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Opinião

Coronavírus: um mundo assustado precisa de uma igreja corajosa

Por Luiz Fernando dos Santos
 
Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles. (Lc 6.31)
 
Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé. (Gl 6.10)
 
Estes dias recebi, em um grupo do qual faço parte, o seguinte recado do pastor e amigo Ziel Machado: “Estamos enfrentando uma dupla epidemia, a do vírus e a do pânico. As bases de uma nova etiqueta social vão requerer uma ‘nova ética social’. Ela vai precisar responder à pergunta: ‘Sou eu o guardador do meu irmão?’. Voltemos às Escrituras em busca dos fundamentos de uma ética da responsabilidade, de uma ética solidária”. 
 
A epidemia e os cristãos

Das Escrituras para a história, o outro livro onde Deus desfila os seus atos redentores, encontramos os cristãos enfrentando grandes epidemias ao longo do tempo. Para ficar apenas em um exemplo, por volta do ano 180 d.C., uma epidemia de varíola varreu o império romano; essa doença altamente contagiosa e letal atingiu também o imperador Marco Aurélio, que veio a falecer. O pânico e a desesperança tomaram conta do império. As famílias deixavam para trás os seus e tentavam escapar das regiões mais atingidas. Os cristãos, em sua grande maioria, mais acostumados ao sofrimento do que os pagãos, que não podiam enxergar nenhum propósito ou proveito na dor e na adversidade, ficaram para cuidar dos seus e também dos seus inimigos. Na ocasião, crucificaram a sua vida com Cristo em sua dor e alienação e se fizeram presentes em meio a dor, a morte e a absurdidade da vida. Os cristãos viram naquela epidemia uma oportunidade para testemunhar o amor de Cristo, amar o próximo e servir a todos. 
 
Coragem e oração

Em dias de Covid-19 (coronavírus), apesar de todo o avanço civilizatório e científico, pelo qual somos imensamente gratos a Deus, ainda permanece a ocasião para que os cristãos testemunhem do amor de Cristo e das maneiras mais variadas. Podemos partir do pensamento de A.W. Tozer: “Um mundo assustado precisa de uma igreja corajosa”. Essa coragem de que o mundo precisa começa com a demonstração de nossa confiança de que, não obstante os sofrimentos e os dramas reais que atingem todas as esferas da vida, da dor pessoal e intransferível à quebra e ao caos dos sistemas produtivos e financeiros que atingem a todos, Deus está no controle absoluto. Continuamos confiando que há um propósito bendito do Senhor nessa pandemia e ainda que a nossa mente jamais possa alcançar, o fato não muda de que a vontade dele é sempre boa, santa e perfeita. Nossa confiança também pode ser traduzida por nossas orações insistentes, buscando de Deus a solução definitiva para essa pandemia. 
 
Cremos que o Senhor age pelos meios ordinários, por isso pedimos que ele derrame graça e bênção sobre os cientistas, os grandes laboratórios, a alta academia para que o conhecimento sobre esse novo vírus leve a produção de uma nova vacina e tratamentos eficazes.

Oramos pedindo a Deus que dê lucidez aos governantes e aos governos. Oramos para que as autoridades não sejam levianas em suas declarações e muito menos alarmistas em suas decisões. Que os nossos líderes nos tragam paz e serenidade para enfrentarmos com sensatez a tormenta. Oramos ainda, apelando para que a inteligência e o bom senso levem a todos a tomarem os devidos cuidados de higienização e profilaxia e que o cuidado e a proteção do assim chamado grupo de risco sejam assegurados por todos.

Cremos também que o Senhor age de maneira extraordinária, por isso também pedimos que Ele extermine essa pandemia com o seu poder invencível e que cure os enfermos com a sua graça indestrutível. Oramos para que Ele arrefeça e mesmo aniquile os intentos dos especuladores e aproveitadores que enxergam na desgraça alheia um meio de enriquecerem cada vez mais. Que o Senhor derrame sobre os corações um espírito de solidariedade, humanidade e altíssimo apreço pela sacralidade da vida. 
 
Agir com Graça e bem informados

Concretamente, como devemos agir em nosso contexto próximo? Primeiro, levar sempre à sério as orientações de nossas autoridades sanitárias. Segundo, evitar a todo o custo a disseminação de fake news de teorias conspiratórias ou que possam levar as pessoas a pensar que essa é uma situação exagerada pela mídia. Terceiro, evitar fazer aquilo que pode ser evitado e procurar realizar as suas atividades só quando imprescindível. Quarto, não se deixar tomar pelo histerismo e pânico comuns nesses eventos. Manter-se informado e procurar tocar a vida com naturalidade e se forçado à quarentena ou isolamento, encarar com a mesma naturalidade do cumprimento de uma agenda ou de compromisso rotineiro. Há ainda uma outra maneira: quem sabe você possa se voluntariar para fazer as comprar, pagar contas, colocar o lixo para fora e prestar algum auxílio àquelas pessoas do grupo de risco cuja recomendação é ficar em casa? Sempre há uma maneira graciosa e criativa de se mostrar o amor cristão. 
 
Por fim, nosso melhor antídoto contra todas as pandemias da história sempre foi e sempre será a confiante e descansada confiança em Deus por meio da oração. Uma nova ética começa com um novo espírito de oração que deseja tocar concretamente a vida do irmão.

É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
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