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OPINIãO
 
  A alma e a matéria
 
Miguel Del Castillo

Para o filósofo Martin Heidegger (1889-1976), a maior necessidade do ser humano era o habitar, que vinha antes mesmo do construir. No ensaio “Construir, Habitar, Pensar”, ele mostra que o homem habita, por essência, a quadratura, um “polígono” cujas quatro pontas são céu, terra, divino e mortal. O ser humano habita o “entre”, é a própria fronteira.

Está com os pés na terra e a cabeça no céu. O habitar se finca na poesia, no poetar-pensante. A existência é vista como um todo indivisível. Ao habitar, o homem pensa e constrói seus espaços, suas arquiteturas, seus relacionamentos, sua vida.

Parece-me que, ao nos separarmos de Deus no Jardim, perdemos esse estado de “fronteira”. Estar ligado apenas à terra e ao que é mortal, sem possibilidade de transcendência, é um indício disso. O extremo oposto – uma vida nas alturas somente – não é, no entanto, a essência do ser. Ela talvez esteja arraigada numa mistura entre céu e terra, divino e humano, como uma dança entre os dois.

Vemos no Gênesis o homem sendo criado por Deus a partir do pó da terra. Ele é feito de chão, de barro. Deus então sopra o seu Espírito e ele se torna “alma vivente” – uma união entre terra e céu.

Marisa Monte canta algo parecido na música “A alma e a matéria”: “Vem pra esse mundo, Deus quer nascer. E a alma aproveita pra ser a matéria e viver”. Clarice Lispector, no livro “Um Sopro de Vida” – que trata da relação de um escritor com o personagem criado por ele –, escreve: “Aspiro a uma fusão de corpo e alma”. Eu também aspiro.

Os rituais do templo descritos no Antigo Testamento são belos e cheios de significados. Deus vinha e se manifestava concretamente no altar, com fogo, ou através de símbolos, como a imposição de mãos do sacerdote no animal, transferindo figuradamente o pecado do povo para o animal a ser sacrificado. O altar do templo era o principal local onde o divino entrava em contato com o mortal.

Nietzsche disse certa vez que “somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar”. Jesus foi e é essa dança: Deus e homem coexistindo sem conflitos, numa existência que transforma tudo. Ele é a materialização da própria quadratura. Quando diz “isto é o meu corpo” (e não quero aqui discutir a transubstanciação) ele está falando sobre algo muito palpável. Jesus amava a vida, não no sentido que condena em uma parábola, mas a vivia com intensidade. Marx estava certo ao dizer que a religião, caso vivamos somente “nas alturas”, é o ópio do povo. Contudo a espiritualidade encarnada proposta por Jesus é diferente. Nela a religião deixa de ser uma droga para se tornar o mecanismo pelo qual podemos viver e experimentar Deus aqui, nessa dança celestial e terrena, onde ele nos convida a habitarmos seguros e construirmos nossa vida pensando, sem esquecer da poesia que a permeia.


• Miguel Del Castillo é estudante de arquitetura e letras e editor da revista Noz.
   
 
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Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
André Von Held Soares | Niterói - RJ #1
Excelente a proposta de Deus: vamos fazer este homem pra que viva e que viva com a gente. Que viva no ínterim e na fronteira, para que num primeiro momento vislumbre o verdadeiro tempo e espaços futuros.
Um forte abraço.
Postado em 08/10/2009 às 20:19:12
 
Priscila Pereira Souza | Manaus - AM #2
Achei muito interessante esse mode de ver a nossa ligação com Deus de uma maneira diferente... Concordo que se estivermos longe de Deus tudo fica mais difícil principalmente em ficar "conectado" com o céu... Tudo depende Dele, para Ele.
Postado em 11/10/2009 às 00:02:49
 
André Eler | São Paulo - SP #3
O autor foi genial no passeio entre Heidegger, Nietzsche, Clarice e Cristo. Só creio que a queda, no Éden, não nos afasta totalmente do divino, embora desequilibre a relação. Também me parece que o habitar não pode ser assim seguro, antes é sempre fluido. É nessa fluidez que a gente pode ser - e essa é a beleza do ser de Heidegger. Ele não é, senão Ser-aí, ele só é como movimento (mas não progresso, como suporia um marxista).
Postado em 11/10/2009 às 20:07:32
 
Miguel Del Castillo | Rio De Janeiro - RJ #4
André Eler, seu comentário é muito pertinente e instigante. Certamente a queda gera esse desequilíbrio. Quanto ao habitar, isso que vc traz enriquece mais ainda a discussão: vejo uma segurança exatamente nessa fluidez, um habitar em movimento, existir (Ser-aí) como movimento em constante mudança, e Deus se fazendo carne em todo(s) esse(s) processo(s).
Postado em 20/10/2009 às 02:10:04
   
 
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