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Opinião

Coram Deo: A adoração na vida ordinária

Trabalho, corpo e cotidiano como expressão de adoração

Por Medson Barreto

Se eu pedisse para você fechar os olhos agora e imaginar uma pessoa adorando a Deus, que imagem viria à sua mente?

Provavelmente aparecem mãos erguidas, olhos fechados, talvez lágrimas, um cenário de culto ou um horizonte de natureza aberta com alguém ajoelhado. A imagem é quase universal, e não está errada. Mas ela está incompleta. E essa incompletude revela uma das confusões mais antigas e mais persistentes da vida cristã: a ideia de que adoração é algo que acontece somente em um lugar específico, em um momento reservado, com uma postura adequada.

A adoração no culto
Não é difícil encontrar fundamentos bíblicos para os elementos que normalmente associamos à adoração. A dimensão contemplativa está ali, desde os céus que proclamam a glória de Deus (Sl 19.1) até o pedido de Davi de morar na casa do Senhor para contemplar a sua beleza (Sl 27.4). Diante do oceano, de um pôr do sol ou de uma obra de arte que nos desafia a entender como alguém conseguiu fazer aquilo, algo se move em nós. Essa resposta, de reconhecimento, encantamento e louvor, pode, sim, fazer parte da adoração.
 
O uso do corpo e das emoções na adoração também tem fundamento sólido. O gnosticismo, que influenciou tanto o pensamento ocidental, pregava um dualismo em que o espírito é bom e a matéria é inferior ou má. A fé cristã recusa esse dualismo desde o início. Cristo se fez carne: não apenas pareceu ter um corpo, mas assumiu um. Depois da ressurreição, continuou tendo um corpo, agora glorificado. A esperança cristã não é a fuga do corpo, mas a sua redenção. Por isso Paulo escreve que o corpo é santuário do Espírito Santo (1Co 6.19) e convida a que o apresentemos como sacrifício vivo (Rm 12.1). Há lugar para o joelho que se dobra, para as mãos que se erguem, para as lágrimas que descem, não como performance, mas como expressão de um ser humano inteiro diante de um Deus inteiro.

E há, ainda, a dimensão comunitária. Os Salmos repetem o convite: “Engrandecei o Senhor comigo” (Sl 34.3), “Vinde, cantemos ao Senhor; jubilemos à rocha da nossa salvação.” (Sl 95.1). A adoração não é apenas um assunto entre o indivíduo e Deus; ela convoca o povo a se reunir, a cantar junto, a celebrar, a lamentar. É para isso que existe o culto público.

Contemplação, corpo, comunidade: três dimensões reais e necessárias. Mas há uma pergunta que elas ainda não respondem: e o que fazemos no resto da semana?

A adoração que não cabe no culto
Se toda a nossa teologia da adoração pode ser resumida em debates sobre liturgia, música e a disposição do ambiente de culto, algo está faltando. Não porque esses assuntos não importem. Importam. Mas porque a vida acontece na segunda-feira cedo, no trânsito, na mesa do trabalho, na cozinha, no quarto que precisa ser arrumado.

O Catecismo de Westminster começa com uma pergunta: "Qual é o fim supremo e principal do homem?" A resposta é conhecida: "Glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre." Mas é fácil ler "para sempre" apenas como referência à eternidade e esquecer que o para sempre começa agora, neste dia, neste corpo, nesta rotina.

James Smith propõe que a melhor definição do ser humano não é Homo Sapiens, o ser que pensa, mas Homo Liturgicus: o ser que adora.¹ Calvino já afirmava que existe em nós um sensus divinitatis, uma percepção inata da existência de Deus, que torna o ser humano naturalmente inclinado à adoração.² Isso significa que a adoração não é uma parte da vida; ela é toda a vida. A questão nunca é se adoramos. A questão é quem.
 
O jardim como templo
Para entender o que isso significa concretamente, vale voltar ao começo.

Em Gênesis 1.27-28, Deus cria o ser humano à sua imagem e lhe dá um mandato: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a". Em Gênesis 2.15, a tarefa se especifica: cultivar e guardar o jardim. Se perguntássemos a Adão onde ficava o templo, ele responderia: "O jardim é o templo." E o que ele fazia no seu tempo de adoração? Cultivava, guardava, comia, se relacionava com sua esposa, obedecia a Deus, governava. Vivia.

Não havia separação entre o sagrado e o secular porque toda a vida era vivida Coram Deo, perante a face de Deus. Esse conceito da teologia reformada nomeia algo que o texto bíblico pressupõe: todas as áreas da vida, como trabalho, família, estudo e descanso, são sagradas, porque todas são vividas diante de Deus.

Kuyper formulou isso com uma clareza que se tornou clássica: "Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: "É meu!""³
 
A Queda em Gênesis 3 não cancelou esse mandato; ela o tornou difícil. A terra agora produz cardos e abrolhos, e o sustento vem com suor. Mas há uma continuidade: o cultivo, todo o trabalho humano, segue dependendo da graça de Deus. É Ele quem faz nascer o sol sobre maus e bons, quem envia chuvas sobre justos e injustos (Mt 5.45). O verdadeiro adorador reconhece isso. Reconhece que o ônibus que passou, o salário que caiu na conta, a carteira assinada, o cliente que apareceu, a saúde para trabalhar: tudo é graça de Deus.

Ouvi recentemente um dito antigo a respeito de marceneiros: "Se você quer saber se quem fez uma cadeira foi um crente, olhe embaixo dela. Se estiver tão bem acabada embaixo quanto em cima, foi um crente que fez, porque ele sabe que Deus vê embaixo da cadeira." Lutero dizia algo semelhante a um sapateiro que queria deixar a profissão para servir melhor a Deus: "Faça um bom sapato e venda por um preço justo." Isso é viver Coram Deo.

 
A cama arrumada e os dentes escovados
Tish Warren, em Liturgia do Ordinário, narra como uma decisão simples mudou o ritmo de sua vida: parar de acordar e pegar imediatamente o celular, e arrumar a cama como primeiro gesto do dia. Ela descreve o que descobriu:

"A primeira atividade do meu dia, o meu primeiro movimento, não era de uma consumidora, mas a de uma colaboradora de Deus. Ao invés de buscar uma dose matinal de “infoentretenimento” instantâneo de um aparelho, eu tocava a maciez tangível das minhas cobertas já bem usadas, puxava o algodão enrugado, sentia a madeira dura debaixo dos meus pés descalços. Na história da criação, Deus entrou no caos e fez ali ordem e beleza. Ao arrumar a minha cama, eu refletia esse ato criativo da forma mais minúscula e ordinária. No meu pequeno caos, eu fazia uma pequena ordem."⁴

No capítulo seguinte, ela escreve sobre escovar os dentes, e sobre como esse gesto pode ser uma oração não verbal, um ato de culto que afirma a bondade do corpo, sua destinação à redenção e a esperança da ressurreição.⁵

Não é exagero espiritual. É o que significa levar a sério que o corpo é templo, que a matéria importa, que o cotidiano não é o intervalo entre os momentos espirituais: é nele que a espiritualidade se prova real ou falsa.



 
Caim, Abel e o culto que Deus recusa
O primeiro registro de um culto formal na Bíblia está em Gênesis 4. Caim e Abel trabalhavam, ambos cumprindo o mandato de cultivar. E com o fruto do seu trabalho, vieram prestar culto a Deus. Caim trouxe da produção da terra; Abel trouxe das primícias do seu rebanho, o melhor que tinha.

Deus se agradou de Abel e de sua oferta. De Caim e da sua, não. Por quê? Não era questão de preferência por animais em vez de grãos. O problema estava no coração. Abel vivia Coram Deo: sabia que se o pasto era verde, era porque Deus tinha mandado chuva; que se o rebanho crescia, era graça, não mérito. Quando chegou a hora do culto, era inconcebível trazer qualquer coisa que não fosse o melhor.
O culto era a celebração de uma vida de adoração.
 
Caim não vivia assim. Para ele, a colheita era resultado do seu esforço. Os espinhos e abrolhos eram obstáculos que ele havia vencido. O que produzia era seu. Trazer as primícias, o melhor, o primeiro, significava abrir mão do que podia lhe render mais. Ele até trouxe uma oferta. Mas não trouxe o coração. Malaquias descreve o mesmo padrão séculos depois: pão imundo no altar, animais coxos e enfermos no sacrifício, aquilo que sobrou e não aquilo que importava (Malaquias 1.7-10).

O Salmo 51.16-17 diz com clareza que Deus não se compraz em sacrifícios realizados sem espírito quebrantado. O culto de Caim era desprezível porque a semana de Caim era dedicada a si mesmo.

Essa lógica permanece. Se passamos a semana inteira vivendo para nós mesmos, trabalhando para nossa própria glória, acumulando para nossa própria segurança, servindo a nós mesmos, o culto que prestamos no domingo não se torna sagrado pelo fato de estarmos num templo. Deus não quer só o domingo. Ele quer a semana inteira.

O verdadeiro adorador
Em João 12.3-8, Maria tomou um frasco de nardo puro avaliado em trezentos denários, quase um ano de salário, e ungiu os pés de Jesus, enxugando-os com os próprios cabelos. Judas reagiu com escândalo: desperdício, dinheiro que poderia ter ido para os pobres. O texto nos informa, porém, que Judas não tinha nenhum interesse nos pobres. Ele administrava a bolsa comum e costumava subtrair para si.

Maria era uma verdadeira adoradora. Judas, um idólatra cujo deus era o dinheiro. O idólatra sempre se incomoda diante do verdadeiro adorador, porque a entrega genuína expõe a retenção calculada. A diferença entre os dois nunca está apenas no gesto externo. Está em quem você está servindo quando ninguém está olhando. Está no que você faz embaixo da cadeira.

A Carta aos Hebreus diz que Abel, mesmo depois de morto, ainda fala (Hebreus 11.4). Há algo na vida do verdadeiro adorador que dura e que testemunha além do tempo.

Quando chega o domingo
Isso não diminui o culto público. Pelo contrário, o enriquece. O culto coletivo é mais pleno quando é a celebração de uma semana vivida Coram Deo: quando os que se reúnem já vêm adorando desde segunda-feira, desde a cama arrumada, desde o trabalho feito com honestidade, desde o alimento preparado com cuidado. A liturgia semanal, então, não é o único momento de encontro com o sagrado; ela é o ponto alto de uma vida inteira orientada para Deus.

As práticas formadas no culto, como a oração, os sacramentos e a pregação da Palavra, não existem para separar o sagrado do cotidiano. Existem para nos formar como pessoas capazes de viver o cotidiano como sagrado. São pedagogias do desejo, para usar a expressão de Smith: elas reeducam o coração para que ele saiba reconhecer Deus nas coisas comuns.

Quando você acordar amanhã, quem você estará adorando? Porque você vai adorar. Isso é certo. Fomos feitos para isso. A questão é sempre quem: a si mesmo, como Caim? Ao dinheiro, como Judas? Ou você está disposto a entregar o que você tem de mais precioso, como Maria fez com aquele perfume?

Abel vivia Coram Deo, e seu culto era apenas a celebração de uma vida inteira diante de Deus. A adoração começa quando você acorda. Ela aparece na forma como você trabalha, como cuida do seu corpo, como usa o seu dinheiro, como ama as pessoas que estão ao seu redor. E quando chega o domingo, o que nós celebramos juntos não é uma pausa no mundo: é o encontro de adoradores que passaram a semana inteira adorando.


Para ouvir mais sobre este tema, recomendo a palestra “Adoração na vida prática”, disponível no canal do Nosso Vitral.
Assista aqui.
 
 
Notas
1.SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama. São Paulo: Vida Nova, 2017. cap. 1.
2.CALVINO, João. Institutas da religião cristã. São Paulo: UNESP, 2008. Livro I, cap. III.
3.KUYPER, Abraham. Lectures on Calvinism. Grand Rapids: Eerdmans, 1931. p. 22.
4.WARREN, Tish Harrison. Liturgia do ordinário: práticas sagradas na vida cotidiana. São Paulo: Vida Nova, 2019. p. 42.
5.Ibid., p. 70-71.

Imagem:
Vivian Maier

  • Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.

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