Opinião
23 de fevereiro de 2026- Visualizações: 951
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Família, conservas e o desafio de ser sal
A maturidade cristã se mede não pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver
Por Paulo Ribeiro
A recente controvérsia em torno do desfile de uma escola de samba no Rio de Janeiro – que representou diferentes configurações familiares por meio de latas de conserva – provocou reações fortes, especialmente entre grupos evangélicos, que interpretaram a encenação como uma afronta aos valores da família.
Confesso que não compartilho dessa leitura. Ao assistir ao desfile, não vi ali um ataque deliberado à família cristã, mas uma representação simbólica de uma realidade concreta: vivemos em um mundo secular, plural, onde coexistem modelos familiares distintos, com suas virtudes, e fragilidades. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer.
Sou cristão e defensor da família tradicional. Creio em seus valores, em sua força estruturante e em seu papel fundamental na formação humana. Mas também entendo que a sociedade em que vivemos não é confessional, nem homogênea. Convivemos com diferenças – e a maturidade cristã se mede não pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver com humanidade, respeito e verdade.
É legítimo que os evangélicos defendam os valores da família. Isso é bom. O que causa estranhamento é quando essa defesa assume um tom moralizante e seletivo, esquecendo que os desafios enfrentados pelas famílias “de dentro” não são menores. Os índices de divórcio entre evangélicos são tão altos – e em alguns contextos até mais altos – do que os da sociedade em geral. Isso deveria nos convidar menos ao protesto simbólico e mais à humildade, ao exame de consciência e ao cuidado real das relações.
Como resposta ao desfile, começaram a circular imagens de famílias evangélicas dentro de latas de conserva, como forma de protesto. Foi então que uma observação simples, feita por um amigo – trouxe uma imagem ainda mais poderosa: alimentos em conserva têm prazo de validade. Quando o tempo passa e as bactérias vencem, o que parecia preservado torna-se tóxico. A metáfora é inevitável.

A família cristã não foi chamada a viver em conserva, isolada, fechada, protegida do mundo por paredes simbólicas. Foi chamada a estar no mundo, como sal — presente, discreta, transformadora. O sal não preserva afastando-se; ele cumpre sua função ao entrar em contato.
Talvez o verdadeiro desafio não seja reagir ao desfile, mas perguntar se não estamos, muitas vezes, tentando conservar aquilo que só permanece vivo quando é vivido com graça, verdade e amor.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”
Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Acontece nas Melhores Famílias – Famílias da Bíblia à luz da terapia familiar, Carlos "Catito" Grzybowski e Jorge Maldonado
» Discordâncias Religiosas – Como lidar com a pluralidade de crenças, Helen De Cruz
» O Mundo – Uma missão a cumprir, John Stott e Tim Chester
» O Evangelho em Uma Sociedade Pluralista, Lesslie Newbigin
Por Paulo Ribeiro
A recente controvérsia em torno do desfile de uma escola de samba no Rio de Janeiro – que representou diferentes configurações familiares por meio de latas de conserva – provocou reações fortes, especialmente entre grupos evangélicos, que interpretaram a encenação como uma afronta aos valores da família.Confesso que não compartilho dessa leitura. Ao assistir ao desfile, não vi ali um ataque deliberado à família cristã, mas uma representação simbólica de uma realidade concreta: vivemos em um mundo secular, plural, onde coexistem modelos familiares distintos, com suas virtudes, e fragilidades. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer.
Sou cristão e defensor da família tradicional. Creio em seus valores, em sua força estruturante e em seu papel fundamental na formação humana. Mas também entendo que a sociedade em que vivemos não é confessional, nem homogênea. Convivemos com diferenças – e a maturidade cristã se mede não pela capacidade de se isolar, mas pela de conviver com humanidade, respeito e verdade.
É legítimo que os evangélicos defendam os valores da família. Isso é bom. O que causa estranhamento é quando essa defesa assume um tom moralizante e seletivo, esquecendo que os desafios enfrentados pelas famílias “de dentro” não são menores. Os índices de divórcio entre evangélicos são tão altos – e em alguns contextos até mais altos – do que os da sociedade em geral. Isso deveria nos convidar menos ao protesto simbólico e mais à humildade, ao exame de consciência e ao cuidado real das relações.
Como resposta ao desfile, começaram a circular imagens de famílias evangélicas dentro de latas de conserva, como forma de protesto. Foi então que uma observação simples, feita por um amigo – trouxe uma imagem ainda mais poderosa: alimentos em conserva têm prazo de validade. Quando o tempo passa e as bactérias vencem, o que parecia preservado torna-se tóxico. A metáfora é inevitável.

A família cristã não foi chamada a viver em conserva, isolada, fechada, protegida do mundo por paredes simbólicas. Foi chamada a estar no mundo, como sal — presente, discreta, transformadora. O sal não preserva afastando-se; ele cumpre sua função ao entrar em contato.
Talvez o verdadeiro desafio não seja reagir ao desfile, mas perguntar se não estamos, muitas vezes, tentando conservar aquilo que só permanece vivo quando é vivido com graça, verdade e amor.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Acontece nas Melhores Famílias – Famílias da Bíblia à luz da terapia familiar, Carlos "Catito" Grzybowski e Jorge Maldonado
» Discordâncias Religiosas – Como lidar com a pluralidade de crenças, Helen De Cruz
» O Mundo – Uma missão a cumprir, John Stott e Tim Chester
» O Evangelho em Uma Sociedade Pluralista, Lesslie Newbigin
Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi Professor em Universidades nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, e Pesquisador em Centros de Pesquisa (EPRI, NASA). Atualmente é Professor Titular Livre na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e torcedor do Santa Cruz.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao
Pesquisa publicada recentemente aponta os cientistas destacados entre o “top” 2% dos pesquisadores de maior influência no mundo, nas diversas áreas do conhecimento. Destes, 600 cientistas são de Instituições Brasileiras. O Professor Paulo F. Ribeiro foi incluído nesta lista relacionado a área de Engenharia Elétrica.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao
Pesquisa publicada recentemente aponta os cientistas destacados entre o “top” 2% dos pesquisadores de maior influência no mundo, nas diversas áreas do conhecimento. Destes, 600 cientistas são de Instituições Brasileiras. O Professor Paulo F. Ribeiro foi incluído nesta lista relacionado a área de Engenharia Elétrica.
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