Opinião
23 de maio de 2022- Visualizações: 10148
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A morte da família
Por William Lane
Em 1971, o psicanalista britânico David Cooper publicou o livro The Death of the Family [A morte da família]. Cooper foi um dos precursores e árduo defensores do movimento antipsiquiátrico. O movimento considerava que a teoria psicoanalítica dava atenção aos transtornos neuróticos mais elementares e não dava conta de lidar com as enfermidades mais graves como a psicose e a esquizofrenia, o que resultava na internação dos “loucos” em manicômios para excluí-los da sociedade. Para o autor e o seu movimento, a institucionalização desses indivíduos tinha em sua base a classificação deles como ameaças à sociedade, que por sua vez, era alimentada por uma sociedade construída a partir de uma estrutura familiar capitalista burguesa de traços claramente patriarcais e monogâmicos. O movimento sustentava que “na família, repressiva por essência, se origina a loucura, pois sua finalidade consiste não somente de reproduzir as formas de dominação ideológica como também da internalização dessa ideologia na estrutura psíquica dos indivíduos”1. O livro pretende ser um manifesto político deliberadamente contra a estrutura familiar burguesa e quer propor que “uma vez abolida essa falsa estrutura familiar, só resta assegurar que nunca mais se possa restabelecê-la” (p. 78).
Em 1971, o psicanalista britânico David Cooper publicou o livro The Death of the Family [A morte da família]. Cooper foi um dos precursores e árduo defensores do movimento antipsiquiátrico. O movimento considerava que a teoria psicoanalítica dava atenção aos transtornos neuróticos mais elementares e não dava conta de lidar com as enfermidades mais graves como a psicose e a esquizofrenia, o que resultava na internação dos “loucos” em manicômios para excluí-los da sociedade. Para o autor e o seu movimento, a institucionalização desses indivíduos tinha em sua base a classificação deles como ameaças à sociedade, que por sua vez, era alimentada por uma sociedade construída a partir de uma estrutura familiar capitalista burguesa de traços claramente patriarcais e monogâmicos. O movimento sustentava que “na família, repressiva por essência, se origina a loucura, pois sua finalidade consiste não somente de reproduzir as formas de dominação ideológica como também da internalização dessa ideologia na estrutura psíquica dos indivíduos”1. O livro pretende ser um manifesto político deliberadamente contra a estrutura familiar burguesa e quer propor que “uma vez abolida essa falsa estrutura familiar, só resta assegurar que nunca mais se possa restabelecê-la” (p. 78).O desmantelamento da família
É evidente que a intenção desse autor não era apenas tratar de uma nova abordagem ao tratamento de casos graves de psicose e esquizofrenia os quais a psiquiatria não dava conta. A intenção envolve uma revolução política e social que interferisse diretamente na estrutura familiar.
Difícil é mensurar o impacto das ideias de Cooper nas políticas e estratégicas de estados que possuem uma visão materialista histórica e até que ponto as pautas que atacam a estrutura familiar estão diretamente influenciadas por essas ideias. Mas o que se pode notar com frequência na vida pública é que, em nome dos direitos individuais, há uma crescente e deliberada ação de diminuir a influência dos valores e moral da família na sociedade e, principalmente, de redesenhar a estrutura familiar de modo a servir os interesses de uma revolução social e política.
Essa obra chama a atenção para alguns fatores. Primeiro, Cooper está correto que uma sociedade se molda a partir de suas estruturas nucleares. É a estrutura familiar e os valores morais que impactam em grande parte como as relações humanas se desenvolverão na sociedade. É verdade também que essa estrutura muitas vezes perpetua relações não saudáveis na sociedade. Cooper, entretanto, vê apenas elementos nocivos da influência da família no indivíduo e atribui muitos males da sociedade a essa estrutura familiar.
Em segundo lugar, é óbvio que ao atacar a estrutura familiar e vislumbrar uma sociedade sem a família “burguesa capitalista”, Cooper defende alguma forma de estrutura social e política. A realidade é que o desmantelamento da influência da família no indivíduo tem a intenção de tornar o estado a autoridade e controle absolutos sobre os indivíduos. Naturalmente, isso é visto como o ideal dessa perspectiva, mas não há como ignorar o objetivo de controle e dominação do estado sobre os indivíduos, consequentemente, a perda não só de direitos básicos, mas, sobretudo, da liberdade dos indivíduos de pensarem, se expressarem e se constituírem como família.
Terceiro, é no mínimo um idealismo, se não uma ilusão, achar que uma vez extinta a família as relações de dominação se dissiparão. Cooper quer fazer crer que a família reforça o poder da classe dominante e serve de paradigma de controle para todas as instituições sociais, portanto, tem uma capacidade destruidora. Assim, uma vez extinta, resolve-se o problema do poder das classes dominantes. No entanto, isso não assegura em nada que uma vez desfeita a estrutura familiar, alguma outra instituição social ou ideologia não ocupe o lugar de dominação dos indivíduos.
Para famílias imperfeitas (inclusive cristãs), a graça de Cristo
Na perspectiva cristã, a família é vista positivamente como uma estrutura que proporciona vivência e experiências para o desenvolvimento dos indivíduos e, consequentemente, da sociedade. É verdade que não é a família em si que garante a saúde emocional, física e espiritual dos indivíduos, da igreja e da sociedade. Somente a graça de Deus e a conformidade com o caráter de Cristo que, em última instância, moldam a maturidade do indivíduo. Infelizmente, há também no meio cristão muitas vezes uma idealização da família que pode levar à estigmatização e marginalização de famílias que não se enquadrem ao modelo “ideal” cristão. Isso também é sinal de uma estrutura doentia. O fato de nossas igrejas terem famílias predominantemente compostas pelo núcleo familiar do pai, mãe e/ou filhos não diz que os cristãos são, em geral, formados de famílias nucleares “equilibradas”; pelo contrário, pode dizer que nossas comunidades não dão espaço para famílias de composição diversa ou tidas como “disfuncionais” pelos padrões cristãos. Mas a resposta não deve ser abolir a família ou abolir as igrejas que não acolhem famílias destruídas, por qualquer motivo que seja. A resposta deve necessariamente passar pela graça restauradora de Cristo dos indivíduos, famílias e de uma sociedade disfuncional.
Mesmo a família cristã pode perpetuar relações não saudáveis, pois ela é formada de pessoas imperfeitas e afetadas pelo pecado humano. Não aprendemos apenas o amor, a solidariedade, a fraternidade, a cooperação, o perdão, as práticas espirituais e o serviço cristão na família. Aprendemos também o egoísmo, o individualismo, a rivalidade, a dominação, a manipulação, a espiritualização de nossas doenças, o materialismo e tantos outros males. Por isso, carecemos continuamente do amor, do perdão, da graça e da instrução de Cristo em nossas vidas. Acima de tudo, precisamos continuar acreditando na família como dádiva de Deus e como importante célula da sociedade, e não acreditar que seja uma estrutura ultrapassada para um estado moderno que se institui como defensor dos direitos individuais contra a influência da família.
Nota
1 Cooper, D. La muerte de la família. Cidade do México: Editorial Planeta, 1986.
Pastor presbiteriano e doutor em Antigo Testamento, é professor e capelão no Seminário Presbiteriano do Sul, e tradutor de obras teológicas. É autor do livro O propósito bíblico da missão.
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