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Opinião

A metáfora da mão e a ética da inclusão

Anderson Clayton

Se é possível dizer que as palavras possuem diversos significados, determinando, com isso, seu uso polissêmico na construção do pensamento e da linguagem, o mesmo se pode dizer a respeito da lógica dos membros do corpo humano. Cada membro tem sua função, e cada uma produz, em sua diversidade operacional, a coesão e a solidariedade na produção do equilíbrio no trabalho do corpo.

O conceito durkheimiano de “solidariedade orgânica” traz consigo a ideia de coesão produzida na/pela pluridiversidade das funções do trabalho de uma sociedade de produção complexa. A coesão na diversidade é também um tema relevante na eclesiologia organicista de Paulo. A plurifuncionalidade dos membros no trabalho prestado ao corpo “(soma synarmologoumenon kaí symbibazomenon” -- Ef 4.16) garante a eficiência de uma política de harmonização entre eles (“diá pasês hafês tês epikhorêgías” -- idem), cujo objetivo maior é conceder visibilidade moral ao sentido operacional dos dons e ministérios nele existentes (no corpo).

Isto significa dizer que a sociologia do trabalho plurifuncional quer revelar a “intenção corporativa” objetivada em sua operacionalidade orgânica. Fora da esfera da ação concreta, não há possibilidade de se visibilizar a dimensão psicomoral da intenção desejada pelo trabalho. Esta é a intenção que subjaz à ética cristã na qual se configura a psicologia do amor agápico. Este, de igual forma, só ganha visibilidade ontológica na atividade social.

Toda ação social, de acordo com Max Weber, é caracterizada pela intencionalidade dirigida a uma heterorreferência: um outro além de si mesmo. A necessidade de abertura a um tu para aquisição de um autoconhecimento pode também ser inferida do sentido da intersubjetividade social que parece estar presente na base axiológica proposta pela teoria do agir comunicativo de Jürgen Habermas.

No sentido agápico, o significado de uma ação moral nunca é autorreferente. Freud dificilmente aprovaria a política de uma ação sociomoral movida por uma intenção projetada unilateralmente para uma realidade heterorreferente. Pois ela demandaria, do sujeito da ação socioafetiva, um grau de renúncia que certamente lhe causaria danos psicoemocionais. E nisto não há racionalidade eudemônica (Marcuse), já que a psicologia do trabalho, na perspectiva de um individualismo axiológico, parece ser motivada por um desejo de autossatisfação.

O capitalismo moderno, neste sentido, é um sistema de produção que marginaliza atos de nobre altruísmo que objetivam o progresso coletivo. Na filosofia de Hegel contém a afirmação de que a história universal é o lugar da não-felicidade. Pois nela os interesses geral e particular nunca se harmonizam. Razão pela qual, afirma Hegel, os períodos de felicidade humana constituem as “páginas em branco” da história universal.

Sugestionado pela leitura do livro de Gaston Bachelard, intitulado “Psicanálise do fogo”, no qual ele faz ricas abstrações a partir da metáfora do fogo, pretendo aqui fazer uma breve reflexão sobre a “metáfora da mão” e suas implicações teológico-morais na dinâmica social da relação “eu-tu”.

A mão é, possivelmente, o membro mais solidário do corpo humano. Caso fosse necessário criar um conceito paralinguístico representativo do signo do amor, a mão seria semanticamente o construto linguístico que melhor definiria a ideia que se quer dar ao mesmo. Nela, o sentido da entrega resignada a um outro por causa dele mesmo (Karl Barth) seria perfeitamente aplicável. Ela (a mão) está para todos, sem esperar de qualquer um a recíproca reivindicada pelo sentido bilateral da ação social com relação aos fins.

Ao empreender uma ação reparativo-solidária a um outro, ela consegue oferecer ajuda sem emitir qualquer prévio juízo de valor como critério de motivação assistencial que justifique sua política de provisão social. Na mão, e somente nela, a engenharia sociológica da misericórdia ganha real inteligibilidade. É ela que acolhe uma criança quando esta está para nascer. Sua vocação solidária de sanear a sujeira alheia acaba, quase sempre, redundando no autoprejuízo de reter, em si e para si, o resíduo de mácula anteriormente presente num tu.

A mão é a melhor expressão de ternura acolhedora que se queira dar para a alteridade do diferente na antropologia da inclusão. Com ela, tornamos clara a intenção de paz. Por meio dela, a inimizade que promove a separação pode se converter em acolhimento que deseja reconciliação. Nela, a solidariedade entre os iguais transmuta-se em doação que entrosa até mesmo os diferentes. Através dela, não só lavamos todos os membros do corpo, mas também fazemos a manutenção estética de sua beleza, chegando, até mesmo, auxiliar na doença o membro em estado de dor.

No entanto, a mão não é solidária somente aos membros do próprio corpo no qual ela está integrada. Pois com ela, a cooperatividade fraterna se torna factível; o socorro oferecido ao desvalido historiciza a dimensão mística da psicologia do amor abnegado; o alimento que sobra num recinto provido chega à mesa vazia na casa de quem quase nada tem para sobreviver. É com a mão que expressamos carinho. Com ela consolamos, num generoso abraço compassivo, aqueles que na dor se sentem desamparados. Nela, a relação com o corpo se torna comunhão de todos. Sua missão é promover a unidade na diversidade. Sua função gnosiológica fundamental é revelar aos outros o substrato afetuoso do que se pode conhecer de uma verdadeira amizade. Ela é o “ideal do ego” da vocação diaconal.
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