graça de Deus, então o problema está resolvido. Mas o ser humano não a aceitaria se já não desejasse ter a beleza e a santidade de todo coração. Então ele não consegue resolver o problema.
Tomás de Aquino ocupa uma terceira posição sobre o desejo, que explica como o problema no ser humano deve ser resolvido. Como Deus pode ajudar os seres humanos a alcançarem beleza e santidade, necessárias para a união com ele, sem simplesmente assumir o controle sobre eles?
A resposta é a rendição ou a aquiescência. E a minha maneira de explicar esta terceira posição para o desejo é a seguinte: Suponha que você e eu queiramos ser úteis nas comunidades onde vivemos no Missouri. Então, concordamos em ir juntos à clínica médica local e ajudar os médicos a vacinarem as crianças contra o sarampo. E você diz: "Eu tenho uma regra: não aplicarei a vacina em nenhuma criança que grite "Não, não, não"". E eu concordo: "Essa é uma boa regra. Eu também não vou maltratar nenhuma criança. Não farei isso". Então você diz: "Na verdade, tenho uma segunda regra: as únicas crianças em que aplicarei a vacina são as crianças que dizem: "Por favor, posso tomar a vacina?’”. Então, eu respondo: "Acho que essa é uma regra estúpida. Não vou adotar essa ideia". O que fica claro é que você e eu vamos vacinar um número muito diferente de crianças, porque entre as que gritam: "Não" e as que dizem: "Por favor, posso ser vacinada?" está a maioria das crianças. Elas simplesmente param de gritar "Não", se rendem e recebem a vacina.
E é isso que Aquino diz. Ele diz que Deus dá graça com a necessidade, mas sem compulsão. E isso parece ser uma distinção sem uma diferença, mas o que ele quer dizer é que Deus concede graça com causa formal, mas não com causa eficiente. E qual é a diferença? A causa eficiente empurra para fora uma configuração que já estava lá. Se uma criança grita "não" e você a força a dizer "sim", você exclui o "não" e insere um "sim". E isso é causalidade eficiente. E Tomás de Aquino diz que Deus jamais agirá no desejo por meio de causalidade eficiente.
Mas com a causa formal, a causalidade formal, o ser humano se rende, entra em estado de aquiescência, desliga o desejo. De modo que não há nenhuma forma ali, e então Deus pode dar a forma de um "sim" lá dentro, sem violar o desejo, sem cometer violência contra o seu "não". É esse entendimento de como Deus pode resgatar seres humanos pecadores.
A questão, então, se torna: “O que há de tão especial em Cristo? O que há de tão especial em sua paixão e morte que pode ajudar o ser humano a entrar na posição de rendição?”.
Nos Estados Unidos, estamos acostumados a pensar sobre esta questão a partir do alcoolismo. Temos os Alcoólicos Anônimos – a única abordagem bem-sucedida para o alcoolismo no mundo de língua inglesa. Eles dizem exatamente a mesma coisa: Para ser curado, é preciso se render. E para se render, é preciso chegar ao ponto em que você para de negar, de gritar "Não", e simplesmente aceita que precisa de ajuda.
Esse ponto de rendição, pode ser acompanhado da ajuda das pessoas ao redor, de outros alcoólicos anônimos, etc. Mas, basicamente, o que deve acontecer é o alcoólatra aceitar, se render.
Há muitos motivos pelos quais as pessoas não gostariam de se render à divindade para obter ajuda contra o mal que existe dentro de si. Quero dizer, por que pensar nisso em relação ao amor? Se Deus é amor, não seria lógico que todos desejassem ser amados? Não faria sentido que todos ficassem felizes em pensar que Deus é amor e deseja amá-los? Qual é o problema?
O problema é que ao abrir-se para o amor de Deus, o ser humano será visto por Deus exatamente como é. E poderá notar-se como é aos olhos de Deus e descobrir que é absolutamente insuportável. E então, é claro, Deus poderá ajudá-lo a ser a pessoa que ele realmente não quer ser, como o celibatário que Agostinho realmente não queria ser, embora ele também desejasse isso.
Em todos esses aspectos, o poder de Deus para ver, influenciar, moldar, fazem o ser humano pensar: "É melhor eu manter o controle da minha própria vida". O que Cristo nos oferece é a foto de um bebê recém-nascido, gerado em uma família de classe baixa e nascido em um estábulo com animais ao redor, sendo coagido a viajar no inverno por um imperador romano. O que nos é oferecido é alguém nu sendo torturado até a morte diante das pessoas que o amam, incluindo sua mãe.
O quanto o ser humano se comove pelo poder da divindade por meio desta imagem? E o quanto está inclinado a pensar que precisa cerrar o punho contra isso, para que não o domine nem o machuque? Ele é convidado a ver o amor não como onipotente, mas como fraco, indefeso e vulnerável por amor.
E embora isso não possa garantir uma rendição, quando ele pensa no que o motiva a dizer "Não, ainda não" à divindade, ele pode ver que a imagem do amor de Deus nessa história, apresentada nessas ações, no sofrimento vulnerável, é o melhor meio que alguém já pensou para superar o "não" que os humanos dão para a beleza da santidade de Deus. É possível ver isso perfeitamente nas tentações de Cristo.
Na primeira tentação, Satanás diz a Cristo: "Fale com esta pedra, e que ela seja transformada em pão”. Ele está sugerindo que Cristo resolva o problema da alienação humana da divindade alterando a natureza dos corações humanos com um comando, para que os corações humanos se tornem bons em vez de pedras, corações de pedra.
E Cristo recusa isso. Ainda bem, porque se escolhesse esse caminho, ele não teria o que Deus deseja. Ele teria a destruição daquilo que Deus deseja.
A próxima coisa que Satanás lhe sugere é: "Faça isso pelo poder. Faça isso pela força. Reúna todos os exércitos do mundo, torne-se uma espécie de analogia celestial suprema do imperador romano e mostre para as pessoas que todo o poder está do seu lado. E se eles querem estar do lado do poder, é melhor que façam exatamente o que você diz".
Sabemos que ao tentar unir poder e bondade, o resultado será pessoas que amam o poder. Não será possível fazer com que as pessoas amem a bondade. Essa também é uma estratégia muito ineficaz. E Cristo também diz não a isso.
A tentação final, a maior, é quando Satanás diz a Cristo: "Está bem, tudo bem, finja sofrer por amor a eles, mas não sofra de verdade. Caia de uma grande altura, mas deixe que os anjos o amparem antes que você caia".
E então teremos o docetismo, a heresia que diz que Cristo parecia ter sofrido pelos seres humanos. Mas ele detinha todo o poder, e ele não sofreu de verdade. Era apenas uma espécie de fraude piedosa para induzi-los à rendição. E Cristo diz não também a isso. Ele escolhe o sofrimento real para deixar claro o verdadeiro amor que Deus tem pelos seres humanos. É assim que ele faz.
Portanto, toda a obra é feita pela graça. Mas é uma graça que não toma o controle do seu desejo. Ela o satisfaz.
[RS] – No livro Expiação, a senhora afirma que existe uma obrigação moral de quem ama perdoar incondicionalmente o seu amado. E uma vez que Deus ama todas as pessoas, ele perdoa a todos, independentemente do arrependimento. Como, Deus pode perdoar e ainda assim punir as pessoas no julgamento final? E também, e quanto às passagens bíblicas que parecem implicar que o perdão de Deus é condicional ao nosso perdão para com os outros, (Mt 6.14-15; 18.21-35), o que poderia nos dizer?[ES] – O perdão é uma expressão de amor. O perdão é o amor oferecido a alguém que fez algo errado. Então você fez algo errado contra alguém? Este alguém o perdoa. E ao perdoá-lo, ele deseja o que é bom para você. E ele quer estar unido a você. Isso é perdão.
Pensando assim, perdão é amor demonstrado a alguém que fez algo ruim contra você, certo? A questão é: “Como pode você querer algo bom para alguém mau e querer estar unido a ele e, ainda assim, puni-lo?”. E: “Qual é a sua visão sobre punição? Qual a sua opinião sobre punição?”.
Aqui está uma ilustração.
Estamos sentados à mesa de jantar com a família. E meu netinho, que na época desta história tinha apenas dois anos de idade, está comendo pizza, sua comida favorita. E sua família, que o ama muito, está toda ao seu redor. Em determinado momento do jantar, com tristeza e sofrimento, sua mãe lhe diz: "Johnny, se você jogar pizza no chão e bater em sua irmã mais uma vez, você não vai jantar e ficará em seu quarto sozinho”. O garotinho olha nos olhos da mãe, atira a pizza no chão e dá um tapa na irmã. Então, a mãe o pega no colo, carrega até o quarto, fecha a porta e nós ficamos sentados ali, na frente de uma pizza fria, ouvindo-o gritar. Isso é castigo. Isso é punição. E a questão é: “Será que a punição é compatível com o perdão e o amor?”. Claro! É a falta de punição que não é compatível com o perdão e o amor. Um rapazinho assim, desafiando a pessoa que o ama, machucando sua irmã, recusando a comida que lhe foi oferecida está a caminho de se tornar um verdadeiro delinquente. É melhor cortar o mal pela raiz antes que ele se torne um adolescente ou um jovem assaltando farmácias.
A essência da punição é ir contra a vontade da pessoa que está sendo punida. Você vai contra a vontade dele, primeiro porque ela é má, e em segundo lugar, porque você quer o bem dele. Você quer que ele seja o tipo de pessoa que pode ter à mesa de jantar sem precisar puni-lo. E a punição é a maneira de levá-lo a essa condição, se nada mais funcionar.
Na minha história, a mãe tenta uma pequena lição de moral primeiro. As lições de moral são normalmente muito ineficazes para reformar malfeitores, então, se a lição não funcionar, a punição é aplicada para que ele associe o ato contra a vontade com o mau comportamento.
A punição, por sua natureza, vai contra a vontade, mas ir contra a vontade pode ser uma bênção para a pessoa punida. É claro que, se a pessoa que irá punir é má, pode ser que a punição não seja compatível com o amor. Mas isso acontece porque ela está em desarmonia.
Porém, se a pessoa que irá punir é alguém que ama, ela pode fazê-lo na medida em que a punição seja medicinal para a pessoa que ela deseja ter em união novamente.
A resposta para a segunda parte de sua questão também é realmente maravilhosa. Repare como é peculiar a condição que está no evangelho. Deus o perdoará, se, e somente se, você perdoar o seu ofensor. Agora, não diga que se o seu ofensor não se arrepender, você pode simplesmente não o perdoar. Não há nenhuma condição imposta ao ofensor. Você precisa perdoá-lo, esteja ele arrependido ou não. O texto bíblico não diz que Deus vai perdoar seus pecados se você perdoar os pecados daqueles que se arrependeram das ofensas que cometeram contra você. Diz simplesmente que deve perdoar todos aqueles que pecaram contra você.
E observe que também não há condições para você. Você não precisa se arrepender dos seus pecados para que Deus o perdoe. Você só precisa perdoar os pecados de seu ofensor. E ele poderia permanecer sem se arrepender, e você poderia não se arrepender, e ainda assim poderia entrar no céu, contanto que o perdoasse. Então, a primeira coisa a notar sobre essa passagem nos Evangelhos é o quão estranha ela é.
A questão é: “Como devemos entender isso, agora que notamos como é difícil de entender a forma como nós entendemos?”. A resposta é a mesma que dei sobre a expiação: Deus é amor, e o amor é constituído por dois desejos: o bem e a união com o outro. E é isso que Deus reservou para cada um de seus filhos, sem exceção.
Para unir-se a Deus, você precisa ter o desejo que Deus deseja. Não é possível estar em comunhão com Deus se o seu desejo for contrário ao desejo dele. Deus deseja estar unido e deseja o bem à pessoa que o magoou. Este é o significado do perdão. Se essa for a sua atitude em relação ao ofensor, então o seu desejo estará alinhado com o desejo de Deus.
Deus pode perdoar os seus pecados porque você está em uma posição em que ele pode lhe dar o que é bom para você e conduzi-lo à união consigo mesmo. Por quê? Porque você está desejando o que ele deseja, e é assim que se deve pensar sobre isso.
[RS] – Muitas pessoas pensam em punição de forma retributiva, não de forma reformativa.
E o julgamento final, supostamente, é o fim. Então, supostamente não há mais chance para aqueles que vão para o inferno. Assim, como o inferno pode ser uma oportunidade para as pessoas entrarem em união com Deus, como, estando em união com Deus?
[ES] – Existem pessoas que são a favor da punição como forma de retribuição, e essas pessoas têm dois tipos diferentes de abordagens. Uma delas é que gostam de vingança. Podemos simplesmente deixar de lado essas pessoas porque elas querem ferir o outro mais do que o outro os feriu. E isso é simplesmente uma injustiça.
Mas existe uma linha de pensamento sobre punição retributiva que funciona mais ou menos assim: Quando alguém o machuca, ele não lhe causa simplesmente algum tipo de dano, mas altera seu status. Ele o rebaixa a ponto de você se tornar um ser humano menos valioso do que ele próprio. Ele o fere mais do que apenas o tipo específico de dano que ele lhe causa. Ele machuca você, diminui a sua dignidade, sua humanidade etc.
Neste caso, a punição retributiva restaura o equilíbrio entre você e ele, na medida em que por meio dela ele é rebaixado, e então parte da capacidade dele de rebaixá-lo é reparada. Essa é a ideia por trás desse tipo de punição retributiva. E é isso que eu quero dizer. Que, com certeza absoluta, qualquer punição verdadeira e justa terá esse efeito retributivo.
Na minha pequena história sobre meu neto e a pizza, ao ser retirado da mesa e levado para o quarto, o equilíbrio entre ele e sua irmã foi restaurado a uma condição mais justa. Ela não era mais sua vítima. Sua posição foi elevada pela redução do padrão dele ao receber a punição.
Portanto, na medida em que qualquer punição vá contra a vontade da pessoa punida, parte do que os punidores retributivos desejam está incluído na punição medicinal. Ou seja, a punição retributiva assume duas formas: Um tipo é injusto e o outro tipo está incluído nas punições medicinais.
Quanto à pergunta sobre inferno, é preciso entender que, na doutrina cristã ninguém jamais sai do inferno e nem melhora nele. Essa é a premissa da sua pergunta.
Mas há algo que é preciso observar, quem está no inferno pode piorar. Pense em Joseph Goebbels, que foi responsável por um mal horrível. Ou, talvez, em Albert Speer, o nazista alemão responsável pelo trabalho forçado nos campos de concentração onde foram produzidas munições para a máquina de guerra alemã. A expectativa média de vida nessas fábricas era de seis meses porque Albert Speer economizou dinheiro ao não ventilar as fábricas adequadamente, e as pessoas que respiravam os gases tóxicos que permanecia no ambiente não viviam mais do que seis meses. Não sei quanto a vocês, mas para mim esse é um mal tão avassalador que é difícil até mesmo de ouvir a descrição. Dói só de ouvir isso.
Albert Speer foi capturado pelas forças aliadas e julgado em Nuremberg. Ele foi humilhado perante o mundo inteiro e condenado à prisão por muitos anos. Depois, ele passou a se apresentar como um nazista arrependido, ministrou muitas palestras e escreveu livros sobre as atrocidades dos fascistas alemães. Se os alemães tivessem vencido a guerra e Speer não tivesse sido punido daquela forma, quais seriam as chances de ele algum dia tornar-se o nazista arrependido como ele se apresentava? Nenhuma. E se tivesse continuado no poder agindo com maldade, teria passado de uma pessoa horrível para alguém demoníaco. Ele teria piorado cada vez mais. A bênção da punição para pessoas como Albert Speer é que ela as impedem de piorar. Havia muita gente que achava que Speer não estava realmente arrependido. Que ele apenas fingiu. Talvez seja isso mesmo. Mas, mesmo fingindo arrependimento, isso foi muito melhor do que quando ele estava no poder.
No inferno, Deus recebe aqueles que poderiam continuar a declinar, a se desintegrar, a se deteriorar enquanto permanecem sentenciados, e ele os impede de se transformarem em um horror moral colocando-os em um lugar onde eles não podem mais causar danos a inocentes, e onde eles próprios são forçados a confrontar algo semelhante ao mal que criaram com suas vidas, tendo sobre eles mesmos algo do efeito que os julgamentos de Nuremberg tiveram sobre Speer.
E é nesse sentido que o inferno também é medicinal.
[GS] – O propósito de Deus é restaurar toda a criação e os humanos que nela vivem e, também, todo o universo. Como a expiação de Cristo aborda esse objetivo cosmológico?
[ES] – Quero começar dizendo que não sei. Não tenho uma boa resposta para explicar como a paixão e a morte de Cristo podem ajudar com as coisas erradas no mundo além de nós. Mas aqui está a resposta para a pergunta como eu mesma acredito: “Quem é o responsável por todos os outros problemas? Por que os animais sofrem?”. Eles atacam uns aos outros e fazem isso porque não têm comida, água, habitat ou porque estão sendo massacrados de uma forma cruel. Quer dizer, quem é o responsável por isso? Somos nós.
E não só porque maltratamos, mas também porque não cuidamos deles. O que Deus disse a Adão? "Você tem domínio sobre este mundo", e as pessoas traduzem essa palavra, "domínio", como se isso significasse: "Tudo é seu, e você pode fazer o que quiser com isso. Você é o rei disso. Você pode fazer o que quiser".
Mas essa é a noção de realeza que vai contra o amor de Deus. Um rei não é um rei se ele puder fazer o que quer. Ele é um tirano se ele puder fazer tudo o que quiser. Um rei governa para o bem daqueles sobre quem ele governa. E ter domínio sobre a criação é ser para a criação assim como você espera que Deus seja para você, buscando o seu bem e buscando a união com ele. E buscar o bem e a união com o mundo animal é tratar os animais de acordo com sua natureza. Isso inclui guiá-los, pastoreá-los para que eles não ataquem uns aos outros, e cuidar para que não sejamos a principal fonte de seu sofrimento.
Na medida em que algo muito semelhante pode ser dito sobre as partes imateriais. Ou melhor, as partes inanimadas da criação. Quem é responsável pela terrível degradação
da terra no Peru? É uma empresa sediada em Saint Louis que polui o solo com chumbo.
Portanto, à medida que a paixão e a morte de Cristo nos transformam em pessoas que desejam o que Deus deseja, a destruição do planeta e a crueldade colossal para com os animais também encontrarão uma solução.
Mas, dado que nós já arruinamos tudo, e agora? E essa é parte da resposta que eu não sei. O que as Escrituras prometem é que Deus criará um novo céu e uma nova terra. Não faço ideia do que isso significa, mas o que eu vejo é que nós não conseguimos consertar a bagunça que fizemos com a terra e os animais sem o poder divino. A destruição é avassaladora. Então, essa é a parte que não sei como responder.
REVISTA ULTIMATO – A VOCAÇÃO NÃO TEM PRAZO DE VALIDADEAlém de serem alvos da mesma graça, idosos e jovens são chamados a frutificar. Juntos. Os jovens podem aprender com os mais velhos sobre fidelidade e resiliência. Podem ser despertados a dizer não a uma cultura pragmática e tecnocrata que empurra a sabedoria para fora. Os velhos podem ser contagiados pelo ânimo e energia dos mais jovens e ser agraciados com vínculos de amizade. Eles podem encontrar uma vocação, ou um propósito, ao servirem como pontes de amadurecimento e como mentores dos mais jovens. Ambos os grupos vivem entre “o já e o ainda não”. E isso molda a sua esperança.
Este é o assunto da matéria de capa da edição 422. Conheça mais aqui.
Saiba mais:
» Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo, Eleonore Stump
» A Ética de Deus – Normas da Ação Divina e o Problema do Mal, Mark C. Murphy
» Culpa e Graça, Paul Tournier
» Minicurso Expiação
30 de outubro de 2026- Visualizações: 150
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