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Prateleira

Teologia feita de histórias

Portal Ultimato - Por que temos tão poucos escritores de ficção evangélicos no Brasil?

Cayo César
- No processo de apresentação do “manuscrito” deste livro para a Editora Ultimato tomei consciência da enorme dificuldade de produção de uma obra ficcional por autores nacionais em nosso país. Pesquisas sobre o tema e informações que recebi dos editores demonstraram que esta é uma dificuldade de todo o contexto literário brasileiro. No âmbito evangélico (ou protestante) ficou claro que é ainda mais difícil a aceitação e publicação de obras de ficção. Arriscando um palpite, já que não conheço o assunto, talvez haja uma mistura de medo e de um certo preconceito do meio evangélico, decorrentes, quem sabe, de heranças históricas e culturais. Veja, por exemplo, a “busca pela Verdade”, marco da Reforma Protestante. Nada há de errado em tal busca e foi ela que causou a enorme revolução reformada. Contudo, à vista de tal busca pela Verdade, cria-se, também, um certo temor em torno daquilo que é, sabidamente, fantasia ou imaginação, por vezes relacionados a práticas equivocadas do cristianismo combatidas naquele momento histórico.

Assim, tenho a impressão que existe um receio subliminar de que uma história, só porque não referente a fatos ou eventos reais, possa ser uma mentira, o que, quem sabe, seja umas das causas que dificultam a publicação de obras de ficção no meio evangélico. Todavia, tais barreiras precisam ser superadas, visto que histórias nascidas do imaginário muitas vezes carregam verdades profundas e impactantes.

No caso de Século I - O Resgate, procuro dispensar um tratamento absolutamente fiel ao conteúdo das narrativas bíblicas “transportadas” para o cenário de ficção da obra e respaldar os relatos complementares em dados históricos e geográficos coerentes – esta foi a tônica do trabalho. Cada história, no livro, que tenha relação com personagens reais – aqueles apresentados como pessoas reais pelos autores bíblicos - é contada com exato rigor em relação ao modo com que é apresentada no texto sagrado. A licença imaginativa apenas se dá para os detalhes não relatados no bojo do texto bíblico e, ainda assim, busco a maior plausibilidade possível, tanto no contexto, quanto nas atitudes dos personagens.

Acho oportuno, por fim, destacar a coragem e a visão dos editores da Ultimato que - não obstante as dificuldades que mencionei - decidiram pelo acolhimento do projeto. Torço para que seja apenas a primeira de muitas outras obras dessa natureza que surjam em nosso meio.

Portal Ultimato - O livro conta a peregrinação de Samuel à procura do Messias. O quanto o leitor poderá se identificar com Samuel?

Cayo César
- Penso que haverá grande identificação dos leitores, se tomo como paradigma a minha própria identificação com o personagem. Veja: Samuel é concebido como uma espécie de “alter ego” de todo ser humano que nasce após os eventos que marcaram a vida, morte e mesmo a ressurreição de Jesus de Nazaré. Samuel é cada um e todos os homens e mulheres em sua busca interior pelo divino, pelo sagrado e pelo transcendente. No caso específico do cristianismo, esta busca se encerra na pessoa de Jesus.

Ao buscar conhecer o rabino galileu a partir de relatos de testemunhas oculares, mas sem tê-lo, ainda, visto e ouvido, Samuel personifica o homem moderno, para quem só é possível conhecer Jesus Cristo, que mudou a história, a partir do testemunho daqueles que, efetivamente, estiveram com Ele e, como diz o apóstolo João, “viram a sua glória”. Nessa linha de pensamento, então, Samuel sou eu, Samuel é você, Samuel é todo ser humano.

Porém, penso que a identificação não se dará apenas com o personagem Samuel, mas com todos os personagens apresentados no livro. Haverá, por certo, dentre os leitores, ou, melhor dizendo, dentre os “momentos de vida” de cada leitor, a nítida identificação com os personagens. Haverá, então, mulheres samaritanas que ainda não compreendem o que é o verdadeiro amor. Haverá cegos assentados à beira do caminho da vida, sem saber para onde ir, clamando socorro. Haverá gente cuja vida anda pesada demais, mas que não desiste de sua fé em Deus e se deixa por Ele tocar...

Aliás, esta pergunta me remete a um método de ensino e reflexão que costumo propor, sempre que tenho a oportunidade de expor a Palavra: sugiro que nos coloquemos no lugar dos personagens que vão sendo apresentados no texto bíblico. É assim, por exemplo, que podemos refletir sobre os relatos dos Evangelhos em diferentes visões, por vezes ocupando o lugar dos enfermos e necessitados, ou das pessoas que se acotovelavam nas multidões, ou dos fariseus e outros opositores e até mesmo no lugar do próprio Jesus, para entender como Ele age e, assim, melhor poder imitá-lo... Penso que este método de identificação, então, ocorrerá de forma natural na leitura do livro.

Portal Ultimato - Enquanto narra as andanças de Samuel, você também destaca o poder do Evangelho nos dramas pessoais de quem se encontrou com Jesus. Como entender a dimensão pessoal do Evangelho sem cair num subjetivismo ou individualismo?

Cayo César
- Esta é uma pergunta complexa, a meu ver, exatamente porque a própria vida é complexa. Em certo sentido, tudo na vida é subjetivo, ou seja, a experiência da existência humana passa, necessariamente, pela percepção pessoal e individual de cada um. O ser humano é assim porque o Criador o fez assim. Tem relação direta com a ideia de “imagem e semelhança” (“Imago Dei”) posta na receita de feitura da humanidade. Todavia, este é apenas um aspecto da narrativa dos Evangelhos. Por certo há sim, de maneira inegável, o impacto do Evangelho em indivíduos e em suas histórias particulares, porém, há também, um projeto mais amplo, global, de Deus para a própria história humana.

Então, por exemplo, quando Jesus se encontra com a mulher estrangeira da região da Síria e Fenícia, em um dos capítulos do livro - este é um encontro real relatado no texto sagrado – temos, ali, duas dimensões que se complementam naquele evento espetacular. De um lado é, sim, um drama pessoal, individual e subjetivo daquela mãe, que já não suporta a dor de uma filha aprisionada por um grave problema espiritual que afeta, também, sua saúde. De outro lado, contudo, também se vê, neste evento real, uma enorme metáfora da expansão do Reino de Deus, trazido pela presença de Jesus na Terra, para todos os povos e, não mais, apenas, para os judeus. O que quero destacar, então, é o fato de que, sempre haverá dois ou mais aspectos das histórias e, me parece, é um risco tentar restringi-las a um ou a outro ângulo da questão.

A revelação bíblica, eu costumo afirmar, é uma única e grande história, não é um conjunto ou ajuntamento de várias histórias isoladas, mas, ao final e ao cabo, é a história da humanidade a partir da perspectiva do Criador. A encarnação, ou seja, a presença física e real do próprio Deus entre os homens, é o clímax desta história e seus desdobramentos serão para todas as dimensões, sejam pessoais, sejam globais. O projeto de Deus é para “todo aquele que n’Ele crer”, mas, também, começa com cada um que crer. Não parece, portanto, ser necessário temer o “subjetivismo”, se falamos e vivemos com Cristo como referência para a nossa existência. A semente da Palavra, ao ser lançada, produz o fruto que precisa produzir, pois é o Senhor da Criação que garante o seu crescimento!

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