Opinião
18 de fevereiro de 2026- Visualizações: 760
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A ficção cristã como conselho
Em ascensão no Brasil, a ficção cristã parte da realidade de seus leitores e tem como protagonistas pessoas imperfeitas à procura de significado para a vida
Por Daniel Faria
Tendências
Texto publicado originalmente na edição 409 de Ultimato (setembro/outubro de 2024).
Ao longo dos dias 17 a 20 de julho, ocorreu em São Paulo, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a terceira edição da Feira de Ficção Cristã e Cultura, a FEFICC. O evento, organizado pela autora Sara Gusella, reuniu não só editoras como Mundo Cristão, Thomas Nelson, Quatro Ventos e outras tantas independentes, mas também um público de mais de dez mil pessoas. Painéis com Rodrigo Bibo, Fernanda Witwytzky e Emilio Garofalo, entre outros, discutiram os rumos da ficção cristã no país e sua relevância para a igreja brasileira.
Como editor da Mundo Cristão, casa publicadora de Corajosas, um dos sucessos do gênero hoje com mais de 60 mil exemplares vendidos, tive a alegria de presenciar encontros comoventes entre autores e leitores. Numa dessas ocasiões, Queren Ane, autora de Meu Sol de Primavera, ouviu da mãe de uma adolescente: “Seu livro ajudou minha filha a encontrar respostas para indagações a que eu, como mãe, não me sentia capaz de responder com minhas próprias palavras”.
Expressar aquilo que somos incapazes de fazer com nossas próprias palavras – esse tem sido, há milênios, o poder incomparável das narrativas. Os verbetes de dicionários, por mais precisos que se proponham ser, raramente esgotarão as possibilidades de significado que só uma narrativa bem construída pode proporcionar. O próprio Jesus tanto sabia disso que recorreu às parábolas como seu principal “recurso didático” para ensinar os discípulos e as multidões, e assim agiram os profetas do Antigo Testamento, o que comprova o poder das histórias também no Livro dos livros.
O que pode, porém, ensinar a literatura? No caso que testemunhei, a mãe se alegrava porque, graças ao livro de Queren Ane, “a filha entendeu o que é ser valorizada como mulher”. Meu Sol de Primavera narra a história de Chér, uma adolescente que, embora seja de berço evangélico, não se agrada de ir à igreja e prefere dedicar seu tempo ao celular, às amigas e ao sonho do namoro. A obsessão com o romance a conduz por caminhos tortuosos, até que aos poucos ela começa a entender a necessidade de guardar o coração e realinhar as prioridades. O livro se encerra com a protagonista amadurecendo, mas ainda tendo muito a aprender.
O boom editorial que colaborou para tornar a terceira edição da FEFICC um êxito – não bastasse os milhares de presentes na feira, veículos da imprensa não evangélica deram destaque ao evento – nasce de obras como Meu Sol de Primavera, escritas por jovens autoras especialmente habilidosas para compreender os dilemas de seus leitores e retratá-los com tintas realistas, ainda que com traços leves e delicados. Temas como identidade, ausência paterna, luto, ansiedade, além, é claro, de relacionamentos amorosos, têm ajudado a aproximar jovens leitores desse gênero muitas vezes relegado a segundo plano pelas editoras evangélicas. Na Mundo Cristão, em especial, creditamos a esse fator de identificação o sucesso de obras como Corajosas, No Final Daquele Dia e O Horizonte Mora em um Dia Cinza.
Historicamente, as editoras se fiaram em ficções com conteúdo alegórico, em que as narrativas funcionavam como veículo para a transmissão de lições morais e teológicas. Eram obras inspiradas por clássicos como O Peregrino, de John Bunyan, As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien – autores brilhantes que, convém dizer, nem sempre encorajavam leituras demasiadamente alegóricas de suas obras. Ainda que esse gênero continue merecidamente a prosperar, parece-me que a ficção cristã em ascensão no Brasil hoje é aquela que toma como ponto de partida a realidade de seus leitores, com histórias ambientadas no interior de Minas, numa praia de Paraty ou numa viagem de férias a Portugal, protagonizadas por pessoas imperfeitas à procura de significado para a vida.
Walter Benjamin, em seu célebre artigo O narrador, escreve que “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Quando me lembro da mãe que agradeceu a Queren Ane por ajudá-la a responder às indagações de sua filha, penso que a ficção cristã, em seu melhor aspecto, pode ser um conselheiro precioso – um amigo – na caminhada da vida, sobretudo no período de formação, quando é premente a necessidade de sugestões “sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Que o êxito de iniciativas como a FEFICC e dos livros brasileiros de ficção cristã sirva de inspiração e incentivo para o surgimento de novos e talentosos narradores.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”
Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Literatura fantástica cristã, por José Miranda Filho
» Até Que Tenhamos Rostos - A releitura de um mito, C. S. Lewis
» Século I - O Resgate, Cayo César Morais dos Santos
» Desafios da imaginação em Phantastes, de George MacDonald, por Gladir Cabral
Por Daniel Faria
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Texto publicado originalmente na edição 409 de Ultimato (setembro/outubro de 2024).
Ao longo dos dias 17 a 20 de julho, ocorreu em São Paulo, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a terceira edição da Feira de Ficção Cristã e Cultura, a FEFICC. O evento, organizado pela autora Sara Gusella, reuniu não só editoras como Mundo Cristão, Thomas Nelson, Quatro Ventos e outras tantas independentes, mas também um público de mais de dez mil pessoas. Painéis com Rodrigo Bibo, Fernanda Witwytzky e Emilio Garofalo, entre outros, discutiram os rumos da ficção cristã no país e sua relevância para a igreja brasileira.Como editor da Mundo Cristão, casa publicadora de Corajosas, um dos sucessos do gênero hoje com mais de 60 mil exemplares vendidos, tive a alegria de presenciar encontros comoventes entre autores e leitores. Numa dessas ocasiões, Queren Ane, autora de Meu Sol de Primavera, ouviu da mãe de uma adolescente: “Seu livro ajudou minha filha a encontrar respostas para indagações a que eu, como mãe, não me sentia capaz de responder com minhas próprias palavras”.
Expressar aquilo que somos incapazes de fazer com nossas próprias palavras – esse tem sido, há milênios, o poder incomparável das narrativas. Os verbetes de dicionários, por mais precisos que se proponham ser, raramente esgotarão as possibilidades de significado que só uma narrativa bem construída pode proporcionar. O próprio Jesus tanto sabia disso que recorreu às parábolas como seu principal “recurso didático” para ensinar os discípulos e as multidões, e assim agiram os profetas do Antigo Testamento, o que comprova o poder das histórias também no Livro dos livros.
O que pode, porém, ensinar a literatura? No caso que testemunhei, a mãe se alegrava porque, graças ao livro de Queren Ane, “a filha entendeu o que é ser valorizada como mulher”. Meu Sol de Primavera narra a história de Chér, uma adolescente que, embora seja de berço evangélico, não se agrada de ir à igreja e prefere dedicar seu tempo ao celular, às amigas e ao sonho do namoro. A obsessão com o romance a conduz por caminhos tortuosos, até que aos poucos ela começa a entender a necessidade de guardar o coração e realinhar as prioridades. O livro se encerra com a protagonista amadurecendo, mas ainda tendo muito a aprender.
O boom editorial que colaborou para tornar a terceira edição da FEFICC um êxito – não bastasse os milhares de presentes na feira, veículos da imprensa não evangélica deram destaque ao evento – nasce de obras como Meu Sol de Primavera, escritas por jovens autoras especialmente habilidosas para compreender os dilemas de seus leitores e retratá-los com tintas realistas, ainda que com traços leves e delicados. Temas como identidade, ausência paterna, luto, ansiedade, além, é claro, de relacionamentos amorosos, têm ajudado a aproximar jovens leitores desse gênero muitas vezes relegado a segundo plano pelas editoras evangélicas. Na Mundo Cristão, em especial, creditamos a esse fator de identificação o sucesso de obras como Corajosas, No Final Daquele Dia e O Horizonte Mora em um Dia Cinza.
Historicamente, as editoras se fiaram em ficções com conteúdo alegórico, em que as narrativas funcionavam como veículo para a transmissão de lições morais e teológicas. Eram obras inspiradas por clássicos como O Peregrino, de John Bunyan, As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien – autores brilhantes que, convém dizer, nem sempre encorajavam leituras demasiadamente alegóricas de suas obras. Ainda que esse gênero continue merecidamente a prosperar, parece-me que a ficção cristã em ascensão no Brasil hoje é aquela que toma como ponto de partida a realidade de seus leitores, com histórias ambientadas no interior de Minas, numa praia de Paraty ou numa viagem de férias a Portugal, protagonizadas por pessoas imperfeitas à procura de significado para a vida.
Walter Benjamin, em seu célebre artigo O narrador, escreve que “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Quando me lembro da mãe que agradeceu a Queren Ane por ajudá-la a responder às indagações de sua filha, penso que a ficção cristã, em seu melhor aspecto, pode ser um conselheiro precioso – um amigo – na caminhada da vida, sobretudo no período de formação, quando é premente a necessidade de sugestões “sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Que o êxito de iniciativas como a FEFICC e dos livros brasileiros de ficção cristã sirva de inspiração e incentivo para o surgimento de novos e talentosos narradores.
- Daniel Faria é editor da Editora Mundo Cristão.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
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