Opinião
13 de fevereiro de 2026- Visualizações: 1481
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Carnaval, paganismo e a alegria redimida
Por Paulo Ribeiro
Dirigindo por São Paulo esta semana, passei próximo às imensas construções alegóricas que estão sendo preparadas para os desfiles de Carnaval. Estruturas monumentais, cores, luzes, figuras quase míticas erguendo-se sobre andaimes, metade escultura, metade sonho. Algo nelas me fez parar por dentro.
Para muitos cristãos, o Carnaval sempre foi visto com desconfiança, e não sem razão. Historicamente, muitas vezes esteve associado ao excesso, à indulgência, enfim à festa da carne. Suas raízes são frequentemente ligadas mais a Baco do que à Quaresma. É fácil enxergar nele uma celebração desligada da transcendência.
E, no entanto, ao passar por aquelas construções grandiosas, dei-me conta de que pensava não apenas em Baco, mas em C.S. Lewis, Tolkien, Chesterton e até mesmo William Morris.
Chesterton lamentou certa vez aquilo que chamou de A Perda do Verdadeiro Paganismo. Ele não queria dizer que os homens modernos haviam se tornado pagãos, mas exatamente o contrário. Não eram pagãos o suficiente. Não criam em deuses; eram filhos do ceticismo e do agnosticismo. O verdadeiro paganismo, para Chesterton, não era caos moral. Era imaginação. Era um tremor diante da natureza, um certo temor místico, o reconhecimento de que o mundo está carregado de presença, como aquela luz difusa que se espalha pela paisagem quando o sol está escondido atrás das nuvens.
Lewis, em Príncipe Caspian, imagina Baco surgindo quando Aslan retorna a Nárnia. Mas Baco não derruba a ordem; ele dança sob ela. As árvores despertam. A terra se alegra. É uma alegria selvagem, mas não é rebelião. É exuberância redimida.
Eu venho da terra do Frevo, essa música urgente, giratória, nascida nas ruas de Pernambuco, onde os metais cortam o ar e pequenas sombrinhas giram como fragmentos de céu. Seu ritmo é rápido, quase ofegante, como se a própria alegria estivesse correndo à nossa frente. Carrego algo dessa cadência no corpo, talvez nos ossos. Nunca participei diretamente das celebrações de Carnaval. E, no entanto, quando escuto um frevo, algo em mim se recorda, tardes de infância, o cheiro do sol sobre o asfalto, a promessa de festa antes que se conhecessem seus riscos. Às vezes me permito a imaginação inocente de estar no meio de um cortejo, rindo e me movendo levemente ao lado de minha esposa e de meus filhos e netos, levado por aquela maré de cor e som. Há, nessa música, uma humanidade profundamente encarnada, exuberante, corporal, viva.
A imaginação cristã, em seu melhor momento, nunca rejeitou totalmente o paganismo. Rejeitou o culto pagão, mas não o encanto pagão. O cristianismo não abole o impulso humano de celebrar; ele o ordena.
E então me pergunto: será que o Carnaval, mesmo em seus exageros e distorções, carrega fragmentos dessa luz mais antiga? Por baixo do espetáculo, permanece um pulso de alegria criada, música, movimento, cor, uma recusa em reduzir a vida a mecanismo. Às vezes transborda em excesso. Às vezes esquece sua fonte. Mas, ocasionalmente, vislumbra-se algo mais profundo: uma humanidade saudável, capaz de maravilhar-se.
Talvez o Carnaval, em seu melhor, carregue fragmentos do que Chesterton chamou de verdadeiro paganismo, não rebelião contra Deus, mas um deslumbre diante da existência. É muitas vezes exagerado, por vezes desordenado, carnal apenas. Ainda assim, sob as fantasias e os tambores, permanece um pulso de alegria criada, um lembrete de que o ser humano foi feito para celebrar.
A fé cristã não destrói esse impulso; ela o purifica. Assim como C. S. Lewis imaginou Baco dançando sob a autoridade de Aslan, também as energias mais selvagens da humanidade não são aniquiladas pela graça, mas redimidas. O que importa não é se celebramos, mas sob qual luz celebramos, a luz difusa por trás das nuvens ou o Sol já nascido.
Como também nos lembra Lewis, “A alegria é um assunto sério do Céu.” E, se assim é, então até mesmo nossas festas terrenas são mais autênticas não quando se esquecem do Céu, mas quando, ainda que de modo tênue, o ecoam.
Dirigindo por São Paulo esta semana, passei próximo às imensas construções alegóricas que estão sendo preparadas para os desfiles de Carnaval. Estruturas monumentais, cores, luzes, figuras quase míticas erguendo-se sobre andaimes, metade escultura, metade sonho. Algo nelas me fez parar por dentro.
Para muitos cristãos, o Carnaval sempre foi visto com desconfiança, e não sem razão. Historicamente, muitas vezes esteve associado ao excesso, à indulgência, enfim à festa da carne. Suas raízes são frequentemente ligadas mais a Baco do que à Quaresma. É fácil enxergar nele uma celebração desligada da transcendência.
E, no entanto, ao passar por aquelas construções grandiosas, dei-me conta de que pensava não apenas em Baco, mas em C.S. Lewis, Tolkien, Chesterton e até mesmo William Morris.Chesterton lamentou certa vez aquilo que chamou de A Perda do Verdadeiro Paganismo. Ele não queria dizer que os homens modernos haviam se tornado pagãos, mas exatamente o contrário. Não eram pagãos o suficiente. Não criam em deuses; eram filhos do ceticismo e do agnosticismo. O verdadeiro paganismo, para Chesterton, não era caos moral. Era imaginação. Era um tremor diante da natureza, um certo temor místico, o reconhecimento de que o mundo está carregado de presença, como aquela luz difusa que se espalha pela paisagem quando o sol está escondido atrás das nuvens.
Lewis, em Príncipe Caspian, imagina Baco surgindo quando Aslan retorna a Nárnia. Mas Baco não derruba a ordem; ele dança sob ela. As árvores despertam. A terra se alegra. É uma alegria selvagem, mas não é rebelião. É exuberância redimida.
Eu venho da terra do Frevo, essa música urgente, giratória, nascida nas ruas de Pernambuco, onde os metais cortam o ar e pequenas sombrinhas giram como fragmentos de céu. Seu ritmo é rápido, quase ofegante, como se a própria alegria estivesse correndo à nossa frente. Carrego algo dessa cadência no corpo, talvez nos ossos. Nunca participei diretamente das celebrações de Carnaval. E, no entanto, quando escuto um frevo, algo em mim se recorda, tardes de infância, o cheiro do sol sobre o asfalto, a promessa de festa antes que se conhecessem seus riscos. Às vezes me permito a imaginação inocente de estar no meio de um cortejo, rindo e me movendo levemente ao lado de minha esposa e de meus filhos e netos, levado por aquela maré de cor e som. Há, nessa música, uma humanidade profundamente encarnada, exuberante, corporal, viva.
A imaginação cristã, em seu melhor momento, nunca rejeitou totalmente o paganismo. Rejeitou o culto pagão, mas não o encanto pagão. O cristianismo não abole o impulso humano de celebrar; ele o ordena.
E então me pergunto: será que o Carnaval, mesmo em seus exageros e distorções, carrega fragmentos dessa luz mais antiga? Por baixo do espetáculo, permanece um pulso de alegria criada, música, movimento, cor, uma recusa em reduzir a vida a mecanismo. Às vezes transborda em excesso. Às vezes esquece sua fonte. Mas, ocasionalmente, vislumbra-se algo mais profundo: uma humanidade saudável, capaz de maravilhar-se.
Talvez o Carnaval, em seu melhor, carregue fragmentos do que Chesterton chamou de verdadeiro paganismo, não rebelião contra Deus, mas um deslumbre diante da existência. É muitas vezes exagerado, por vezes desordenado, carnal apenas. Ainda assim, sob as fantasias e os tambores, permanece um pulso de alegria criada, um lembrete de que o ser humano foi feito para celebrar.
A fé cristã não destrói esse impulso; ela o purifica. Assim como C. S. Lewis imaginou Baco dançando sob a autoridade de Aslan, também as energias mais selvagens da humanidade não são aniquiladas pela graça, mas redimidas. O que importa não é se celebramos, mas sob qual luz celebramos, a luz difusa por trás das nuvens ou o Sol já nascido.
Como também nos lembra Lewis, “A alegria é um assunto sério do Céu.” E, se assim é, então até mesmo nossas festas terrenas são mais autênticas não quando se esquecem do Céu, mas quando, ainda que de modo tênue, o ecoam.
- Escrevo como cristão que reconhece que o Carnaval (festa da carne) tem sido frequentemente associado à indulgência e ao excesso. Nada nesta reflexão pretende defender a desordem moral. Antes, procuro distinguir entre uma celebração desordenada e a capacidade humana mais profunda de encanto e expressão artística, que o cristianismo, em última instância, redime e purifica.
Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi Professor em Universidades nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, e Pesquisador em Centros de Pesquisa (EPRI, NASA). Atualmente é Professor Titular Livre na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e torcedor do Santa Cruz.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao
Pesquisa publicada recentemente aponta os cientistas destacados entre o “top” 2% dos pesquisadores de maior influência no mundo, nas diversas áreas do conhecimento. Destes, 600 cientistas são de Instituições Brasileiras. O Professor Paulo F. Ribeiro foi incluído nesta lista relacionado a área de Engenharia Elétrica.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao
Pesquisa publicada recentemente aponta os cientistas destacados entre o “top” 2% dos pesquisadores de maior influência no mundo, nas diversas áreas do conhecimento. Destes, 600 cientistas são de Instituições Brasileiras. O Professor Paulo F. Ribeiro foi incluído nesta lista relacionado a área de Engenharia Elétrica.
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