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Opinião

Estrutura ética para o uso da Inteligência Artificial (IA)

O uso da IA em igrejas e organizações missionárias traz consigo considerações teológicas e éticas que exigem discernimento cuidadoso e oração

Por Quintin McGrath

Nos círculos evangélicos, as respostas à Inteligência Artificial (IA) variam desde a resistência absoluta até a adoção entusiasmada. Alguns a veem como uma ferramenta do Inimigo; outros a consideram um dom providencial para o nosso tempo – uma “ameaça idólatra”, uma “ferramenta divina” ou algo entre esses extremos. As ferramentas modernas de IA são projetadas para serem intuitivas e facilmente adotadas; no entanto, o uso acrítico, sem um fundamento ético sólido, pode levar a consequências não intencionais e prejudiciais. Por outro lado, o medo e a falta de compreensão podem impedir o engajamento, mesmo quando um uso biblicamente responsável poderia oferecer benefícios concretos. Independentemente da postura inicial, a influência e o impacto da IA continuarão a crescer nas próximas décadas.

Instituições de todos os setores estão correndo para incorporar essas tecnologias a fim de permanecerem relevantes e eficazes, ao mesmo tempo em que tentam formular diretrizes éticas. Embora grande parte desse avanço seja impulsionado por prioridades empresariais, o uso da IA em igrejas e organizações missionárias envolve aplicações específicas situadas em considerações teológicas e éticas que requerem discernimento atento e fundamentado na fé.

À medida que a IA – especialmente a IA Generativa (GenAI) – avança em capacidade e acessibilidade, torna-se cada vez mais urgente que os cristãos se engajem com ela por meio de uma lente ética firmemente enraizada nas Escrituras. Este LIGHT Briefing examina as implicações éticas da IA e destaca questões e diálogos centrais sobre seu uso em todo o espectro da prática missionária. Começamos apresentando uma estrutura ética que fundamenta as subseções que seguem.

Uma estrutura ética para IA em missões
Existem diversas estruturas utilizadas para avaliar o uso ético e responsável da IA, tanto fora quanto dentro da igreja. Algumas têm origem nos campos da medicina, das políticas públicas ou da ética tecnológica; outras emergiram de tradições religiosas que buscam responder fielmente à crescente influência da IA. O quadro comparativo a seguir destaca princípios éticos centrais em uma variedade de modelos representativos, revelando áreas de preocupação compartilhada.



Além dessas abordagens, um número crescente de tradições religiosas desenvolveu suas próprias estruturas éticas para a IA, cada uma fundamentada em convicções teológicas e visões morais distintas. O quadro abaixo compara como diferentes comunidades de fé articulam prioridades éticas diante dos desafios e oportunidades apresentados pela IA.



Ao comparar as duas tabelas observamos que princípios como autonomia, agência humana e alinhamento humano–IA, presentes nos modelos seculares, são ampliados nas éticas religiosas para incluir agência moral e alinhamento teológico. Ao conceito de bem-estar frequentemente se somam a mordomia, a formação espiritual e a centralidade da comunidade e do florescimento relacional. Da mesma forma, os conceitos de justiça e responsabilização são aprofundados para abranger expressões de dignidade humana, a santidade da vida e nossa responsabilidade moral diante de Deus.



Com base nesse fundamento, propomos uma estrutura missionária, biblicamente orientada, para avaliar a IA a partir de quatro temas orientadores:
• Alinhamento com a comissão
• Alinhamento relacional
• Alinhamento de utilidade e equidade
• Alinhamento moral

Juntas, essas categorias oferecem uma lente para um engajamento fiel com a IA a serviço da Grande Comissão.

Alinhamento com a comissão
O primeiro passo para pensar uma IA biblicamente responsável é focar em nosso relacionamento singular com Deus, como portadores de sua imagem, juntamente com nossos papéis dados por Deus de mordomia e domínio sobre a terra. Gênesis 1.26–27 deixa claro que fomos criados à imagem de Deus. Ele soprou em nós o fôlego da vida (Gn 2.7). Gênesis 1.28 define nosso propósito: encher a terra, sujeitar, governar e cuidar dela (Gn 2.15). Miqueias 6.8 reforça nossa agência moral como seres humanos e representantes de Deus, chamados a praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com nosso Deus. Jesus, ao reafirmar os maiores mandamentos, aponta para o Shemá (Dt 6.4–5), que nos chama a amar plenamente a Deus, e também a amar o próximo como a nós mesmos (Lv 19.18).

Os sistemas de IA devem honrar a dignidade humana como portadores únicos da imagem de Deus. Devem também apoiar os princípios bíblicos de justiça, verdade e amor, e servir aos propósitos do Reino de shalom e do florescimento humano.

Para aplicar esses conceitos na prática, sugerimos perguntar:
• Esta aplicação de IA honra nossa dignidade humana como portadores da imagem de Deus?
• Ela afeta nossa agência moral?
• Em que medida se alinha e reforça os princípios bíblicos de justiça, verdade e amor?



Alinhamento relacional

Parte da nossa singularidade humana reside em nossa capacidade de relacionamento, enraizada em nossa comunhão com Deus e uns com os outros (Jo 17.20–26; 1Jo 4.7–21). Jesus veio ao mundo como Deus encarnado, Emanuel (Is 7.14; Mt 1.20–23), incorporando a presença divina no relacionamento humano. No centro desse projeto relacional está a própria Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, existindo em comunhão perfeita e eterna. Criados à imagem desse Deus triúno, somos relacionais por natureza, feitos não apenas para uma fé individual, mas para o amor mútuo, a comunhão encarnada e a interdependência.

A IA não deve interferir em nossa comunhão com Deus nem em nossa conexão com os outros. Pelo contrário, deve ser utilizada para fortalecê-las, promovendo conexões humanas autênticas dentro e fora da igreja, na família, entre gerações e entre culturas.

Perguntas centrais incluem:
• Esta tecnologia fortalece ou enfraquece relacionamentos humanos autênticos?
• A aplicação de IA promove confiança comunitária ou substitui a conexão real por relações artificiais?
• Como ela molda a maneira como amamos, ouvimos e servimos uns aos outros?
• De que forma a IA favorece ou dificulta nosso relacionamento com Deus?

Alinhamento de utilidade e equidade

Jesus nos ordenou a amar o próximo como a nós mesmos (Mt 22.39), chamando-nos a uma vida de serviço ativo e sacrificial. Ao avaliar a utilidade da IA, devemos perguntar se ela realmente atende às necessidades humanas e se amplia – e não reduz – nossa capacidade de amar e servir os outros. Isso está alinhado ao chamado profético de Miqueias 6.8 para agir com justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus. As Escrituras nos lembram constantemente de defender a causa dos pobres, marginalizados e sem voz, tornando a equidade e a justiça prioridades inegociáveis em qualquer avaliação ética da tecnologia.

Justiça e utilidade também são inseparáveis das questões de sustentabilidade. Desde os primeiros capítulos de Gênesis, somos lembrados de que a terra pertence ao Senhor e que a humanidade foi incumbida de cuidar dela – não para exploração, mas para uma mordomia fiel. O desenvolvimento e o uso da IA frequentemente exigem alto consumo de energia, infraestrutura computacional e alocação de recursos. Esses custos ambientais e sociais recaem, muitas vezes, de forma desproporcional sobre os pobres e subatendidos. Assim, a IA ética deve ser avaliada não apenas em termos de quem se beneficia ou é prejudicado, mas também pelo impacto que causa em nosso mundo compartilhado, especialmente para as futuras gerações.

Devemos perguntar:
• Nossas ferramentas de IA atendem a necessidades humanas reais ou criam dependências artificiais?
• Elas reduzem ou ampliam a exclusão digital?
• São implementadas priorizando justiça e sustentabilidade de longo prazo, ou apenas eficiência imediata?

A verdadeira mordomia exige tanto competência técnica quanto discernimento espiritual, para que essas tecnologias sejam usadas de forma sábia, equitativa e fiel.

Alinhamento moral
Para exercer bem nossa responsabilidade de mordomia, precisamos permanecer atentos à forma como a IA está sendo utilizada e garantir que compreendemos e mantemos controle sobre seus sistemas. As Escrituras deixam claro que Deus nos responsabiliza por aquilo que dizemos e fazemos. Também somos responsáveis uns pelos outros como povo de Deus, chamados a amar, servir e proteger em verdade.

Como seres moralmente responsáveis diante de Deus, nunca podemos atribuir agência moral às máquinas. A IA não deve se apresentar como humana, seja em interações escritas ou verbais. A transparência clara sobre como e quando a IA é utilizada é essencial, assim como explicações compreensíveis sobre suas decisões, entendimento de seu funcionamento e clareza quanto a quem é responsável por seus resultados.

Isso exige que desenvolvedores e líderes ministeriais perguntem:
• Nossa solução de IA se identifica claramente como não humana?
• Está evidente quem é responsável pela IA e por seus resultados?
• Os sistemas são usados com integridade, transparência e supervisão humana adequada?
• Existem salvaguardas para identificar e corrigir erros, danos e consequências não intencionais?

Em última instância, devemos assumir responsabilidade pelas tecnologias que usamos e compartilhamos com outros.

Conclusão
Embora esta estrutura ética para a IA sirva como ponto de partida, ela não pretende ser uma abordagem exaustiva. Antes, oferece uma perspectiva fundamental e uma ferramenta de alto nível para avaliar o design e o uso da IA em alinhamento com a ética bíblica. A avaliação completa de qualquer sistema exigirá análises adicionais, incluindo avaliação técnica e, quando apropriado, verificação por auditores independentes.

No entanto, a ética abstrata não é suficiente. A aplicação no mundo real é essencial. O verdadeiro teste de qualquer estrutura está em como ela molda decisões em contextos específicos. Por isso, o restante deste LIGHT Briefing explora uma variedade de casos de uso, examinando como a IA já está sendo aplicada em diferentes aspectos dos esforços da Grande Comissão – desde discipulado e tradução bíblica até evangelismo, ministério da igreja e missão integral. Nossa esperança é capacitar a igreja global com discernimento e imaginação para um engajamento fiel nesta nova fronteira tecnológica.

Notas Finais
Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE). Ethically Aligned Design: A Vision for Prioritizing Human Well-Being with Autonomous and Intelligent Systems. 1ª ed., 2019.
OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). “Scoping the OECD AI Principles.” (2019).
OCDE. Recommendation of the Council on Artificial Intelligence: OECD/LEGAL/0449, 2025.
União Europeia. Ethics Guidelines for Trustworthy AI, 2019.
UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence, 2021.
União Africana. Continental Artificial Intelligence Strategy: Harnessing AI for Africa’s Development and Prosperity, 2024.
Leslie, David; Rincón, Cami; Briggs, Morgan; Perini, Antonella; Jayadeva, Smera; Borda, Ann; Bennett, S. J.; et al. AI Ethics and Governance in Practice: An Introduction. The Alan Turing Institute, 2023.
ERLC (Ethics & Religious Liberty Commission). “Artificial Intelligence: An Evangelical Statement of Principles. (2019). Acesso em 19 de agosto de 2025.
Aliança Evangélica Suíça. “Gemeinde & Digitalisierung: Künstliche Intelligenz (KI) in der Kirche.” (2025). Acesso em 19 de agosto de 2025.
Vaticano. “Antiqua et Nova: Nota sobre a relação entre a inteligência artificial e a inteligência humana.” Atualizado em 28 de janeiro de 2025. Acesso em 19 de agosto de 2025. 
Kalman, David Zvi. “Artificial Intelligence and Jewish Thought.” Cap. 5 em The Cambridge Companion to Religion and AI. Cambridge, Reino Unido: Cambridge University Press, 2024, p. 69–87.
Fauzi, Muhammad Rifqi; Nugroho, Kharis. “The Ethics of AI Usage from the Perspective of the Qur’an.” Proceedings of the ISETH (International Summit on Science, Technology, and Humanity) (21 jan. 2025): 819–825.

  • Quintin McGrath (D.B.A., University of South Florida) é um executivo global aposentado de TI da Deloitte e fundador da QplusAI LLC, empresa dedicada a impulsionar a transformação ética da Inteligência Artificial (IA) em organizações ao redor do mundo. Atuando como consultor, educador, Research Fellow e assessor na iniciativa AI & Faith, com doutorado em IA, ética e gestão de riscos, ele tem mais de 24 anos de experiência internacional em liderança executiva em tecnologia. Seu trabalho apoia empresas na implementação responsável da IA, ao mesmo tempo em que busca ampliar a influência do Reino de Deus no mercado. Seus artigos e pesquisas foram publicados em periódicos como IEEE Transactions on Engineering Management, AI and Ethics Journal e MIS Quarterly Executive.

Artigo publicado originalmente no site Lausanne. Reproduzido com permissão.

Traduzido por Ana Laura Morais.



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