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Opinião

O que a Bíblia fez com Lutero e o que Lutero fez com a Bíblia

Por Vilson Scholz

Por vezes, Lutero é apresentado como teólogo, sem maior vinculação com a Bíblia. No entanto, Lutero foi, antes de tudo, um biblista. Assim, ao se celebrar 500 anos da Reforma, cabe perguntar o que a Bíblia fez com Lutero e o que Lutero fez com a Bíblia.

Lutero não redescobriu a Bíblia. Ele redescobriu o evangelho da graça divina, na Bíblia. Ele conhecia trechos da Bíblia desde a infância. A Bíblia também era lida na missa, embora em latim. Lutero também não foi o primeiro a traduzir a Bíblia para o alemão, pois no tempo dele já havia 18 traduções para esta língua.

Também é verdade que Lutero não se tornou reformador da noite para o dia, na véspera de 31 de outubro de 1517. A assim chamada “experiência da torre”, aquele momento em que entendeu o significado de “justiça de Deus” nos Salmos à luz de Romanos, aconteceu antes. Talvez em 1513 ou, mais provavelmente, em 1515. Essa descoberta de que justiça de Deus é dádiva e não exigência fez com que as portas do paraíso se abrissem e ele passasse a ver o cristianismo e a Bíblia de forma diferente.

A Reforma nasceu no quarto de estudo de um professor de Bíblia, mas veio a público em função do cuidado pastoral. O convite para um debate sobre o valor das indulgências, feito em 31 de outubro de 1517, brotava de uma preocupação pastoral. Era um protesto contra um abuso no âmbito da cura d’almas. A primeira das 95 Teses já deixa isto claro, ao dizer: “Quando nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, disse: ‘façam penitência’, queria que toda a vida dos fiéis fosse vida de penitência”. Ter um bilhete de indulgência nas mãos criava uma falsa segurança, levando os cristãos de Wittenberg a se esquecer do “arrependam-se” que Cristo falou. Foi contra essa situação que Lutero protestou, num primeiro momento.

A Reforma, que é restauração (e não renovação), amadureceu. Na versão luterana, atingiu o ponto de maturidade em 1530, com a redação da Confissão de Augsburgo. Filmes sobre Lutero, tanto o mais antigo (e melhor), de 1953, quanto o mais recente, de 2003, terminam com a apresentação da Confissão de Augsburgo. Quem quiser conhecer a Reforma em visão luterana precisa ler a Confissão de Augsburgo.

Portanto, o que foi que a Bíblia fez com Lutero? Para muitos, fez dele um herege. Assim, ainda em 1958, aqui no Brasil, o filme sobre Lutero, aquele de 1953, foi declarado impróprio para menores de 18 anos. Mas a Bíblia fez de Lutero um cristão evangélico, no sentido de alguém que recebeu o consolo do evangelho e viveu em função deste evangelho. Lutero colocou o Cristo crucificado e ressuscitado no centro da pregação e do ensino da Igreja. Apontar para Cristo significava, ao mesmo tempo, enfatizar o “somente a graça”, em Cristo, “somente pela fé”, em Cristo, e “somente a Escritura”, que ensina Cristo. Reforma foi e ainda é dar destaque à pessoa e obra de Cristo. Se o centro das atenções for Lutero, algo está errado.

E o que foi que Lutero fez com a Bíblia? Antes de tudo, Lutero levou a Bíblia a sério. Olhava toda a Bíblia, e não apenas uma coletânea de textos. Enfatizou que os textos precisam ser lidos à luz do argumento central, cristalizado nas cartas aos Romanos e aos Gálatas. Argumentou com a Escritura e não se deixou persuadir por argumentos que não tivessem respaldo bíblico. Além disso, Lutero confiou no poder da Palavra. Para ele, mais do que nomear ou designar, a Palavra de Deus realiza coisas.

Mesmo não sendo o pastor da igreja de Wittenberg, Lutero também pregou, e muito. Mais de duas mil pregações de Lutero chegaram até nós, muitas delas em anotações feitas por outras pessoas. Lutero também ensinou a Bíblia, como professor de teologia que era. Ajudou a promover uma reforma do currículo da teologia, colocando os profetas e apóstolos em lugar dos filósofos. Dos 55 volumes das obras de Lutero em tradução inglesa, 30 são de cunho exegético. Hoje, Lutero seria professor de Antigo Testamento. Apenas por um breve período, de 1515 a 1518, fez preleções sobre livros do Novo Testamento. Afinal, o professor de Novo Testamento era Filipe Melanchthon. Nos últimos dez anos de vida, Lutero explicou o livro de Gênesis, com várias interrupções por causa de doenças e viagens. Algumas das ênfases de Lutero derivam desse contato com o Antigo Testamento, em especial o realismo da vida cristã (o aspecto do “pecador”, na conhecida fórmula simul iustus et peccator) e a valorização da ordem criada por Deus (na assim chamada “doutrina” dos dois reinos ou regimentos).

No entanto, Lutero se notabilizou como tradutor da Bíblia. Traduziu o Novo Testamento sozinho, em 11 semanas, no castelo do Wartburgo, na passagem de 1521 para 1522. A tradução do Antigo Testamento levou 11 anos, sendo concluída apenas em 1534. Não foi tradução apenas de Lutero, visto que ele contou com a ajuda de toda uma equipe, os colegas professores da Universidade de Wittenberg.

Lutero tinha as qualificações de um bom tradutor. Conhecia a Bíblia como poucos e sabia se expressar muito bem em alemão. Fez uso da língua oficial da corte da Saxônia, que era entendida num contexto mais amplo. Mas, acima de tudo, Lutero tinha o segredo do tradutor: sabia fazer a passagem ou transferência de uma língua para a outra. Para ele, as perguntas norteadoras eram: “Como se diz isto em alemão?”, “O leitor vai entender?”. Com tal finalidade em vista, Lutero foi ouvir como o povo falava. São bem conhecidas as palavras: “Não se deve perguntar às letras na língua latina como se deve falar em alemão, como fazem esses burros, e sim, é preciso perguntar à mãe em casa, às crianças na rua, ao popular na feira, ouvindo como falam, e traduzir do mesmo jeito, então vão entender e notarão que se está falando alemão com eles.” (Da Tradução e da Intercessão dos Santos – 1530, Martinho Lutero - Obras Selecionadas, vol. 8, p. 211-212). Lutero escreveu alemão de verdade, e não um latim disfarçado de alemão.

Sem ser o “pai” do princípio de tradução dinâmica, Lutero em muitos momentos preferiu a tradução do significado. No caso da Bíblia, considerando-se a opção de Jerônimo (que argumentou que, na Bíblia, inclusive a ordem das palavras é significativa), este procedimento de Lutero foi pioneiro e revolucionário. Lutero expressou-se assim: “Qual o proveito em se manter, sem necessidade, as palavras com tal rigidez, quando delas não se entende nada?” (Razões da Tradução – 1531-1532, Martinho Lutero – Obras Selecionadas, vol. 8, p. 227). Assim, ele ousou alterar a ordem das palavras do original. Introduziu termos que não tinham equivalente no original e deixou sem tradução termos que seriam redundantes em alemão. Pode-se dizer que Lutero criou o princípio: “literal sempre que possível; dinâmico quando necessário”.

Lutero é modelo para tradutores da Bíblia ainda hoje. Porém, ele não teve e ainda não tem muitos seguidores neste particular, pois quando se trata de tradução da Bíblia muitos preferem as traduções ao pé da letra no estilo de Jerônimo às traduções mais dinâmicas no estilo de Lutero. O cuidado pastoral e o foco evangelístico sugerem que, também neste ponto, deve-se dar preferência ao que Lutero fez com a Bíblia.

Vilson Scholz, pastor e professor de Teologia Exegética, tem mestrado e doutorado na área do Novo Testamento. Consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil, é professor da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas (RS). É tradutor do Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB) e autor de Princípios de Interpretação Bíblica (Editora da Ulbra).

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Imagem: Photo by Aaron Burden on Unsplash.

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