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Opinião

Pastoreai o rebanho: dois modelos de atuação pastoral — “Vivo ou morto: um mistério Knives Out”

Sempre houve, e ainda há, líderes inescrupulosos que abusam dos fiéis

Por Carlos Caldas

Knives Out (literalmente, “facas para fora”), no Brasil, “Entre facas e segredos”, é uma franquia com, por enquanto, três produções, todas disponíveis no canal de streaming Netflix: Entre facas e segredos (2019), Glass Onion: um mistério Knives Out (2022) e Vivo ou morto: um mistério Knives Out (2025). Os três filmes são histórias mirabolantes de mistério de crimes impossíveis que só são revelados no final (bem ao estilo Agatha Christie), todos assinados e roteirizados pelo diretor Rian Johnson e os três tendo no astro britânico Daniel Craig o ator principal, no papel do detetive Benoit Blanc.

Especula-se que haverá (ou poderá haver) um quarto filme, mas por enquanto, não há mais detalhes a respeito . Não há como não observar que o ponto em comum entre os (por enquanto?) três filmes é a resolução de um mistério por um detetive muito perspicaz e sagaz, mas as tramas propriamente e os elencos são diferentes, o que exige um esforço de criatividade imenso na criação dos roteiros. Mas a julgar pelo visto até agora, criatividade não é problema para Johnson. Um detalhe curioso: Craig, que vive o detetive Benoit Blanc, já por cinco vezes (de 2006 a 2021) deu vida na telona a James Bond, o famoso 007. Claro que são situações distintas, pois um agente secreto é muito diferente de um detetive particular. Mas não há como não notar a desenvoltura de Craig, que interpreta maravilhosamente bem dois personagens tão diferentes um do outro.

Uma palavra na primeira pessoa do singular: comecei a assistir o terceiro filme, mas com mais ou menos 15 minutos, desisti, porque achei chato e cansativo. Aí minha filha mais velha insistiu comigo para que eu retomasse e assistisse até o final, porque o elemento religioso tem importância muito destacada na narrativa. Ainda relutei um pouco, mas por fim, vi até o final. Minha primogênita estava certa, e justamente por isso, vou tecer alguns comentários a respeito deste filme.

De fato, a trama do filme circula em torno de uma questão religiosa, especificamente, no contexto do catolicismo romano. Jud, padre jovem e idealista, é designado por seu bispo diocesano para ser auxiliar do Monsenhor Wicks em uma paróquia localizada em uma cidadezinha interiorana. Wicks, interpretado pelo sempre competente Josh Brolin, é o tipo de personagem que é fácil de detestar: é cínico, mentiroso, agressivo, totalmente desprovido de compaixão e misericórdia, ofende todo mundo o tempo todo, não tem domínio próprio, é totalmente destemperado e desequilibrado emocionalmente. É curioso o nome do padre – Wicks, que foneticamente faz lembrar wicked, que significa “ímpio”, “perverso”, “iníquo”, “pecador”. O Monsenhor Wicks é exatamente assim. Jud, em contraste, é amoroso e sincero em sua fé. Ele quer a todo custo seguir o exemplo de Cristo no seu exercício pastoral. Mais um elemento surpreendente: Jud foneticamente lembra Judas, o símbolo máximo do traidor. Só a sonoridade é semelhante, porque em seu comportamento o Padre Jud não tem nada de Judas. Muito pelo contrário, ele é leal e fiel, primeiramente a Deus, e depois, à autoridade diocesana (no modelo de administração eclesiástica romano, o bispo é autoridade máxima – Wicks desafia abertamente o bispo, mas Jud é obediente) e, por fim, aos fiéis, de quem ele entende ser um servidor, não um senhor.

Na história, de uma maneira tão impressionante que chega a ser absurda, Wicks é assassinado dentro da igreja justamente quando a missa está sendo celebrada. Para piorar, Jud é o principal suspeito, porque os paroquianos sabiam das “tretas” entre os dois sacerdotes e, mesmo sendo muito maltratados por Wicks, logo se apressam a acusa-lo. É aí que entra em cena Benoit Blanc, e a história segue com reviravoltas incríveis até o desfecho surpreendente. O roteiro é um tanto confuso em alguns momentos, pois no final a solução é apresentada de maneira rápida demais.

A despeito de um problema ou outro na condução da narrativa da história, Vivo ou morto suscita uma discussão muito oportuna sobre modelos de atuação pastoral. Talvez o filme possa ser lido como uma crítica da atuação de sacerdotes romanos pré (Wicks) e pós (Jud) Vaticano II. Lido assim, o filme teria pouco interesse para quem não é católico. Pensando de uma maneira mais ampla, o filme pode ser entendido como uma metáfora de dois modelos de atuação pastoral. Um, é o modelo da dominação pelo medo, quando há assédio emocional e abuso espiritual da parte do líder, que controla e manipula os fiéis. Este é o modelo de Wicks. O outro é o modelo do exemplo, da abnegação, da boa vontade e da misericórdia, do desejo de ajudar os fiéis em sua caminhada de fé. Este é o modelo de Jud.



Vendo o filme, me lembrei do texto que inspirou o título deste breve comentário sobre o filme:

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que já de ser revelada:
Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangidos, mas espontaneamente, como Deus quer, nem por sórdida ganância, mas de boa vontade, nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória (1 Pedro 5.1-4, ARA).


Estes dois modelos de atuação pastoral sempre existiram na por enquanto duas vezes milenar história da igreja cristã. Sempre houve, e ainda há, líderes inescrupulosos que abusam dos fiéis. E pela mesma forma, sempre houve, e sempre haverá, líderes amáveis, que lideram pelo exemplo, pensando no bem estar daqueles por quem Cristo morreu. O modelo Wicks de liderança é detestável, pois causa muitos males psicológicos, emocionais e espirituais nos liderados. O modelo Jud é o que se esforça para imitar a Cristo. Líderes como Wicks muitas vezes se defendem dizendo que na liderança não se pode demonstrar o que entendem como sendo fraqueza. Mas a lógica do reino de Deus é outra, e apresenta como ideal não a violência, física ou emocional, mas a compaixão e a misericórdia do próprio Cristo.

1. Knives Out: franquia da Netflix terá quarto filme? Observatório do cinema. Disponível em https://observatoriodocinema.com.br/filmes/knives-out-franquia-da-netflix-tera-quarto-filme/ Acesso: 16 mar 2026.


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Saiba mais:
» Sonhos de trem e a beleza das coisas simples, por Carlos Caldas
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. É autor de Dietrich Bonhoeffer e a teologia pública no Brasil (São Paulo: Garimpo Editorial, 2016), vice-presidente da Sociedade Bonhoeffer Brasil e autor de vários artigos sobre Bonhoeffer.
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