Opinião
01 de abril de 2026- Visualizações: 916
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Entre a crise e a esperança: fé e migração na fronteira Colômbia-Venezuela
Jornalista colombiano conta o que viu na cidade que mais recebeu venezuelanos nos últimos anos
Entrevista por Mariana Albuquerque
O ano de 2026 começou com a notícia da captura de Nicolás Maduro. No dia 3 de janeiro, as forças estadunidenses realizaram ataques aéreos contra o Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, onde Maduro estava abrigado com sua esposa. O ministro do Interior, Doisdado Cabello, afirmou que o ataque norte-americano deixou 100 mortos, incluindo civis.
O país sul-americano tem enfrentado dias sombrios. O governo de Nicolás Maduro começou em 2013 e seu regime era considerado autocrata, concentrando autoridade estatal em suas mãos enquanto exilava, perseguia, torturava e matava opositores. Além disso, o PIB do país tem apresentado queda acentuada nos últimos anos e a hiperinflação parece não ter fim. Esse conjunto de fatores fez com que muitos venezuelanos decidissem deixar o país. De acordo com dados das Nações Unidas, cerca de 7,7 milhões de pessoas deixaram a Venezuela na última década.
A Colômbia é o principal destino dos venezuelanos, abrigando mais de 2,8 milhões de migrantes e refugiados, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados.
O jornalista colombiano Hernán Restrepo tem produzido uma série de artigos sobre a Venezuela para a revista Christianity Today e aceitou conversar com Ultimato sobre sua recente visita a Cúcuta, principal cidade colombiana que faz divisa com a Venezuela e é a maior porta de entrada para imigrantes.
O que mais o impactou durante sua permanência na fronteira entre Colômbia e Venezuela?
Conhecer o trabalho que a Convenção Batista Nacional da Venezuela realiza por meio da Casa de Missão em Villa del Rosario, um prédio de três andares onde eles oferecem assistência médica, alimentos, produtos de higiene e abrigo para imigrantes venezuelanos e deslocados colombianos. Presenciar aquilo me fez me sentir mal, porque realmente falhamos em apoiar mais nossos irmãos e irmãs venezuelanos. Nós os vemos como uma ameaça, em vez de uma bênção para o país.
Como é o ambiente em Cúcuta? O que você viu por lá que não costumamos ver nos noticiários?
Cúcuta pode ser bastante sombria para os imigrantes. É uma cidade difícil, onde convergem todos os males da Venezuela, mas também todos os males da Colômbia: tráfico de drogas, contrabando, deslocamento forçado, pobreza.
Encontrei vários jornalistas de diferentes veículos de comunicação que também estavam lá para fazer reportagens. Havia jornalistas espanhóis, brasileiros, britânicos e até mesmo uma jornalista de Hong Kong. Eles esperavam uma onda de venezuelanos fugindo do país após a prisão de Maduro. Essa onda não chegou, e talvez não chegue. Talvez a onda seja, na verdade, de venezuelanos retornando ao seu país quando as coisas melhorarem.
Você notou mudanças recentes no fluxo migratório ou no perfil dos imigrantes?
Hoje, apenas alguns estão cruzando a fronteira e normalmente essas pessoas estão fugindo da fome que ainda assola toda a Venezuela. Mas o número não chega perto do que vimos em 2018 ou 2021, quando rios de pessoas chegavam ao nosso país.
Como os cristãos e as igrejas estão trabalhando na fronteira?
É difícil avaliar, mas a verdade é que poucas igrejas colombianas estão fazendo algo pelos imigrantes. Igrejas como a Casa Sobre la Roca são exceção. Essa igreja administra um lar para meninas abandonadas. Fiquei surpreso ao ver que os próprios venezuelanos lideram algumas iniciativas, como a Casa de la Misión Bautista de Venezuela, em Villa del Rosario. O trabalho de ONGs internacionais com presença na cidade também é importante, como a Samaritan’s Purse, uma organização cristã com escritório local.
Em Cúcuta, a ajuda é mais focada em ações de curto prazo porque a cidade serve de ponte para que os imigrantes cheguem a regiões mais afastadas da fronteira, como Bogotá e Medellín, ou até mesmo a outros países.

Há cooperação entre igrejas locais e organizações internacionais?
Sim, definitivamente. O meu guia durante o fim de semana que passei na cidade me contou como os pastores são figuras-chave nesse processo. Eles informam organizações humanitárias sobre a localização das famílias que mais precisam de ajuda, como alimentos ou remédios. Organizações cristãs como a Samaritan’s Purse trabalham em conjunto com as igrejas, levando não apenas ajuda humanitária, mas também conforto espiritual, oração, Bíblias e folhetos com literatura cristã.
Você viu exemplos práticos de fé em meio à crise?
O testemunho do pastor William Lacle me impactou muito. Quando o conheci, ele estava trabalhando com as próprias mãos na construção do segundo andar de sua igreja – uma igreja pequena e humilde nas colinas de Villa del Rosario, uma cidade ao sul de Cúcuta, repleta de imigrantes e colombianos deslocados pela violência. Apesar de seus recursos limitados, ele formou alianças com duas organizações humanitárias para fornecer almoços para as crianças mais pobres do bairro onde a igreja está localizada. Isso é o verdadeiro cristianismo.
A falta de dinheiro é o principal desafio para que as igrejas continuem oferecendo ajuda. O próprio pastor Lacle me contou que os membros de sua igreja não pagam o dízimo porque não podem; não têm condições. Para viver e continuar sua missão, ele precisa ganhar dinheiro dirigindo seu carro e fazendo mudanças.
Você enxerga alguma possibilidade real de mudança positiva?
Sim. Nos anos 1980, a Venezuela era conhecida como “Venezuela Saudita” devido à riqueza do país. Lembro-me da inveja que senti nos anos 1990 quando Michael Jackson, o Rei do Pop, se apresentou em Caracas, mas não em Bogotá, onde moro. Isso ilustra a importância da economia venezuelana naquela época. Como na história de Jó, se eles conseguirem recolocar sua indústria petrolífera no topo, seu futuro será melhor que seu passado, já que possuem as maiores reservas de petróleo do mundo.
O que precisaria acontecer para que essa crise realmente começasse a ser resolvida?
Todos os venezuelanos com quem conversei me disseram a mesma coisa: a prisão de Maduro não é suficiente. Seus comparsas também devem ser afastados do poder, especialmente Diosdado Cabello (ministro do Interior), os irmãos Rodríguez (vice-presidente e presidente da Assembleia Nacional) e Vladimir Padrino (ministro da Defesa). Em seguida, eleições livres devem ser realizadas e, com sorte, o partido de María Corina Machado vencerá, pois ela tem uma visão clara do que precisa ser feito para que a Venezuela retorne à democracia.
O que você gostaria de dizer para aqueles que estão longe da fronteira?
Não apenas para aqueles que estão longe da fronteira, mas para todos os meus irmãos e irmãs em Cristo, eu diria que os imigrantes venezuelanos precisam de mais do que apenas nossas orações. Precisamos abrir nossos bolsos e fornecer-lhes roupas, remédios, refeições e talvez algum dinheiro para que possam continuar sua jornada. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a Venezuela recebeu milhões de colombianos que fugiam da violência relacionada ao narcotráfico. Agora é hora de retribuir o favor.
Como pessoas comuns – especialmente cristãos – podem se envolver de forma responsável?
Procurem organizações cristãs que atuam na fronteira ajudando os imigrantes, fornecendo não apenas ajuda material, mas também orientação espiritual. Organizações como Samaritan’s Purse, Fundación MAS, Blooms & Root, Asociación Semilla de Trigo ou a Convenção Batista Nacional da Venezuela são ótimas opções.
Nota da Ultimato: A Visão Mundial Brasil também é uma instituição que pode ser procurada por aqueles que desejam ajudar as igrejas e os irmãos envolvidos na crise venezuelana. Mais informações no perfil do Instagram da Visão Mundial – @visaomundialbr.
REVISTA ULTIMATO – GENEROSIDADE - "HÁ MAIOR FELICIDADE EM DAR DO QUE EM RECEBER! (ATOS 20.35)
A generosidade é paradoxal! Que dá recebe em troca. E é multifacetada, podendo apresentar-se de muitas formas, e não apenas na doação de recursos materiais e dinheiro.
Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
É disso que trata a edição 418. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Quando a Igreja Abraça a Cidade, Vários autores
Entrevista por Mariana Albuquerque
O ano de 2026 começou com a notícia da captura de Nicolás Maduro. No dia 3 de janeiro, as forças estadunidenses realizaram ataques aéreos contra o Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, onde Maduro estava abrigado com sua esposa. O ministro do Interior, Doisdado Cabello, afirmou que o ataque norte-americano deixou 100 mortos, incluindo civis.O país sul-americano tem enfrentado dias sombrios. O governo de Nicolás Maduro começou em 2013 e seu regime era considerado autocrata, concentrando autoridade estatal em suas mãos enquanto exilava, perseguia, torturava e matava opositores. Além disso, o PIB do país tem apresentado queda acentuada nos últimos anos e a hiperinflação parece não ter fim. Esse conjunto de fatores fez com que muitos venezuelanos decidissem deixar o país. De acordo com dados das Nações Unidas, cerca de 7,7 milhões de pessoas deixaram a Venezuela na última década.
A Colômbia é o principal destino dos venezuelanos, abrigando mais de 2,8 milhões de migrantes e refugiados, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados.
O jornalista colombiano Hernán Restrepo tem produzido uma série de artigos sobre a Venezuela para a revista Christianity Today e aceitou conversar com Ultimato sobre sua recente visita a Cúcuta, principal cidade colombiana que faz divisa com a Venezuela e é a maior porta de entrada para imigrantes.
O que mais o impactou durante sua permanência na fronteira entre Colômbia e Venezuela?
Conhecer o trabalho que a Convenção Batista Nacional da Venezuela realiza por meio da Casa de Missão em Villa del Rosario, um prédio de três andares onde eles oferecem assistência médica, alimentos, produtos de higiene e abrigo para imigrantes venezuelanos e deslocados colombianos. Presenciar aquilo me fez me sentir mal, porque realmente falhamos em apoiar mais nossos irmãos e irmãs venezuelanos. Nós os vemos como uma ameaça, em vez de uma bênção para o país.
Como é o ambiente em Cúcuta? O que você viu por lá que não costumamos ver nos noticiários?
Cúcuta pode ser bastante sombria para os imigrantes. É uma cidade difícil, onde convergem todos os males da Venezuela, mas também todos os males da Colômbia: tráfico de drogas, contrabando, deslocamento forçado, pobreza.
Encontrei vários jornalistas de diferentes veículos de comunicação que também estavam lá para fazer reportagens. Havia jornalistas espanhóis, brasileiros, britânicos e até mesmo uma jornalista de Hong Kong. Eles esperavam uma onda de venezuelanos fugindo do país após a prisão de Maduro. Essa onda não chegou, e talvez não chegue. Talvez a onda seja, na verdade, de venezuelanos retornando ao seu país quando as coisas melhorarem.
Você notou mudanças recentes no fluxo migratório ou no perfil dos imigrantes?
Hoje, apenas alguns estão cruzando a fronteira e normalmente essas pessoas estão fugindo da fome que ainda assola toda a Venezuela. Mas o número não chega perto do que vimos em 2018 ou 2021, quando rios de pessoas chegavam ao nosso país.
Como os cristãos e as igrejas estão trabalhando na fronteira?
É difícil avaliar, mas a verdade é que poucas igrejas colombianas estão fazendo algo pelos imigrantes. Igrejas como a Casa Sobre la Roca são exceção. Essa igreja administra um lar para meninas abandonadas. Fiquei surpreso ao ver que os próprios venezuelanos lideram algumas iniciativas, como a Casa de la Misión Bautista de Venezuela, em Villa del Rosario. O trabalho de ONGs internacionais com presença na cidade também é importante, como a Samaritan’s Purse, uma organização cristã com escritório local.
Em Cúcuta, a ajuda é mais focada em ações de curto prazo porque a cidade serve de ponte para que os imigrantes cheguem a regiões mais afastadas da fronteira, como Bogotá e Medellín, ou até mesmo a outros países.

Há cooperação entre igrejas locais e organizações internacionais?
Sim, definitivamente. O meu guia durante o fim de semana que passei na cidade me contou como os pastores são figuras-chave nesse processo. Eles informam organizações humanitárias sobre a localização das famílias que mais precisam de ajuda, como alimentos ou remédios. Organizações cristãs como a Samaritan’s Purse trabalham em conjunto com as igrejas, levando não apenas ajuda humanitária, mas também conforto espiritual, oração, Bíblias e folhetos com literatura cristã.
Você viu exemplos práticos de fé em meio à crise?
O testemunho do pastor William Lacle me impactou muito. Quando o conheci, ele estava trabalhando com as próprias mãos na construção do segundo andar de sua igreja – uma igreja pequena e humilde nas colinas de Villa del Rosario, uma cidade ao sul de Cúcuta, repleta de imigrantes e colombianos deslocados pela violência. Apesar de seus recursos limitados, ele formou alianças com duas organizações humanitárias para fornecer almoços para as crianças mais pobres do bairro onde a igreja está localizada. Isso é o verdadeiro cristianismo.A falta de dinheiro é o principal desafio para que as igrejas continuem oferecendo ajuda. O próprio pastor Lacle me contou que os membros de sua igreja não pagam o dízimo porque não podem; não têm condições. Para viver e continuar sua missão, ele precisa ganhar dinheiro dirigindo seu carro e fazendo mudanças.
Você enxerga alguma possibilidade real de mudança positiva?
Sim. Nos anos 1980, a Venezuela era conhecida como “Venezuela Saudita” devido à riqueza do país. Lembro-me da inveja que senti nos anos 1990 quando Michael Jackson, o Rei do Pop, se apresentou em Caracas, mas não em Bogotá, onde moro. Isso ilustra a importância da economia venezuelana naquela época. Como na história de Jó, se eles conseguirem recolocar sua indústria petrolífera no topo, seu futuro será melhor que seu passado, já que possuem as maiores reservas de petróleo do mundo.
O que precisaria acontecer para que essa crise realmente começasse a ser resolvida?
Todos os venezuelanos com quem conversei me disseram a mesma coisa: a prisão de Maduro não é suficiente. Seus comparsas também devem ser afastados do poder, especialmente Diosdado Cabello (ministro do Interior), os irmãos Rodríguez (vice-presidente e presidente da Assembleia Nacional) e Vladimir Padrino (ministro da Defesa). Em seguida, eleições livres devem ser realizadas e, com sorte, o partido de María Corina Machado vencerá, pois ela tem uma visão clara do que precisa ser feito para que a Venezuela retorne à democracia.
O que você gostaria de dizer para aqueles que estão longe da fronteira?
Não apenas para aqueles que estão longe da fronteira, mas para todos os meus irmãos e irmãs em Cristo, eu diria que os imigrantes venezuelanos precisam de mais do que apenas nossas orações. Precisamos abrir nossos bolsos e fornecer-lhes roupas, remédios, refeições e talvez algum dinheiro para que possam continuar sua jornada. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a Venezuela recebeu milhões de colombianos que fugiam da violência relacionada ao narcotráfico. Agora é hora de retribuir o favor.Como pessoas comuns – especialmente cristãos – podem se envolver de forma responsável?
Procurem organizações cristãs que atuam na fronteira ajudando os imigrantes, fornecendo não apenas ajuda material, mas também orientação espiritual. Organizações como Samaritan’s Purse, Fundación MAS, Blooms & Root, Asociación Semilla de Trigo ou a Convenção Batista Nacional da Venezuela são ótimas opções.
Nota da Ultimato: A Visão Mundial Brasil também é uma instituição que pode ser procurada por aqueles que desejam ajudar as igrejas e os irmãos envolvidos na crise venezuelana. Mais informações no perfil do Instagram da Visão Mundial – @visaomundialbr.
- Mariana Albuquerque é casada com Mateus, graduada em jornalismo e pós-graduada em neurociência e comportamento humano. Atualmente é gerente de projetos das traduções da Christianity Today. @marianalbuqrq.
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Deus conta com a generosidade na relações humanas e nas relações dentro da igreja. Ela é um elemento previsto por ele para o bem comum e para o avanço de sua obra.
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