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Colunas — História

Os substitutos de Deus

Por Alderi S. de Matos

Como os muitos ídolos – da filosofia e arte à criação de filhos e comida – estão ocupando o lugar de Deus na devoção das pessoas

Desde a Queda, os seres humanos de todos os tempos, autocentrados e amantes de si mesmos, têm se rebelado contra o Ser Supremo. Em especial os “homens modernos” se mostram pródigos na criação de ídolos culturais ou intelectuais em substituição ao Absoluto. Na avaliação duradoura do apóstolo dos gentios, eles têm mudado a verdade de Deus em falsidade, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador. No entanto, ironicamente, mesmo que pecaminosas e ególatras, as pessoas anseiam por algo que dê um significado maior às suas vidas, que seja uma alternativa ao caos e ao desespero. Avessas às concepções religiosas e sobrenaturais, tidas como obscurantistas e superadas, partem numa busca ansiosa de outras respostas que possam dar algum sentido à existência.

Para os indivíduos mais sofisticados, uma dessas alternativas para Deus é a filosofia, não uma filosofia materialista e pessimista como a de Schopenhauer ou Feuerbach, mas o tipo de reflexão representado por Nietzsche, que por um lado é implacável na sua crítica contra o teísmo judaico-cristão, mas por outro procura ver beleza e sentido na peregrinação humana sobre a terra. Um bom representante brasileiro dessa corrente foi o pensador Rubem Alves, que embora tenha abandonado a fé cristã histórica, ainda assim considerava as ideias religiosas como símbolos das aspirações e dos ideais mais profundos do coração humano. Existem programas na televisão em que filósofos atuam como verdadeiros gurus, aconselhando as pessoas sobre suas dúvidas existenciais. Certas concepções éticas como o Kantismo, teorias sobre o ser humano como a Psicanálise e ideologias políticas como o Marxismo também se apresentam como sucedâneos de Deus para o homem moderno.

Outra manifestação que com frequência serve como um substituto para Deus é a arte. Evidentemente, não certas criações contemporâneas grosseiras e niilistas, mas as expressões mais elevadas de criatividade, que se eternizam, que apelam ao que há de mais profundo na sensibilidade estética do ser humano. Quem não se encanta e se emociona ao ver o belo quadro de um pintor renascentista, ouvir uma majestosa composição musical de Beethoven, ler uma peça magistral da literatura, assistir a um grande clássico do cinema? Os românticos alemães ficavam embevecidos ao contemplarem a beleza, majestade e fúria da natureza. Essas coisas impactam os seres humanos num sentido quase que espiritual porque parecem dar-lhes um senso de transcendência, de sublimidade, normalmente associado à experiência religiosa.

Com sua pretensão de explicar toda a realidade e de solucionar todos os tipos de problemas, a ciência é outro vigoroso substituto de Deus na contemporaneidade. Não importa que ela também revele fracassos clamorosos e até mesmo tenha o potencial de produzir grandes tragédias. Há um senso no tempo presente de que a investigação científica possui todas as respostas. Isso se verifica particularmente no âmbito da cosmologia, ou seja, a explicação da origem e natureza do universo e, por extensão, do ser humano. Em livros e documentários, é comum ver cientistas fazendo as mais ousadas reivindicações quanto à elucidação de todos os mistérios que inquietaram as pessoas do passado. Essa reivindicação totalizante se aproxima muito de uma concepção religiosa. Cientistas como o finado Stephen Hawking, Neil de Grasse Tyson e o autor best-seller Yuval Noah Harari são verdadeiros sacerdotes da moderna religião do cientificismo.

Porém, mesmo num nível menos culto e intelectualizado, isto é, no âmbito da vida diária, existem muitos competidores de Deus na devoção das pessoas. O autor David Zahl publicou recentemente um livro cujo título, Seculosity (“seculosidade”), funde as palavras religiosidade e secularismo. O subtítulo explica: “Como carreira, criação de filhos, tecnologia, comida, política e romance se tornaram a nossa nova religião, e o que fazer a respeito disso”. Sua tese é que os seres humanos possuem uma necessidade inata de satisfação, autojustificação e plenitude, mas a busca dessas coisas no excesso de ocupações, nas últimas novidades tecnológicas, no culto do corpo, no entretenimento, no perfeccionismo e na competição está produzindo o oposto do que se esperava.

Lamentavelmente até mesmo muitos cristãos estão se rendendo a esses ídolos falsos da cultura. A multiplicação constante de interesses e atividades, inclusive no próprio contexto da igreja, tem deixado as pessoas sem tempo e energia para buscar comunhão com Deus, dedicar-se à família, cultivar amizades e servir ao próximo. Elas correm o risco de ser enquadradas na denúncia triste e severa do Altíssimo: “Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). De modo sofisticado ou singelo, o coração humano não cessa de fabricar ídolos sedutores, frutos de seus próprios desejos e ambições. A isso, o Mestre por excelência responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida... Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente”.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira, A Caminhada Cristã na História e Fundamentos da Teologia Histórica. Artigos de sua autoria estão disponíveis aqui.

Leia mais:
» A loucura da idolatria

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