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Seções — Arte e Cultura

Literatura e cultura

O evangelho segundo... Snoopy!
Gladir Cabral

“Você sabe qual é o seu problema, Charlie Brown?” – pergunta Lucy com aquela carinha autoconfiante. E Charlie Brown responde já um pouco irritado: “Não, eu não sei e não quero saber! Me deixe em paz”. Então, Lucy sentencia: “O seu problema é que você não quer ouvir qual é o seu problema, Charlie Brown”. De um modo assim despretensioso, usando uma linguagem cotidiana, simples, as tirinhas do Snoopy vão tecendo inocência infantil, humor e ironia, para refletir sobre as questões mais importantes da vida: amizade, rejeição, pequenas alegrias, arte, aprendizado, família, medo, curiosidade e frustração.

Charles Schultz (1922–2000), cartunista americano autor das personagens e das histórias do Snoopy e Charlie Brown (Peanuts), era cristão confesso e professor da escola dominical na Church of God em Anderson, Indiana. Ele fazia de sua obra um exercício de arte e um ministério. Cada tirinha está repleta de reflexão, questionamento, celebração e testemunho do olhar de um cristão para o mundo e para a vida. “Tenho recebido o agradecimento de muitos por meu modo de pregar, através das tirinhas. Isso é uma das coisas que me fazem prosseguir” (Schultz apud Robert Short, 1968, p. 28).

Muitos críticos, no entanto, não dão o valor devido ao trabalho dos cartunistas. Muitos veem esse ofício como uma arte menor. Puro preconceito. O cartoon, assim como a pintura, a literatura e a música, entre outras linguagens artísticas, é um veículo muito interessante e apropriado para a reflexão sobre a realidade humana, as situações limites, as circunstâncias que cercam nossa vida cotidiana. Para Robert Short, estudioso da cultura que na década de 1960 publicou um livro sobre a obra de Schultz, “Peanuts, a famosa tirinha, geralmente assume a forma de uma parábola cristã para os dias modernos” (p. 26).

A primeira grande contribuição que as tirinhas do Snoopy nos trazem é ensinar que a imaginação é um dos elementos essenciais à vida humana. Sem imaginação não se pode ler a realidade e suas entrelinhas. Sem imaginação, não vivemos todo o potencial de nossa vocação como seres criados por Deus e dotados da capacidade de compreensão de significados e percepção estética.

Em uma das tirinhas, Lucy, Lino e Charlie Brown estão deitados no chão olhando as nuvens e tentando imaginar desenhos e formas. Subitamente, Lucy comenta: “Se você usar sua imaginação, verá muitas coisas na formação das nuvens... O que você consegue ver, Lino?”. E Lino responde: “Bem, aquelas nuvens de cima me parecem o mapa de Honduras, no Caribe... [...] E aquela outra parece um pouco com o perfil de Thomas Eakins, o famoso pintor e escultor... [...] E aquele grupo de nuvens lá me dão a impressão de esculturas de Stephen... Posso ver o apóstolo Paulo de pé no lado...”. Lucy responde: “Haham... Muito bem... O que você vê nas nuvens Charlie Brown?”. Aflito, Charlie Brown responde: “Bem, eu ia dizer que via um patinho e um cavalinho, mas mudei de ideia!”.

A segunda grande contribuição que as tirinhas trazem é mostrar que o artista cristão não tem de produzir uma arte explicitamente religiosa ou óbvia em seu significado. Como em toda a parábola, parte do ofício do cartunista é sugerir, mais do que declarar, provocar, suscitar reflexões, questionamentos. Ou seja, ele não tem de fazer um sermão. Mesmo assim, seu grande desafio continua sendo criar uma obra de arte que possa “libertar, reconciliar, transformar e edificar” (Seerveld, 2014, p. 134).

Finalmente, as tirinhas nos ensinam que, sem humor, não há como prosseguir. É preciso aprender a rir de si mesmo e assim considerar, pela via do riso, nossa humana condição. Muitas tirinhas falam das contradições humanas, das dificuldades de relacionamento e aceitação. Como aquela em que Lino revela à sua irmã Lucy o desejo de estudar medicina. Lucy comenta com ceticismo: “Você, um doutor! Não me faça rir!”. E ela continua: “Você jamais poderia ser um doutor! Sabe por quê? Porque você não ama a humanidade, só isso”. Lino para, pensa e responde: “Eu amo a humanidade... As pessoas é que eu não suporto!”.

Fontes
SEERVELD, Calvin. Redemptive art in society. Sioux Center: Dordt Press, 2014.
SHORT, Robert. The gospel according to Peanuts. 20. ed. Richmond: John Knox Press, 1968.

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/gladircabral

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