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Palavra do leitor

Ler a vida, quando a perco

"Não acredito em Deus, porque há provas suficientes para isso, mas, em direção oposta, por fazer os momentos de alegria, com significado, e os eventos de triste, de uma maneira suportável e me ajudar a ir a direção de oportunidades para me refazer’’.

Texto de Rute 11.16 e Gênesis 21.18

O que podemos dizer quando, tanto para nós mesmos ou para outros, mudanças batem bruscamente e ocasionam uma reviravolta, não esperada, e ficamos como sem chão? A morte de um ente querido, o desmoronar de uma relação conjugal, o abandono de alguém tão próximo, a sensação da rejeição, o ato da traição, a demissão de um emprego, depois de anos de empenho e compromisso. Além dos exemplos mencionados, muitos podem ser acrescidos e parecer difícil ler a vida, quando a perco, quando tudo ao redor não passa de nostalgia, de lembranças de que foi bom, mas, agora, em meio as tragédias, ao caos, as rupturas, ao banimento, nada sobra, senão a mais dóida solidão e corremos o risco de não nos considerarmos merecedores de sermos ajudados, de nos refazermos, de encontrar significado. O mais dantesco e aterrador, podemos adentrar na idéia de que somos a causa, de que fizemos algo de errado, de que pagamos as contas, de ser punido e passamos a conceber Deus como um figura vingativa, dotado de um humor mórbido – de quero e não quero bem, de este eu salvo e aquele não, de brincar de bem me quer e mal me quer. Isso me leva aos enredos narrativos da história de Noemi, a qual podemos extrair a partir do livro de Rute. Ao observar para Noemi, com toda a compreensão, vejo uma mulher com as cicatrizes, com as fraturas, as assinaturas dos por quais motivos e dos para que(s) que, talvez, a acompanharam, embora não foram palavras sentenciadoras de sua continuidade. Em outras palavras, num período de alterações desfavoráveis, em Israel, Noemi acompanha seu esposo e os dois filhos, para o cenário dos moabitas, ali, se estabelecem, seus filhos se casam e, depois de um ciclo de vivencias, de experienciar os níveis da vida, com suas alternâncias, seu esposo falece e, em sequência, os filhos. Eis a situação ora vivenciada por Noemi, viúva, com duas noras, Orfa e Rute, sem chão, sem eira e nem beira, sem saber o que fazer, senão decidir voltar para sua terra natal e recitar as palavras de lamento, de que estivesse por ser castigada (quem não sabe, porque não confiou em Deus o suficiente, ao ir para a terra dos moabitas; quem sabe, ao se firmarem e se acostumarem com os moabitas, era punida porque se esqueceu da fé Abraamica; quem sabe, porque não orava mais, como antes, não jejuava mais, como antes; não cumpria os rituais e os ritualismos, como antes; quem sabe pagava por suas escolhas erradas). Então, como ler a vida, quando a perco, quando um mulher perde o marido, devido a morte ou porque a desprezou, quando uma mãe pranteia pela morte de um filho, quando um pai se culpa, por causa de sua filha violentada, quando uma pessoa acaba vitimada por uma doença degenerativa, quando uma mãe ou um pai se questionam se, porventura, não são a causa de um filho com problemas, quando os filhos tratam os pais, como se fossem personalidades indignas, quando pessoas integras são descartadas, depois de anos de dedicação, em uma comunidade, em uma empresa, em uma família. Eis a realidade de Noemi, retornar para casa, sem significado e sem se refazer, como se fosse um fardo, como se fosse foco de uma vergonha, um exemplo a não ser seguido, nada mais e nada menos. Por causa disso, Noemi se despede de suas noras, Orfa e Rute, libera-as para voltar as suas realidades, ao seu povo, a sua cultura, a sua raça, a sua origem, entretanto, escuta de Rute o oposto, segundo se registra no capítulo 1.16, com a síntese de que o seu povo será o meu povo, também. Não há como negar, as palavras são comoventes, mexem com nossas emoções, demonstram ternura e compaixão, todavia, ao encarar para as mudanças, Noemi enfrenta o vazio e a questão de como se refazer, com a sensação de perda da vida?

Ultimamente, tenho ponderado de a ausência da fé não está na dúvida, mas sim na desesperança e sou lançado ao episódio de Agar e Ismael, enviados para o deserto por Abraão, o pai da fé, porque sua esposa Sara exigiu, em função de que não tinha nenhuma intenção de ver seu filho Isaque prejudicado. Atentemos para o evento vivenciado por Agar, no deserto, com um adolescente, sem saber o que fazer, sem comida e bebida, prestes a terminarem suas existências ou vidas, um, Anjo direciona a mãe para um poço e não perecem. De certo, o poço sempre esteve lá, o contexto de Agar era de um ser humano sem esperança, deprimido, com raiva de si mesmo e o texto de Gênesis, numa interpretação expressa ou literal, não aponta necessariamente para – levanta o menino e segura – o pela mão e, em linha oposta, sim – ‘’faz tua mão forte na dele’’. Ademais, chore, sim, lamente-se sim, inquiete-se, sim, duvide, sim, e se abra para segurar na mão de outro, por o ajudar a ir adiante.
São Paulo - SP
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