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Opinião

O que está por trás de uma versão da Bíblia?

Por William Lane
 
Perguntam-me com frequência sobre qual é a melhor tradução ou versão da Bíblia em português. Costumo responder que a melhor tradução é aquela que você lê e entende bem, isto é, não tem nenhum bloqueio com ela. Se você aprecia uma versão mais erudita e formal, e está acostumado, por exemplo, a ouvir Elias desafiando os adoradores de Baal com as palavras da Bíblia de Jerusalém, “Até quando claudicareis em duas pernas?” (1Rs 18.21), poderá ter um bloqueio com a versão A Mensagem que diz “Até quando vocês ficarão em cima do muro?” Por outro lado, se você se agrada de uma linguagem mais coloquial e contemporânea, poderá estranhar ao ler a exortação de Ageu 1.7 na Almeida Revista e Corrigida, que diz: “Aplicai o vosso coração aos vossos caminhos”. Poderá preferir a Nova Versão Transformadora (“Vejam o que tem acontecido com vocês!”) ou A Mensagem (“Deem uma boa olhada na sua vida. Reflitam sobre ela”).
 
Normalmente sempre que lemos uma versão diferente da Bíblia da que estamos acostumados causa-nos estranheza. Isso não significa que a versão seja melhor ou pior, mas simplesmente que é diferente e que não estamos habituados com ela. Foi isso que aconteceu no final do século IV com a nova versão latina da Bíblia produzida por Jerônimo a pedido do papa Dâmaso, versão que se popularizou e passou a ser chamada de Vulgata, isto é, popular. Agostinho reagiu à nova versão por meio de uma carta a Jerônimo em que diz “Minha única objeção à leitura pública de sua tradução do hebraico em nossas igrejas é para que, ao provocar algo, por assim dizer, novo ou contrário à autoridade da Septuaginta [a versão grega do AT], não ofendamos o rebanho de Cristo, cujos ouvidos e corações estão acostumados a ouvir aquela versão a qual o selo de aprovação foi conferido pelos próprios apóstolos”.1
 
Mas você poderá perguntar: é só uma questão de preferência pessoal? Não há algum critério objetivo para saber qual a melhor versão da Bíblia? Para responder isso é preciso primeiro entender que toda versão da Bíblia procura representar fielmente o sentido original do hebraico, aramaico e grego. O que as diferencia não é o grau de qualidade da tradução e, sim, o modo de cada uma representar o sentido da língua original.
 
Há pelos menos quatro fatores que determinam e distinguem as versões. O primeiro fator é a escolha dos manuscritos utilizados para a tradução. Naturalmente, não existem mais os manuscritos originais. Tudo que temos são cópias de cópias dos textos originais e, em alguns casos, há ligeiras diferenças entre os manuscritos. Por isso, parte das diferenças entre as versões diz respeito à opção textual. O segundo fator, e talvez o mais significativo, é a filosofia de tradução adotada por cada versão bíblica. As versões se distinguem em grande parte pelo critério formal ou dinâmico de tradução. O critério de equivalência formal se concentra na tradução de palavras e procura manter a forma da língua original. Por outro lado, a equivalência dinâmica traduz o sentido das expressões e frases. A primeira produz uma tradução mais literal ou ao pé da letra, e a segunda produz uma tradução mais coloquial. Entre as duas, há diversas versões que procuram combinar o elemento formal e o dinâmico.
 
Temos a tendência de achar que quanto mais literal é uma tradução, mais ‘fiel’ é ao original. Na realidade, a fidelidade de uma tradução não se julga meramente por sua literalidade e, sim, por sua coerência com o sentido da língua original. Gênesis 12.5 diz que Abrão partiu de sua terra levando sua esposa Sara, seu sobrinho Ló, todas as suas posses e, de acordo com a Almeida Revista e Corrigida (ARC), “todas as almas que lhe acresceram em Harã”. Ora, quem são essas almas? De fato, o termo hebraico nefesh é traduzido muitas vezes como alma. A Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduziu esse termo por “pessoas”. A Nova Versão Internacional (NVI) traduziu “seus servos, comprados em Harã”. Neste caso, nefesh se refere a pessoa. Pessoas que são adquiridas ou compradas são servos ou escravos. Desse modo, todas essas versões estão corretíssimas. A diferença está no modo de representar a língua original.
 
O terceiro fator divergente entre as versões é a exegese ou interpretação de textos específicos. O Salmo 8.5 na ARA diz que o Senhor fez o ser humano “um pouco menor do que Deus” (ARA). A ARC diz “menor do que os anjos”, a NVI, “menor do que os seres celestiais”. O termo hebraico é ‘elohim, um termo muito comum e frequente na Bíblia. A princípio, não há dificuldade alguma de tradução desse termo. Mas as versões divergem quanto ao sentido. A tradução grega, a Septuaginta (ou LXX), traduziu o termo ‘elohim por aggelos, anjos. Assim também está traduzida a citação desse versículo em Hebreus 2.7. A diferença não é qualitativa, tampouco há alguma questão textual nem de princípio de tradução, mas a questão é semântica e de interpretação da expressão no contexto do salmo. Por isso, toda tradução requer princípios de interpretação adequados.
 
E o quarto fator envolve o estilo de linguagem dos editores da versão. Isso muitas vezes está ligado ao público leitor a que se destina a versão. Um estilo mais erudito e tradicional atenderá os leitores já familiarizados com a Bíblia enquanto um estilo mais coloquial e contemporâneo visa tornar a linguagem da Bíblia acessível a um público de novos leitores.
 
Esses são alguns fatores que estão por trás de uma tradução ou versão da Bíblia. Em português há excelentes versões. Elas representam muito bem os originais. É muito importante que a linguagem não se torne uma barreira para o entendimento da mensagem da Escritura Sagrada.

1. White, J. R. The King James Only Controversy: Can you trust the modern translations? Minneapolis: Bethany House Publishers, 1995.

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Pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Seminário Presbiteriano do Sul.
  • Textos publicados: 44 [ver]

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