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Opinião

Lidando satisfatória e seriamente com questões sobre Deus

Plantinga e Wolterstorff – A batalha pela filosofia cristã

Por Davi Bastos

Tanto Plantinga como Wolterstorff tinham muito firmemente a convicção de que deveriam não apenas fazer filosofia cristã, mas ser filósofos cristãos contribuintes para a filosofia de sua sociedade. Não queriam se isolar, mas participar da filosofia acadêmica norte-americana de forma excelente e distintamente cristã. Mas como poderiam fazer isso se o ambiente era fortemente hostil às crenças religiosas? Não havia espaço para Deus na filosofia analítica. Precisariam conquistar o terreno.

Por outro lado, não corriam o risco de perder seus empregos caso publicassem livros de filosofia cristã – estavam em uma universidade calvinista. Tinham uma estrutura que lhes permitia iniciar essa batalha com alguma segurança e algum suporte. E mais, tinham uns aos outros. Agora era o momento de atacar. Precisavam, portanto, de algo de excelente qualidade, impecável, que não deixasse (ou quase não deixasse) brechas para o escárnio do consenso filosófico da época. E precisavam de algo fundamental, algo inicial que pudesse dissipar a estrutura antirreligiosa vigente, do qual pudessem construir uma filosofia cristã.

O lugar natural por onde começar foi a questão da existência de Deus. Os filósofos antigos e, principalmente, os medievais, haviam lidado extensamente com essa questão. Seus argumentos para a existência de Deus eram bem conhecidos e debatidos no campo da teologia natural. Os filósofos modernos, à sua maneira, também trabalharam com a teologia natural. Wolterstorff e Plantinga conheciam bem os argumentos ontológicos de Anselmo e Descartes, os argumentos cosmológicos de Tomás de Aquino e Leibniz, os argumentos teleológicos de Aristóteles e Paley. A conclusão “Deus existe” segue-se, em cada caso, de certas premissas. De acordo com uma versão do argumento cosmológico, todo evento tem uma causa, mas qual foi a primeira causa do primeiro evento? Deus, cuja existência eterna não depende de nada além de si mesmo, causou o primeiro evento. Já de acordo com uma versão do argumento teleológico, Por que a natureza é tão organizada, de modo que cada parte possui uma função? Deus a fez assim. E, como defende uma versão do argumento ontológico, Pode um ser totalmente perfeito não existir? Se podemos pensar em Deus como um ser perfeito, então Deus deve existir, porque, se não existisse, não seria perfeito, e não seria o Deus em que pensamos. Esses eram argumentos clássicos e, de alguma forma, saturados na época.

A tradição reformada, contudo, não é muito fã desse tipo de teologia natural. Por causa dos efeitos noéticos do pecado, não podemos confiar em nossa razão para fundamentar a crença em Deus, a qual se apoia totalmente em sua autorrevelação. A tradição filosófica também não foi tão receptiva aos argumentos teístas. David Hume e Immanuel Kant lançaram profundas dúvidas acerca da razoabilidade dos argumentos da teologia natural. Em um contexto positivista, argumentos morais para a existência de Deus (isto é, que afirmam que a existência de Deus é a melhor explicação acerca de por que existem fatos morais) também não surtiriam efeito algum – a maioria não acreditava que há fatos morais.

Além disso, Plantinga e Wolterstorff não criam que a crença em Deus, historicamente, havia surgido de argumentos racionais, nem que as pessoas religiosas acreditavam em Deus porque ouviram bons argumentos. Parece que a crença em Deus não é, no fundo, fruto de reflexão e argumentação. Isso significaria, então, que os críticos estariam corretos em dizer que a crença em Deus é irracional? Dificilmente! Nós não cremos na existência do Sol porque há bons argumentos sobre a existência solar, tampouco precisamos de argumentos para entender que 1 + 1 = 2. A maior parte de nossas crenças não é formada por argumentos! Isso faz que essas crenças sejam irracionais?

Talvez em algum sentido as nossas crenças irrefletidas não sejam racionais, mas isso não significa que elas são irracionais, isto é, que elas são incompatíveis com as conclusões da racionalidade. Assim, se tivéssemos bons motivos racionais para acreditar que o Sol não existe, teríamos de abrir mão da crença de que o Sol existe – seria irracional manter essa crença. Mas nós não temos bons motivos, portanto, não é irracional acreditar que o Sol existe. Por esse tipo de procedimento, contudo, coisas muito óbvias por vezes foram falseadas. Foi assim que Erastóstenes deixou de crer que a Terra era plana, e Einstein deixou de crer que o tempo é absoluto. Para que uma crença não sustentada por argumentos não seja irracional, portanto, basta que ela não contradiga as evidências. A crença em Deus contraria as evidências que temos?

Muitos filósofos há muito têm argumentado que a existência do mal, amplamente observada, contradiz a existência de Deus. Não é possível que Deus, um ser todo-poderoso (onipotente) e completamente bom (onibenevolente), exista em um mundo em que há mal – ele não permitiria a existência da maldade. Como responder a esse desafio? Será que Deus, mesmo sendo onipotente e onibenevolente, poderia tolerar o mal? Mas por qual motivo? Agostinho sugere que a liberdade de escolher entre o bem e o mal é, em si, um bem, e que nem mesmo Deus poderia criar seres livres que não pudessem agir mal (isso seria contraditório). Dessa forma, a liberdade humana e angélica pode ser o motivo pelo qual Deus permite o mal. Mas por que permitir tanto mal? E, se Deus é onipotente, por que não criou seres livres que nunca fizessem o mal? Isso seria impossível para Deus?

Sem lidar satisfatoriamente com essas questões, a crença em Deus não poderia ganhar espaço na filosofia acadêmica. Então, Wolterstorff e, principalmente, Plantinga se dedicaram a encarar em minúcias e detalhes tudo o que podiam acerca dessas questões.

Este texto é parte do livro Plantinga e Wolterstorff: A batalha pela filosofia cristã, de Davi H. C. Bastos (Academia ABC², 2026). Publicado originalmente no site Unus Mundus e reproduzido com permissão.

  • Davi Bastos, bacharel e mestre em filosofia pela Unicamp, atualmente cursa o doutorado em filosofia na Universidade do Missouri e na Unicamp. Editor da série Filosofia e Fé Cristã da Editora Ultimato e da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²). Foi pesquisador júnior do projeto LATAM Bridges in the Epistemology of Religion da Universidade de Houston.

Imagem: Unsplash.
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Davi Bastos é casado com Samara e pai de Moisés, Anastácia (in memoriam) e Irene. É editor da série de livros Filosofia e Fé Cristã (Editora Ultimato) e doutorando em filosofia na Unicamp.
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